
Especialistas de diferentes segmentos da indústria de alimentos para pets apontam que as tendências para 2026 devem continuar as observadas em 2025, mas com mais nuances e maior ênfase nas expectativas dos tutores. Cada uma das tendências destacadas a seguir reflete o conceito de pets como membros da família, com consumidores buscando mais pesquisa científica, mais personalização e, principalmente, mais valor pelo que pagam.
Tendência 1: ingredientes e formulações respaldados pela ciência
Os ingredientes funcionais estão prestes a viver uma nova fase de evolução na indústria. Os tutores buscam desde suporte imediato para condições específicas até soluções de saúde de longo prazo, passando por todas as necessidades intermediárias.
“Em 2026, a funcionalidade continuará sendo um foco central para os consumidores”, afirmou Jorge Martínez, presidente global de nutrição para pets da ADM, empresa global de gestão da cadeia agrícola e fornecimento de nutrição animal. Ele aponta que uma pesquisa OutsideVoice da ADM, realizada em 2025, mostrou que 77% dos tutores de pets no mundo estariam dispostos a pagar mais por produtos com ingredientes funcionais, enquanto 84% demonstram interesse em alimentos que possam ajudar a aumentar a expectativa de vida de seus animais.
Outro ponto que impulsiona a tendência é a longevidade dos pets. Com o maior número de anos que um animal pode viver na fase sênior em alta, os alimentos funcionais para essa faixa etária ficam mais relevantes tanto para tutores quanto para a indústria.
Com a saúde e o bem-estar dos pets se consolidando como um ponto essencial, Jessica Jarett, consultora e cientista principal de pets e lifestyle na Cargill, fornecedora de ingredientes e especialista em nutrição animal, afirma esperar que o foco continue em ingredientes funcionais, como os bióticos, “que oferecem benefícios visíveis para a saúde geral, incluindo digestão e vitalidade”, diz.
À medida que os tutores recorrem cada vez mais à nutrição como solução para problemas de saúde, a pressão sobre a indústria para entregar resultados concretos também aumenta.
Para Steve Lerner, consultor científico e de negócios sênior da empresa global de biotecnologia Novonesis, essa mudança está impulsionando a demanda por alimentos voltados ao bem-estar, com formulações projetadas para apoiar saúde intestinal, mobilidade, controle de peso, saúde da pele e pelagem, envelhecimento saudável, entre outros aspectos.
“Probióticos eficazes e soluções enzimáticas direcionadas se encaixam perfeitamente nessa tendência de dietas de bem-estar baseadas em ciência. Eles contribuem para a saúde intestinal, eficiência digestiva e melhor aproveitamento de nutrientes, exatamente os resultados que impulsionam a tendência de alimentos funcionais”, comenta.
Na verdade, essa crescente consciência sobre saúde de longo prazo pode indicar o próximo passo na evolução dos ingredientes funcionais.
“À medida que a humanização dos pets se intensifica e os animais de companhia vivem mais, a discussão sobre envelhecimento está se transformando. O foco está mudando de um cuidado reativo para intervenções preventivas que abordam não apenas os sintomas do envelhecimento, mas também os processos biológicos subjacentes”, afirmou a Francesca Susca, gerente global da categoria pet da Lallemand Animal Nutrition, produtora de leveduras e bactérias
Embora o envelhecimento seja inevitável, o conceito de “inflammaging”, inflamação crônica de baixo grau que contribui para perda de mobilidade, redução de massa muscular e diminuição da vitalidade, passou a fazer parte do debate mais amplo sobre saúde animal, segundo Susca.
“Estratégias nutricionais precoces, proativas e contínuas podem ajudar a mitigar esses efeitos. Por isso, veremos uma ênfase crescente em ingredientes e formulações capazes de apoiar a mobilidade, preservar a massa muscular, fortalecer a saúde cognitiva e promover vitalidade geral em pets idosos”, explicou.
Felizmente, as possibilidades de funcionalidade nos produtos para pets são amplas e também se conectam a outras tendências importantes do setor, como sustentabilidade, premiumização e conveniência.
