Guerra comercial EUA x China reforça necessidade de mais investimentos na indústria nacional de pet food

Indústria brasileira tem potencial para preencher lacunas deixadas por fornecedores tradicionais diante da guerra comercial. Mas entraves na produção podem fechar portas e aumentar riscos.

May 15, 2025, 10 31 54 Am
created by Tim Wall using DALL-E 4

O mais recente conflito entre as duas principais potências econômicas mundiais está deixando comerciantes, indústrias e economistas de cabelos brancos. Desde a posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos em janeiro e os primeiros anúncios de sua nova política tarifária, o comércio global não tem um dia de paz. Novos riscos e oportunidades aparecem a cada decisão do líder americano e consequentes retaliações do principal alvo das novas tarifas: a China. 

Para o setor pet, especialistas afirmam que a indústria nacional precisa prestar atenção nessas movimentações. Após recorde nas exportações em 2024, existem oportunidades para conquistar novos mercados globais. No entanto, a instabilidade comercial também apresenta riscos com a China buscando alternativas aos Estados Unidos para escoar seus produtos e por limitações enfrentadas pela indústria brasileira para competir por esses novos mercados. 

Guerra comercial EUA x China: como ela afeta o setor pet

Em abril, o Governo Trump anunciou que seriam aplicadas tarifas de 34% sobre produtos chineses, o que gerou uma retaliação em igual medida de Pequim. O vai-e-vem de retaliações resultou em tarifas americanas que somaram 145% contra a China e de tarifas de 125% sobre produtos americanos importados pela potência asiática. 

Os anúncios geraram instabilidade nas bolsas de valores e temores de recessão e impactos negativos na economia global. Para os fabricantes de alimentos para pets, especialmente aqueles que obtêm ingredientes ou materiais de embalagem do exterior, a mudança na política gerou preocupações quanto ao aumento dos custos de produção, afirmou uma reportagem especial da Petfood Industry. 

A balança comercial do setor também corre riscos. Os Estados Unidos é o principal fornecedor de pet food para a China. Em 2023 foram mais de 55,6 mil toneladas enviadas para o país asiático, representando 376,4 milhões de dólares, segundo dados mais recentes do Market Tracker do Pet Food Institute, criado com base no Programa de Acesso a Mercados (MAP), financiado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

Não só isso, os Estados Unidos também figurou entre os maiores compradores, sendo o terceiro destino em volume de exportações chinesas (30,5 mil toneladas). Mas foi o primeiro em valores, comprando cerca de 214 milhões de dólares em mercadorias. 

Nesta semana, a instabilidade no comércio mundial levou os dois países para negociações, o que resultou em uma pausa na escalada da guerra comercial por 90 dias. Na segunda-feira (12/5), os Estados Unidos e a China anunciaram um acordo em conjunto para reduzir as tarifas sobre os produtos um do outro em 115% a partir de quarta-feira (14/5). Isso significa que as tarifas americanas sobre as importações chinesas caíram para 30%, enquanto as tarifas chinesas sobre produtos americanos caíram para 10%.

Na Casa Branca, Trump disse aos repórteres que não espera que as tarifas americanas retornem a 145% após o fim da pausa de 90 dias. No entanto, ainda há instabilidade e a imprevisibilidade do governo americano pode mudar o rumo global a qualquer momento. 

E para o Brasil?

Para o Brasil, o governo americano determinou a aplicação de tarifas de importação de 10% aos produtos oriundos do país. Ainda que impactante, especialistas brasileiros dizem ser o “menor dos males” e, com relação ao setor pet, as listas recentes de tarifas excluíram importantes insumos usados na fabricação de rações, como aminoácidos e vitaminas. Essa decisão tende a reduzir possíveis impactos imediatos sobre a indústria brasileira de pet food, que ainda mantém um fluxo comercial bastante modesto com o mercado norte-americano.

De acordo com dados compilados pela Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), os Estados Unidos ocupam apenas a 16ª posição como destino das exportações brasileiras. Isso mostra, para além do desequilíbrio na balança comercial do setor pet entre os países, alguma segurança do mercado frente às tarifas criadas pelo governo Trump. 

Aliás, é justamente essa baixa representatividade dos Estados Unidos nas exportações brasileiras que traz certo alívio, afirma Lívia Salcedo, professora no MBA em Mercado Pet da USP. “Vejo isso mais como um alerta para ficarmos atentos a oportunidades do que como um risco concreto. Nosso foco está em mercados latino-americanos, onde já temos relações comerciais mais sólidas e em crescimento”, disse em entrevista à Petfood Forum Brasil. 

Em 2024, os maiores importadores do setor pet brasileiro foram a Colômbia, o Uruguai, os Emirados Árabes Unidos, a Bolívia e o Chile, segundo dados da Abinpet.

“Há também oportunidade de ganharmos mercado, como exportadores, para outros países que ainda não estão entre nossos principais destinos, mas que também se encontram afetados pela guerra tarifária”, reforçou o presidente executivo da Abinpet e membro do conselho consultivo do Instituto Pet Brasil, José Edson Galvão de França, em conversa com a reportagem.

Com o acordo entre China e Estados Unidos, a tendência é de que essa oportunidade de expansão perca um pouco de fôlego, mas não desapareça, na avaliação dos especialistas. Isso porque a desconfiança na relação entre os dois países pode manter a abertura para produtos brasileiros. 

“O Brasil está bem posicionado para ampliar sua presença em países que hoje estão sendo impactados pela guerra tarifária. Com uma produção sólida, bom desempenho nas exportações e know-how técnico, temos potencial para preencher lacunas deixadas por fornecedores tradicionais em regiões como América Central, Oriente Médio e partes da Ásia”, avalia Salcedo. 

Indústria nacional pede investimentos para atender novos mercados

Se por um lado a guerra comercial abre caminhos para aumentar a presença brasileira em mercados globais, ela também alerta para a necessidade de investimentos na indústria local. 

Leia também: Mais brasileiros compram ração para pets, mas crescimento do setor ainda é lento

Segundo o presidente da Abinpet, a China também surge como um grande mercado para o produto brasileiro, que tem qualidade internacional e segue os padrões mais rígidos de produção e segurança alimentar. No entanto, o país é um vendedor agressivo que tende a buscar novos mercados para escoar a produção uma vez que o comércio com os Estados Unidos está abalado e mais custoso. 

Nesse sentido, a indústria brasileira precisa se fortalecer para que produtos chineses não representem um risco e que oportunidades em novos mercados não sejam perdidas. Na avaliação de Lívia Salcedo, esse é um tema que precisa de urgência entre as discussões de política industrial do setor. “O Brasil teve alta nas importações nos últimos anos, que foi impulsionada, em parte, pela queda na produção nacional. Algo que está relacionado a uma carga tributária elevada sobre alimentos para animais”. 

Embora a planta industrial brasileira tenha capacidade de produção para 9 milhões de toneladas de pet food, em 2024, apenas 4 milhões de toneladas foram produzidas. Uma redução histórica de 0,6% em relação a 2023, segundo a Abinpet. “Calculamos que, para 2025, se o cenário tributário e o câmbio permanecerem como estão, a queda na produção será maior, chegando a quase 4%”, prevê Galvão de França.

Para os especialistas, neste momento de rearranjos geopolíticos, cabe às empresas e às entidades de classe olharem com atenção para esse novo tabuleiro global. “Em vez de temer o conflito, talvez seja hora de pensar estrategicamente e ocupar espaços que antes pareciam distantes”, enfatiza Salcedo.

Página 1 de 5
Próxima Página