Passear com cães vira crime em 20 cidades do Irã, apesar de tradição milenar de convivência

Na antiga Pérsia, os cães não eram apenas companheiros e auxiliares, mas também tinham profundo significado religioso e moral, especialmente no pensamento zoroastrista.

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Cães No Irã
criado por Tim Wall com DALL-E 4

No início de junho, autoridades iranianas ampliaram a proibição de passear com cães em locais públicos, segundo informações da BBC. A medida, que anteriormente se aplicava apenas à capital, agora se estende a pelo menos outras 20 cidades. O transporte de cães em automóveis também foi proibido.

Políticos e clérigos iranianos consideram a posse de cães como algo contrário aos ensinamentos do Islã. Muitos estudiosos muçulmanos tradicionais veem os cães como impuros do ponto de vista religioso, com exceções para atividades como pastoreio, caça e segurança. O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, descreveu a posse de cães como “reprovável”, de acordo com a BBC.

Acariciar cães e, principalmente, ter contato com sua saliva, pode ser considerado impuro nos ritos islâmicos. No entanto, a visão sobre a posse de cães tem mudado em diversas partes do mundo muçulmano, inclusive na própria Arábia Saudita, berço do Islã.

As autoridades políticas e religiosas iranianas atribuem essa mudança de atitude como resultado da influência cultural ocidental. No entanto, a ligação com os cães no Irã tem uma traduição ancestral, com origens muito antes da fundação do Islã pelo Profeta Maomé.

O papel dos cães na sociedade persa

Mesmo antes do profeta Zaratustra fundar o zoroastrismo, religião persa, os cães já tinham um papel de destaque. Pinturas em cerâmica encontradas no Irã e datadas de 10 mil anos atrás, segundo estudo publicado na revista Paléorient, mostram cães com aparência muito semelhante à dos Salukis modernos, uma das raças mais antigas do mundo e que também acompanhou reis egípcios. 

Mas os cães acompanham a história persa e do Irã em todas as suas etapas. Na Pérsia pré-islâmica, os cães não eram apenas companheiros e auxiliares, mas também tinham profundo valor religioso e moral, sobretudo dentro do zoroastrismo. Essa religião monoteísta, que destaca o dualismo entre o bem e o mal, era a crença dominante no antigo Império Persa (atual Irã) antes do advento do Islã. Embora perseguições religiosas tenham forçado muitos zoroastristas a deixar sua terra natal, a religião ainda sobrevive.

Durante os períodos do Império Aquemênida, também chamado de Primeiro Império Persa (c. 550–330 a.C.) e do Império Parta (247 a.C.–224 d.C.), que sucede a morte de Alexandre, O Grande, os cães ocupavam um lugar de reverência no zoroastrismo.

Segundo a Encyclopedia Iranica, uma ferramenta de pesquisa dedicada ao estudo da civilização iraniana, acreditava-se que os cães afastavam espíritos malignos, especialmente nos momentos de morte. Rituais funerários zoroastristas incluíam o Sagdid (literalmente "olhar do cão"), que envolve ter um cão sagrado — preferencialmente com duas manchas acima dos olhos — vigiando um corpo recém-falecido e antes que ele tenha sido tocado por qualquer outra pessoa para purificá-lo e afastar entidades malignas.

Textos religiosos como o Vendidad, parte das escrituras zoroastristas, enfatizavam a importância de tratar os cães com cuidado e condenavam a crueldade contra eles. Os animais eram vistos como ajudantes de Ahura Mazda, a divindade suprema do zoroastrismo. Eram considerados aliados das forças do bem, contribuindo para a ordem cósmica e, por isso, merecedores de respeito e cuidados. Em alguns casos, matar um cão era considerado pecado.

Atualmente, visões religiosas se voltaram contra a posse de cães como animais de estimação. Não só isso, se voltaram contra a história dos companheiros caninos na sociedade persa, onde já foram bem-vindos e reverenciados. 

No entanto, muitos tutores continuam passeando com seus cães em Teerã e em outras cidades iranianas. Segundo a BBC, ter um cachorro de estimação no Irã hoje é equivalente a desafiar as regras do "hijab" (o véu islâmico). Seria o mesmo que ir a festas secretas ou ingerir bebida alcoólica, uma forma de rebelião silenciosa contra o regime teocrático. Não à toa, apesar dos esforços de autoridades, o número de jovens com animais domésticos cresce no Irã, apontou ainda a rede britânica. 

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