2026 será um ano de provas para o setor: presidente da Abempet fala sobre projeções e desafios para indústria pet brasileira

Associação do setor prevê um ano de estabilidade e resiliência enquanto desafios tributários e de câmbio afastam a indústria brasileira de alcançar o seu potencial

Indústria Pet Brasileira 2026
Imagem gerada com ferramentas de IA

A indústria pet brasileira passa por um momento em que a resiliência está entre os ativos essenciais. Com crescimento abaixo do potencial, ambiente tributário desafiador e implicações globais no câmbio, a Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abempet) prevê que 2026 será uma continuação da estrada árdua enfrentada em 2025. 

Com os números do ano anterior ainda em consolidação, a associação projeta que a indústria de pet food deve registrar um desempenho abaixo do seu potencial. “Os números apontam que devemos ter um crescimento de menos de 4% no faturamento total do setor, que deve encerrar o ano com cerca de R$ 78 bilhões”, afirma José Edson Galvão de França, presidente do Conselho Gestor da Abempet.

Segundo França, o pet food, especificamente, chegou à casa dos R$ 41 bilhões, mantendo sua posição como o maior segmento do mercado e representando praticamente metade do faturamento total do setor. No entanto, ainda apresenta resultados “frustrantes” para o presidente. 

A produção de alimentos para pets aponta para uma leve recuperação de 0,85% em 2025 (segundo a projeção do terceiro trimestre) após a queda de 0,6% em 2024. Isso faz com que ela retome ao patamar de aproximadamente 4 milhões de toneladas anuais. A frustração está quando se considera que o parque industrial brasileiro tem capacidade para produzir mais de 9 milhões de toneladas. “O setor segue sólido, sim, mas está muito aquém do que poderia ser. Temos infraestrutura, conhecimento técnico e uma população de mais de 160 milhões de pets no Brasil”, avalia Galvão de França.  

Cenários tributário é o principal empecilho

Sobre o que falta para alcançar esse potencial, o presidente da Abempet aponta para um principal culpado: os impostos que recaem sobre os alimentos pet. 

“Enquanto a média mundial de tributos sobre pet food é de cerca de 18%, no Brasil chegamos a 50%”, informa. De acordo com o presidente, esse cenário encarece o produto final e limita drasticamente o acesso da população. 

Além disso, o setor foi excluído da Reforma Tributária, que passa a valer em caráter de transição em 2026. “Apesar dos estudos apresentados, demonstrando que uma isenção de 60% poderia alavancar a produção para até 9 milhões de toneladas anuais e gerar um aumento de 210% na arrecadação de impostos, não fomos contemplados”, conta. 

Dessa forma, o presidente diz não ser um exagero considerar que 2026 pode trazer mais fatores negativos para o setor do que positivos. Mas avanços concretos na pauta tributária podem mudar o jogo. 

A Abempet afirma que irá intensificar sua atuação política neste ano para incluir o setor pet nas alíquotas reduzidas da Reforma Tributária. “Se conseguirmos isso, poderemos falar em aceleração. Sem isso, será mais um ano de crescimento vegetativo”, prevê Galvão de França. 

Sobre as movimentações nesta direção, o presidente ressalta a tramitação na Câmara dos Deputados do Projeto de Lei Complementar 215/2023 que propõe alterar o Código Tributário Nacional para impedir que as rações sejam classificadas como produtos supérfluos na cobrança do ICMS. A aprovação poderia “corrigir uma anomalia tributária ao deixar de equiparar o pet food a bens de luxo, reconhecendo sua relevância no orçamento familiar e criando um ambiente tributário que permita explorar todo o potencial da indústria.”

Reforma tributária, câmbio e o que mais impacta o consumo pet 

Segundo a Abempet, o cenário tributário também deve trazer consequências para o consumo. Com o início da fase de transição da Reforma Tributária, que irá substituir cinco tributos por dois de forma gradual até 2033, rações e suplementos devem ficar mais caros já que não entraram nas listas de isenções. 

Além disso, considerando que a indústria brasileira depende de ingredientes importados, o câmbio é um fator chave de impacto nos custos de produção e, consequentemente, nos preços finais. Em 2025, o dólar valorizado já tinha seus efeitos no setor, mas, em 2026, o ano eleitoral deve trazer uma volatilidade cambial e incertezas mais acentuadas, afetando as decisões de consumo e investimento.