“O óleo de algas está surgindo como um verdadeiro divisor de águas, oferecendo uma alternativa sustentável ao óleo de peixe que responde tanto às preocupações ambientais quanto às vulnerabilidades da cadeia de suprimentos”, exemplificou Yannick Verry, diretor de marca do portfólio de eventos Fi da Informa Markets.
Os pós-bióticos também estão ganhando força porque resolvem um problema fundamental dos probióticos: a estabilidade em prateleira. “O mercado de pós-bióticos deve crescer justamente por sua capacidade de oferecer benefícios consistentes em formatos de ração seca, nos quais culturas vivas não sobreviveriam”, completa.
Tendência 2: nutrição personalizada para pets
De acordo com dados da pesquisa Nextin Dog Trends and Insights, da Nextin Research, 47% dos tutores de cães complementam as refeições de seus animais com toppers, molhos, petiscos, suplementos e outros adicionais.
“As pressões econômicas e o desejo de tornar as refeições mais atrativas são fatores importantes que levam os tutores a assumir a personalização da alimentação dos pets”, afirmou Nicole Hill, vice-presidente de estratégia e inovação da MarketPlace, empresa guarda-chuva de inteligência de mercado que abriga a Nextin Research. Ela aponta que os tutores exploram essa personalização de três formas: toppers inspirados em condimentos, complementos funcionais liofilizados e sistemas de refeição que combinam diferentes formatos, da ração seca a alimentos frescos.
A crescente combinação de diferentes formatos na alimentação dos pets é uma das principais razões para a expansão do mercado de toppers, misturas e aditivos.
“Pós, líquidos e outros toppers estão ganhando espaço porque oferecem uma maneira simples e palatável de fornecer nutrição direcionada e permitem que os tutores personalizem a dieta de seus pets sem precisar mudar completamente a rotina alimentar. Para os pets, é como um petisco ou um complemento saboroso na refeição. Para os tutores, é uma forma fácil de ampliar os benefícios à saúde”, explicaram especialistas da empresa de suplementos veterinários Vetnique. Eles afirmam, ainda, que os tutores querem o melhor para seus animais, mas buscam soluções que se integrem naturalmente à rotina diária e produtos que economizam tempo e reduzem esforço, sem comprometer a saúde, terão alta demanda.
Nos últimos cinco anos, a forma como os consumidores encontram essas opções personalizadas também se ampliou significativamente, tornando o comércio eletrônico um elemento central dessa transformação.
“Com o crescimento das compras online, fornecedores de pet food estão oferecendo alimentos personalizados para as necessidades específicas de cada raça”, explicou Jason Jogue, gerente regional de vendas da BluePrint Automation, fornecedora de soluções de embalagem secundária.
Outros fatores, como alergias, também entram na equação. “Normalmente, esse tipo de alimento tem qualidade superior e preço mais elevado. Fornecer ingredientes personalizados para cada pet cria grandes desafios para automação. Mesmo assim, é para onde o setor está caminhando: alimentos para pets entregues diretamente na casa do consumidor.”
Entre o aumento da demanda e a ampliação dos canais de acesso, a indústria de pet food enfrenta um cenário cada vez mais complexo.
A ração seca continuará respondendo pela maior parte do volume, graças à sua conveniência e custo-benefício. “Mas formatos como alimentos liofilizados, frescos, suavemente cozidos e misturas personalizadas estão ganhando interesse constante”, disse Melissa Weber, Ph.D., diretora de serviços técnicos da Rangen Pet Nutrition, especialista em ingredientes e formulações. Segundo ela, esse crescimento exige soluções adaptadas a cada formato, como sistemas de ingredientes específicos e insumos adequados aos processos produtivos, para dar suporte a uma gama cada vez maior de tipos de produtos.
Além disso, à medida que os formatos se diversificam, as marcas precisam de soluções que atendam às exigências específicas de processamento e estabilidade de cada categoria. O afastamento de ingredientes universais abre espaço para abordagens mais flexíveis e adaptadas a cada formato. “Empresas capazes de ajudar as marcas a lidar com essa complexidade terão vantagem competitiva”, acrescentou.
