
A biologia é a maior antagonista da hidratação nos gatos. “Falou de felinos, falou de problemas renais”, afirma Bianca Santos Matheus, médica-veterinária sócia proprietária do consultório As Vets.
É consenso na prática veterinária que problemas nos rins pela hidratação insuficiente estão entre as causas mais comuns que levam os gatos aos consultórios. Eles tendem a concentrar urina, o que aumenta a supersaturação relativa (RSS), uma medida da probabilidade de formação de cristais e cálculos na urina.
+Tendências em nutrição veterinária refletem novas necessidades
A causa disso pode ser explicada pela ancestralidade felina. Os gatos domésticos atuais descendem do gato-da-líbia (Felis silvestris lybica), uma subespécie do gato-selvagem que habita regiões desérticas na África, leste asiático, Ásia central, norte da península indiana e oeste da China. “Todo animal de deserto tem adaptações renais específicas para economizar água. No caso dos felinos domésticos, a adaptação herdada afeta principalmente na quantidade dos néfrons, que filtram o sangue”, explica Bianca.
Para efeito de comparação, segundo o Conselho de Medicina Veterinária de São Paulo (CRMV-SP), os humanos têm mais de um milhão de néfrons e os cães, aproximadamente 450 mil. Já os gatos possuem apenas 250 mil néfrons.
Além da sua anatomia, o comportamento felino também impacta na menor ingestão de água. “Gatos não têm fama de ‘chatos’ à toa. É comum tutores terem problemas para que o gato tome água por preferirem só água corrente e, mesmo usando fontes ou ‘deixando a torneira aberta’ o gato simplesmente não toma água”, conta a veterinária.
Tudo isso faz com que os gatos sejam mais suscetíveis a doenças do trato urinário, incluindo cistite idiopática (inflamação da bexiga) e infecções bacterianas. “Praticamente todo gato terá algum problema relacionado ao longo da vida e, se não teve, é porque não viveu o suficiente para isso”, afirma Bianca.
E aí que está o cerne do problema. O crescimento da população de felinos na composição familiar combinado com o aumento da longevidade dos pets faz com que a preocupação com a saúde urinária felina também ganhe destaque.
Nesse contexto, a nutrição entra em jogo para compensar a falta de ingestão hídrica. Segundo Mayara Andrade, médica-veterinária da GranPlus, uma das formas mais eficazes de equilibrar a dieta dos gatos é adotar o chamado ‘mix feeding’, ou alimentação mista, prática que combina o alimento seco com o úmido e tem como principal objetivo aumentar o consumo de água de forma involuntária.
Por que a alimentação úmida é benéfica para a hidratação dos gatos?
A inclusão de alimento úmido na dieta dos gatos promove uma maior ingestão total de água e, como consequência, a produção de um volume urinário menos concentrado.
Mesmo que os felinos tendam a reduzir o consumo voluntário de água ao ingerirem dietas úmidas, Mayara afirma que o balanço hídrico final acaba sendo superior ao observado com o uso exclusivo de rações secas, mesmo quando estas recebem adição de água.
No caso da alimentação mista, a associação traz benefícios tanto para a saúde quanto para a palatabilidade da dieta. Segundo a profissional da GranPlus, além da umidade, a composição nutricional e a alta digestibilidade do alimento úmido potencializam os ganhos. Isso porque a maior proporção de proteína em relação ao amido ajudam a reduzir o RSS para oxalato de cálcio, enquanto a alta digestibilidade minimiza a perda de água pelas fezes, direcionando mais líquidos para a urina.
Alimentação mista: uma aposta que conversa com tendências de saúde
Nos últimos anos, tutores estão cada vez mais dispostos a pagar por rações que trazem benefícios para a saúde de seus pets. Seguindo essa tendência, o incentivo à alimentação mista e o aumento na disponibilidade de alimentos úmidos premium podem ser uma oportunidade para fabricantes que buscam ganhar os “pais de gatos”.
No entanto, os benefícios da inclusão da alimentação úmida só se justificam na oferta de alimentos pensados para atender essa necessidade que não tragam mais problemas do que vantagens. Traçando um paralelo com a alimentação humana, Bianca afirma que só ofertar uma ração úmida pode não ser a solução ideal. “É como se uma pessoa precisasse aumentar a ingestão de proteína, mas o ideal é que ela não faça isso com um lanche de fast food todos os dias, o que vai gerar mais problemas para a saúde do que resolver a questão nutricional.”
Sendo assim, a médica-veterinária afirma que alimentos úmidos premium devem evitar aditivos como corantes, em especial o corante caramelo IV, presente também em refrigerantes, e espessantes como goma guar e tarragena. “Em grandes quantidades, esses ingredientes podem causar problemas digestivos, como diarréias, vômitos e gastrites e o tutor acaba trocando um problema pelo outro”, relata a profissional.
Para Mayara, além do uso de ingredientes nobres, alimentos que se preocupam com o controle de calorias para auxiliar na manutenção de peso e controle de minerais, são os mais indicados. “É importante deixar as recomendações claras nas embalagens e incentivar consultas com o médico-veterinário antes de qualquer mudança, o que poderá indicar o melhor plano alimentar de acordo com as necessidades do pet", orienta a médica-veterinária da GranPlus.

