Outro fator importante que continua desde o ano anterior é a inflação persistente somada à desaceleração do consumo, que criou um consumidor muito mais criterioso. Segundo o Rabobank, um dos mais respeitados bancos internacionais de agronegócio, a inflação de 2026 deve flutuar em torno de 4,2% e a taxa Selic, taxa básica de juros da economia, em 12,5% ao ano. “Isso pressiona o poder de compra e encarece o crédito, afetando diretamente o consumo”, afirma Galvão de França. 

Com juros altos, inflação persistente e crescimento econômico modesto, a renda disponível das famílias é afetada, fazendo com que consumidores sejam mais críticos com suas decisões de compra. 

Alimentação pet permanece como gasto essencial

“A boa notícia é que, mesmo assim, a alimentação pet se mantém entre os gastos considerados essenciais para os consumidores”, avalia o presidente da Abempet. Isso, segundo ele, demonstra que a população brasileira reconhece a importância da nutrição adequada para seus pets

Além disso, tendências de consumo, como premiumização, funcionalidade e humanização, que foram motores para a indústria em 2025, seguem em 2026.

O maior destaque vai para a premiumização: à medida que a maior parte dos tutores consideram seus pets como parte da família e buscam oferecer o que há de melhor no quesito alimentação. 

Apesar disso, Galvão de França ressalta que a tributação atual limita o acesso de famílias de rendas médias e baixas às rações premium. “A carga de impostos faz com que apenas famílias das classes A e B consigam ofertar produtos premium para seus pets. Por isso a mudança na tributação também significa democratizar o acesso à nutrição de qualidade”, reforça o presidente. 

Tendência: famílias buscam nutrição além do básico

Com relação às tendências de consumo, a Abempet aponta que as famílias buscam cada vez mais produtos que vão além da nutrição básica, oferecendo benefícios específicos como fortalecimento da imunidade, saúde articular, digestão eficiente, entre outros. 

A observação segue tendências globais de maior procura por alimentos que ofereçam benefícios para a saúde dos pets, com os tutores inclusive dispostos a pagarem mais por esses produtos

O segmento de snacks e petiscos, em especial, deve despontar no quesito novidades, com produtos que vão além dos agrados convencionais. “Os ‘lanchinhos’ não são mais apenas prêmios. São ferramentas de saúde preventiva, com benefícios como saúde digestiva, prevenção de problemas orais e cuidados com pele e pelagem”, aponta Galvão de França. 

Instabilidade geopolítica traçam novas rotas para a indústria brasileira

Outro fator que coloca desafios para a indústria pet brasileira em 2026 é o cenário geopolítico. Ainda que de forma menos direta do que outros setores econômicos, o setor pet deve considerar a combinação de guerras tarifárias, populismo econômico e disputas geopolíticas em seus planejamentos comerciais para 2026.

Segundo a Abempet, a intensificação do uso de tarifas, subsídios e sanções afetam a indústria brasileira em três frentes: cambial, matérias-primas e exportações. 

A volatilidade cambial e o acesso às matérias-primas são desafios interligados. As tensões geopolíticas, como a guerra na Ucrânia, tensões entre Estados Unidos e China e a instabilidade no Oriente Médio, afetam o valor do dólar, que por sua vez impacta o custo de ingredientes importados. “Somos um país rico em proteínas, grãos e outros insumos para pet food, mas ainda dependemos de alguns ingredientes específicos e aditivos importados, o que impacta diretamente nas cadeias de produção”, explica Galvão de França.

Sobre as exportações, políticas protecionistas e barreiras técnicas afetam diretamente as vendas externas, exigindo mais atenção e estratégias diversificadas para manter a balança comercial positiva. 

No entanto, Galvão de França reforça que o maior entrave para a indústria brasileira de pet food é interno “A carga tributária continua com maior peso do que os desafios externos. Se resolvermos isso, estaremos muito mais preparados para navegar qualquer instabilidade global.”

Mobilização é a palavra de ordem para a indústria pet em 2026

Por fim, o presidente da Abempet aponta que, para que a indústria pet brasileira passe por 2026 de forma positiva, é preciso mobilização. “2026 será um ano de provas para o setor. Mas teremos que ser mais do que resilientes e nos movimentarmos para enfrentar os obstáculos. Esse será um ano em que a força para continuar lutando, capacidade de adaptação e determinação para transformar adversidade em oportunidade serão mais importantes do que nunca.”

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