Tendência 3: ampliar a qualidade de vida dos pets
Em fevereiro de 2023, um amplo estudo sobre expectativa de vida foi publicado por Mathieu Montoya, cientista de dados de P&D da Royal Canin, e colaboradores na revista Frontiers in Veterinary Science. Intitulado Life expectancy tables for dogs and cats derived from clinical data, o estudo analisou dados clínicos de mais de mil hospitais veterinários da rede Banfield nos Estados Unidos para construir tabelas de expectativa de vida considerando diferentes fatores.
Uma dessas tabelas apresenta o tamanho da população por faixa etária em diferentes categorias de gatos (sem raça definida e de raça pura) e cães (sem raça definida, gigantes, grandes, médios, pequenos e toy).
Um aspecto notável é a presença de animais com 17 anos ou mais. Nessa faixa etária, se encontram cães de porte pequeno e toy, além de gatos de raça pura e sem raça definida. Na categoria imediatamente anterior, entre 16 e 17 anos, cães de porte médio também estão presentes na população. Já os cães de grande porte alcançam o grupo na faixa entre 15 e 16 anos.
Não há dúvida de que a qualidade dessa vida mais longa está se tornando um fator central na mente dos tutores.
“Influenciados pelas tendências de bem-estar humano, os tutores estão se tornando mais conscientes de áreas historicamente consideradas secundárias na saúde dos pets, como saúde cognitiva, humor, envelhecimento saudável e suporte ao microbioma”, afirmou Jarett, que ressalta que essas áreas representam oportunidades interessantes para melhorar a qualidade de vida ao longo de toda a vida do animal.
Ao mesmo tempo, essa oportunidade também representa um desafio: em quais frentes as empresas devem concentrar seus esforços?
O setor de pet food está mais competitivo do que nunca, e as marcas enfrentam pressão crescente para se diferenciar enquanto acompanham expectativas de consumo que evoluem rapidamente. “Hoje, os tutores esperam muito mais do que nutrição completa e balanceada: eles querem benefícios funcionais comprováveis, credibilidade científica e valores de marca alinhados aos seus próprios. E tudo isso precisa ser oferecido a um preço compatível com o aumento do custo de vida”, afirmou Susca.
Esse cenário de mercado está pressionando fabricantes a desenvolver produtos mais especializados, diversificados e de alto desempenho, capazes de atender necessidades específicas.
“De suporte digestivo e imunidade à qualidade da pelagem, mobilidade e bem-estar geral, oferecer soluções que equilibrem funcionalidade, preço acessível e qualidade premium tornou-se um dos maiores desafios da indústria”, completou Susca.
O consenso do setor
A indústria de pet food precisa continuar oferecendo aos tutores exatamente o que eles procuram, ao mesmo tempo em que aprofunda o nível de pesquisa e sofisticação em nutrição, saúde e bem-estar de animais de companhia. Seja em alimentos completos, petiscos, suplementos, aditivos ou outros formatos, a ponte de comunicação entre a indústria e os tutores precisa permanecer sólida para que todos saiam ganhando.
“Uma das maiores oportunidades no mercado pet é assumir a liderança na educação dos tutores, ajudando-os a tomar decisões informadas e baseadas em ciência sobre a saúde de seus animais”, afirmaram especialistas da Vetnique. Segundo a empresa, o mercado está cheio de opções e, embora a variedade seja positiva, muitas vezes ela gera confusão. Os tutores querem entender o que funciona, por que funciona e quais benefícios traz para seus pets.
“A educação não se resume a vender um produto; trata-se de construir confiança e ajudar os tutores a se sentirem seguros de que estão fazendo o melhor por seus animais. As marcas que combinarem conhecimento respaldado por veterinários com orientações acessíveis e práticas se destacarão em um mercado cada vez mais competitivo”, concluem.


















