
Pesquisadores da Universidade de Sussex e da Universidade de Exeter, no Reino Unido, detectaram microplásticos em 76% dos alimentos comerciais para pets analisados. A constatação é de um estudo publicado na revista Environmental Toxicology and Chemistry. A pesquisa, apoiada pela instituição de caridade dedicada à conservação de uma espécie britânica de porco-espinho, British Hedgehog Preservation Society, identifica os alimentos para pets como uma via até então pouco reconhecida de contaminação por microplásticos nos ecossistemas terrestres.
Foram 228 amostras analisadas, sendo que 63 (27,6%) continham microplásticos. No nível dos produtos, 76% dos 38 alimentos apresentaram pelo menos uma amostra positiva para microplásticos, enquanto 47% tiveram duas ou mais amostras contaminadas entre as seis analisadas. Entre as 19 marcas avaliadas, 16 (84%) apresentaram pelo menos uma amostra contaminada. Três marcas não apresentaram qualquer vestígio de microplásticos, mas seus nomes não foram divulgados.
"Considerando o enorme número de animais de companhia no Reino Unido, além dos porcos-espinho e outros mamíferos silvestres que recebem esses alimentos como complemento alimentar, isso representa um importante e até então negligenciado caminho para a entrada de plástico nos ecossistemas", afirmou Emily Thrift, doutoranda da Universidade de Sussex e autora principal do estudo, em comunicado da universidade.
Metodologia
Os pesquisadores analisaram 38 produtos para cães, gatos e porcos-espinho comercializados no Reino Unido, pertencentes a 19 marcas e distribuídos em três faixas de preço: econômica (menos de £ 3/kg - cerca de R$ 20,50), intermediária (£ 3 a £ 9,50/kg, cerca de R$ 65,20) e premium (acima de £ 9,50/kg). Todos os alimentos para cães e gatos eram à base de frango para garantir comparações consistentes.
Para cada produto, foram adquiridas seis unidades de diferentes lotes, reduzindo a possibilidade de que os resultados fossem influenciados por um único evento de contaminação. De cada embalagem, foram retiradas seis subamostras em diferentes pontos, totalizando 228 amostras de um grama.
Para isolar os microplásticos, as amostras passaram por digestão química com hidróxido de potássio, capaz de degradar o material biológico. O material remanescente foi filtrado em filtros de vidro de alta precisão e analisado em microscópio estereoscópico.
As partículas suspeitas que não se fragmentaram sob pressão foram medidas com o software ImageJ e classificadas como fibras ou fragmentos. A identificação do tipo de polímero foi realizada por espectroscopia no infravermelho por transformada de Fourier (FTIR), técnica que compara a assinatura espectral de cada partícula com uma biblioteca de referência. Apenas resultados com índice de similaridade superior a 70% foram considerados válidos. Durante todo o processo, os pesquisadores utilizaram controles para identificar e descontar eventuais contaminações provenientes do ambiente laboratorial.
Resultados
Os produtos da categoria econômica apresentaram número significativamente maior de amostras contaminadas do que os produtos premium. Alimentos cuja lista de ingredientes incluía "carne e derivados de origem animal", categoria que pode abranger subprodutos de menor valor comercial, apresentaram índices ainda mais elevados de contaminação: 90% continham pelo menos uma amostra positiva.
Os polímeros mais identificados foram poliéster, poliacrilamida, polietileno e polipropileno. As partículas variaram de 0,09 mm a 3,8 mm de tamanho e foram compostas aproximadamente por 60% de fibras e 40% de fragmentos. A maioria dos polímeros estava associada ao uso industrial e à indústria têxtil, seguida por materiais de embalagem e aditivos.
Os alimentos secos apresentaram maior concentração de microplásticos por grama do que os alimentos úmidos. No entanto, como os alimentos úmidos possuem menor densidade energética, os animais precisam consumir maiores quantidades para atender às suas necessidades nutricionais, resultando em uma ingestão diária estimada de microplásticos superior à observada com alimentos secos.
Estimativa de ingestão diária de microplásticos
Os pesquisadores modelaram três cenários de consumo considerando diferentes níveis de fidelidade às marcas e taxas de contaminação: moderado, elevado e pior cenário possível. A estimativa de ingestão diária foi baseada nas necessidades energéticas de cães de pequeno, médio e grande porte com nível moderado de atividade, além de um peso corporal padrão para gatos.
No cenário moderado, baseado na média de partículas de microplásticos encontrada em todas as amostras, positivas e negativas, um cão de grande porte (35 kg) alimentado exclusivamente com alimento úmido poderia ingerir aproximadamente 313 partículas de microplásticos por dia. O comunicado à imprensa estima uma faixa mais ampla, entre 162 e 2.314 partículas diárias, dependendo do tipo de alimento, da marca e do cenário considerado.
Os porcos-espinhos, frequentemente alimentados com ração em jardins e centros de reabilitação de animais silvestres, foram estimados em ingerir entre seis e 105 partículas de microplásticos por dia. Segundo os pesquisadores, tanto animais domésticos quanto silvestres eliminam essas partículas nas fezes, o que pode contribuir para a contaminação do solo.
O estudo também verificou que a concentração de microplásticos em alimentos para pets foi superior à relatada em alimentos destinados ao consumo humano, embora inferior à encontrada em invertebrados silvestres.
"Os microplásticos não são apenas um problema marinho", afirmou Fiona Mathews, professora de Biologia Ambiental da Universidade de Sussex e coordenadora da pesquisa. "Nossos animais de companhia podem estar disseminando inadvertidamente a poluição plástica por meio da alimentação e das fezes, afetando a vida silvestre e o meio ambiente."
Tamara Galloway, professora de Ecotoxicologia da Universidade de Exeter, acrescentou: "Nossos resultados lembram que os animais de companhia estão expostos aos mesmos poluentes químicos que nós. Tornar a cadeia alimentar mais limpa deve ser uma prioridade para o futuro."
O estudo não avaliou os impactos dos microplásticos sobre a saúde dos animais. As fontes da contaminação, sejam elas a qualidade dos ingredientes, as embalagens ou os processos industriais, permanecem desconhecidas. Os pesquisadores destacam que novos estudos são necessários para identificar os principais fatores responsáveis pela contaminação e compreender seus possíveis efeitos sobre a saúde animal.

















