
As orientações de alimentação presentes nas embalagens de alimentos para gatos normalmente se concentram em “quanto” oferecer por dia, deixando o “com que frequência” a critério dos tutores. No entanto, especialmente no caso de gatos idosos, os padrões alimentares preferidos pelos animais podem não coincidir com a rotina dos tutores, de acordo com um estudo publicado na revista Animals.
Segundo o trabalho, realizado por pesquisadores da Royal Canin e do Waltham Petcare Science Institute, ambos pertencentes à Mars Petcare, o apetite de gatos na velhice pode ser afetado por alterações no olfato e no paladar, pela saúde bucal e por mudanças cognitivas. Por isso, eles podem correr risco de perda de massa magra se a ingestão energética cair demais.
A partir de observações realizadas no ambiente domiciliar, a pesquisa pôde definir o que é considerado normal para gatos mais velhos quando eles podem escolher seus próprios horários de alimentação. Além disso, foi possível evidenciar diferenças entre regimes alimentares úmidos, secos e mistos, informações que a indústria de pet food pode traduzir em orientações mais claras ao consumidor.
Em um estudo randomizado do tipo cruzado, onde os mesmos participantes recebem diferentes tipos de dieta, os pesquisadores monitoraram o comportamento alimentar ao longo de 24 horas de 134 gatos saudáveis com 7 anos ou mais, em suas próprias casas. Os gatos foram alimentados ad libitum (com a comida disponibilizada à vontade) em três regimes: apenas ração seca, apenas alimento úmido e uma combinação de úmido com seco (alimentação mista).
Os animais utilizaram comedouros automáticos com balanças integradas, que registravam os momentos de alimentação e a quantidade ingerida. Em todos os regimes, os gatos preferiram consumir várias pequenas refeições ou invés de poucas refeições grandes.
Quanto os gatos idosos comem?
Quando tinham acesso constante ao alimento, o número médio de refeições foi de cerca de seis por dia com ração seca e de aproximadamente sete refeições por dia nos regimes exclusivamente úmido ou misto. Os picos de alimentação ocorreram entre 6h e 9h da manhã e entre 16h e 19h, em consonância com o ritmo de alimentação ao amanhecer e ao entardecer descrito em outras pesquisas sobre felinos.
O estudo também aponta que o tipo de dieta causou variações no consumo calórico diário médio. A ração seca resultou no maior consumo (262,6 kcal/dia), seguida pela alimentação mista (222,6 kcal/dia). A dieta exclusivamente úmida registrou o menor consumo (138,1 kcal/dia).
Os autores notam que a ingestão na dieta exclusivamente úmida ficou significativamente abaixo das demais, sendo inferior ao valor de referência estimado para as necessidades energéticas diárias de um gato adulto de 4 kg (cerca de 208 kcal/dia). A dieta exclusivamente seca, no entanto, excedeu essa estimativa.
Quanta água um gato idoso bebe?
Os resultados sobre ingestão de água reforçaram um cenário já observado em estudos semelhantes em que a nível de umidade da alimentação está proporcionalmente relacionado com o quando o gato bebe água.
No estudo, os gatos beberam mais água voluntariamente quando alimentados com ração seca. Mas, a ingestão total de água, uma soma da água bebida e da umidade do alimento, foi maior na oferta de dietas úmidas. A alimentação mista apresentou valores intermediários.
Com o resultado, o artigo relaciona dietas com maior teor de umidade (mistas e exclusivamente úmidas) a maiores volumes de água na urina de gatos observados em estudos anteriores — um tema que muitas marcas já abordam e podem reforçar em suas ações de educação ao consumidor.
Comparação com as recomendações atuais
No geral, as orientações veterinárias para a alimentação de gatos idosos ressaltam a oferta de várias pequenas refeições ao longo do dia. As diretrizes de cuidados para gatos idoso da American Association of Feline Practitioners (Associação Americana de Clínicos Veterinários de Felinos, na tradução livre), citadas pelo estudo, sugerem de três a quatro pequenas refeições diárias para gatos mais velhos.
No entanto, as observações em domicílio indicam que, em condições de livre acesso ao alimento, muitos gatos idosos saudáveis distribuem naturalmente a ingestão de forma ainda mais frequente, com cerca de seis a sete refeições por dia. Embora seja pouco prático esperar que os tutores ofereçam sete refeições individuais diariamente, esses dados fornecem um ponto de referência comportamental baseado em ciência, tornando as orientações de alimentação menos arbitrárias aos olhos dos tutores.
No caso dos alimentos úmidos, em especial, os resultados servem de alerta de que a prática de oferecer “um sachê, duas vezes ao dia” pode não suprir as necessidades energéticas de alguns gatos idosos. Para a ração seca, o maior consumo médio e a elevada variabilidade observada no estudo apontam para o risco oposto: alguns gatos podem consumir calorias em excesso quando têm acesso livre ao alimento, especialmente para gatos que vivem exclusivamente dentro de casa.
A alimentação mista ficou em um patamar intermediário em termos de calorias, ao mesmo tempo em que manteve uma ingestão total de água maior do que a da dieta seca. Segundo a pesquisa, a combinação pode ajudar a equilibrar o aporte energético e os benefícios relacionados à hidratação em gatos idosos.
Em conclusão, o trabalho recomenda que as diretrizes de alimentação para gatos acima dos sete anos devem apontar para a oferta de várias pequenas refeições por dia, utilizando uma combinação de formatos úmido e seco. Essa orientação visa atender ao comportamento alimentar fracionado dos gatos mais velhos, equilibrar a ingestão calórica e favorecer a saúde do trato urinário dos animais.


















