Definição de alimentos ultraprocessados para humanos não se aplica ao pet food

Modelo padronizado para classificar o processamento de alimentos para pets pode melhorar comunicação em toda a indústria, dizem cientistas.

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Pet Food Ultraprocessada
Tim Wall | Imagem gerada com ferramentas de IA

As tendências de alimentação saudável para humanos estão se afastando cada vez mais dos alimentos ultraprocessados. Acompanhando essa tendência, tutores de pets passaram a adotar certa aversão a processos como moagem, síntese e mistura. No entanto, uma pesquisa publicada na Frontiers in Veterinary Science sugere que transferir diretamente as definições de processamento usadas para alimentos humanos ao pet food pode ser uma simplificação excessiva.

Praticamente todo alimento pode ser considerado processado de alguma forma. Trata-se de uma nomenclatura para dizer o quanto produtos alimentícios são manipulados desde os ingredientes integrais até estarem prontos para consumo e, convenhamos, até uma banana precisa ser descascada.

O que realmente preocupa os consumidores são os chamados alimentos ultraprocessados. Ainda assim, esse termo pode ter significados diferentes para leigos, mas não para cientistas. No campo da nutrição, utiliza-se o sistema de classificação NOVA, desenvolvido em 2010 por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Nesse modelo, alimentos ultraprocessados são formulações feitas majoritariamente ou totalmente a partir de substâncias derivadas de alimentos e aditivos, com pouca ou nenhuma presença de ingredientes integrais. 

Processos semelhantes, padrões diferentes

Do ponto de vista industrial, rações extrusadas (kibble) e dietas enlatadas compartilham características importantes com alimentos ultraprocessados para humanos. Ambas utilizam métodos de processamento em altas temperaturas, como extrusão e esterilização, e incorporam aditivos para garantir estabilidade, palatabilidade e vida útil.

“A principal diferença é que alimentos comerciais para pets são geralmente formulados para fornecer todos os nutrientes essenciais para uma determinada fase da vida, a menos que sejam rotulados para alimentação intermitente ou uso veterinário”, afirma o autor do estudo, Jirayu Tanprasertsuk, cientista sênior da marca de alimentos para gatos KatKin, em entrevista à Petfood Industry.

Segundo ele, alimentos ultraprocessados para humanos não têm essa exigência de completude nutricional. “Na verdade, pessoas que consomem maiores quantidades desses produtos tendem a apresentar pior qualidade geral da dieta e menor ingestão de certas vitaminas e minerais, o que pode explicar, em parte, alguns de seus efeitos negativos.”, declarou.

Essa exigência regulatória diferencia o pet food dos produtos ultraprocessados destinados ao consumo humano, frequentemente associados a dietas de menor qualidade.

Por que os modelos humanos não se aplicam ao pet food?

O sistema NOVA classifica alimentos com base no nível de processamento e tem sido amplamente utilizado para relacionar alimentos ultraprocessados ao risco de doenças crônicas em humanos. No entanto, o estudo conclui que esse modelo não pode ser aplicado diretamente ao pet food.

“Para começar, pets e humanos têm necessidades fisiológicas e nutricionais distintas. Além disso, existem diferenças importantes entre a regulamentação e as cadeias de suprimento de alimentos para animais e alimentos para humanos. Por isso, a classificação NOVA e a definição de alimentos ultraprocessados para humanos não podem ser aplicadas diretamente a formatos específicos de pet food”, explica Tanprasertsuk. 

Alimentos para pets podem incluir ingredientes de grau alimentício animal e materiais processados (renderizados) que não são utilizados em alimentos humanos, além de excluir substâncias seguras para humanos, mas tóxicas para animais.

“Pelo mesmo motivo, não podemos nos basear totalmente em evidências da nutrição humana e assumir que as associações entre alto consumo de ultraprocessados e desfechos negativos à saúde observadas em pessoas se aplicam diretamente aos pets”, acrescenta.

Evidência limitada e variáveis complexas

Embora pesquisas emergentes sugiram que métodos de processamento podem influenciar a saúde dos pets, incluindo efeitos na digestibilidade, composição do microbioma e resultados metabólicos, as evidências ainda são inconclusivas.

“Neste momento, há indícios na literatura de que diferentes formatos de dieta podem influenciar a saúde, a digestibilidade de nutrientes e a exposição a auxiliares de processamento de maneiras distintas”, afirma Tanprasertsuk. No entanto, ele diz que o volume de pesquisas sobre formatos mais recentes ainda é bastante limitado.

Além disso, isolar o processamento como um fator único é desafiador. Variáveis como teor de umidade, densidade energética, composição dos ingredientes e práticas de alimentação frequentemente estão interligadas aos métodos de processamento.

“As técnicas de processamento utilizadas em cada formato de dieta são altamente interdependentes”, disse o pesquisador.

Classificação padronizada para alimentos pet

Para lidar com essa complexidade, os autores do estudo propõem o desenvolvimento de um sistema de classificação baseado no processamento, específico para alimentos para pets. As categorias atuais (seco, semiúmido e úmido) já não refletem a diversidade de formatos disponíveis no mercado, como alimentos liofilizados, desidratados ao ar e levemente cozidos.

“A variedade de produtos cresceu tanto que essas categorias baseadas em umidade já não conseguem capturar toda a diversidade e complexidade dos processos”, explica Tanprasertsuk.

Um modelo padronizado poderia melhorar a comunicação em toda a cadeia, desde a formulação até a rotulagem e a educação do consumidor. “Para os formuladores, isso criaria uma linguagem comum para descrever como os produtos diferem além do nível de umidade”, afirmou.

O objetivo não é classificar determinados produtos como inerentemente melhores ou piores, mas permitir pesquisas mais precisas e decisões mais informadas. “Essa é a verdadeira oportunidade: não estigmatizar nenhum formato sem base científica, mas possibilitar melhor ciência, descrições mais claras dos produtos e decisões de alimentação mais bem informadas”, conclui.

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