Nutrição para todas as idades: como a indústria responde ao envelhecimento dos pets

Com aumento da população de cães e gatos idosos, fabricantes de investem em formulações específicas para garantir saúde e bem-estar.

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VetriScience Laboratories|Unsplash

Na saúde humana, a relação da alimentação com uma vida longeva e saudável é cada vez mais estudada e disseminada. Até porque a população mundial está mais envelhecida. Segundo o estudo Perspectivas da População Mundial da Organizações das Nações Unidas (ONU), o número de pessoas acima dos 80 anos irá superar o de crianças já em 2030. Essa mudança no perfil etário da população faz com que seja necessário entender como chegar à terceira idade com saúde e bem-estar.

Para os cães e gatos, o cenário não é muito diferente: a prevalência de  idosos na população também está crescendo. Estima-se que de 20% a 40% já são considerados são “velhos”, superando os 11 anos de idade, o que motiva transformações por toda a indústria, em especial o setor de pet food. Com o avanço da idade, estes animais passam por alterações metabólicas, digestivas e imunológicas que impactam diretamente a abordagem nutricional e energética — uma perspectiva importante para os fabricantes. 

Para Danilo Souza, gerente de P&D da BRF Pet, formulações devem ser ajustadas para atender às novas demandas. “Investir em uma nutrição adequada para todas as fases da vida é muito vantajoso. Oferecer esse tipo de opção possibilita que o tutor se mantenha fiel à marca de sua confiança, encontrando alimentos adequados que possam acompanhar o pet em todas as idades.”

Como o envelhecimento afeta a nutrição para pets

Existem várias diferenças entre as necessidades nutricionais para pets, a depender da espécie e raça do animal. Cada variante inclui aminoácidos, ácidos graxos, vitaminas e minerais específicos. Por exemplo, a taurina é um aminoácido essencial para o gato, mas não para o cão. 

Quando o animal envelhece, essas necessidades mudam. O envelhecimento é um processo natural que envolve transformações progressivas no organismo dos pets. Os gatos são  considerados idosos a partir dos 10 anos, embora alterações fisiológicas e de saúde já possam ser observadas desde os 8 anos de idade. Para os cães, a classificação varia conforme o porte: raças menores são consideradas seniores a partir dos 12 anos, enquanto raças maiores chegam a essa fase por volta dos 10 anos.

Segundo Souza, a redução da taxa metabólica basal é uma das principais alterações. Isso diminui a necessidade energética para manter funções vitais como respiração, regulação da temperatura e funcionamento dos órgãos. “Essa desaceleração impacta diretamente o manejo nutricional e energético, já que o organismo demanda menos calorias, mas ainda precisa de nutrientes essenciais em quantidade e qualidade adequadas.” 

O envelhecimento também afeta a composição corporal, com perda gradual de massa muscular e aumento relativo de gordura, o que pode comprometer a mobilidade, diz o especialista. Paralelamente, há uma queda na capacidade digestiva e na absorção de nutrientes, influenciada pela redução da produção de saliva, secreção gástrica e enzimas pancreáticas, além de alterações nos sais biliares. “Essas mudanças prejudicam a digestão de proteínas e lipídios e são agravadas pela diminuição das vilosidades intestinais e da motilidade do cólon, fatores que favorecem constipação e trânsito intestinal mais lento”, explica Souza.

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Além disso, o envelhecimento enfraquece o sistema imunológico, deixando os pets mais vulneráveis a infecções, e aumenta a ocorrência de problemas ósseos e articulares que comprometem a qualidade de vida. Também são comuns alterações na microbiota intestinal, com perda de diversidade e desequilíbrio bacteriano, o que reforça a necessidade de cuidados nutricionais específicos nessa fase.

O que considerar em formulações para pets idosos

Os tutores estão investindo recursos significativos na saúde de seus animais de estimação. Com o envelhecimento dos pets, isso se reflete na busca por alimentos pensados para essa fase da vida. 

Segundo Diego Tresca, sócio fundador da A Quinta, foodtech especializada em alimentação natural para cães, as transformações da idade exigem uma formulação específica. É fundamental que a dieta inclua proteínas de alta digestibilidade, fibras funcionais para a saúde intestinal, antioxidantes naturais para proteção celular, e ingredientes que promovam a saúde das articulações e do sistema imune. 

Além disso, é crucial controlar os níveis de fósforo e sódio, ao mesmo tempo em que se reforça a ingestão de vitaminas do complexo B, ácidos graxos essenciais e minerais de fácil absorção.

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De acordo com Souza os aspectos mais relevantes para alimentos para pets idosos incluem:

  • Menor concentração de fósforo: importante para preservar a função renal, que tende a se comprometer com o envelhecimento.
  • Energia metabolizável reduzida: ajustada à menor demanda energética dos cães seniores, ajudando no controle de peso.
  • Presença de cereais integrais e fibras: contribuem para a saúde intestinal e melhor digestibilidade.
  • Teor proteico intermediário: suficiente para manter a massa muscular sem sobrecarregar o metabolismo.
  • Aditivos funcionais: como probióticos, prebióticos, ômega-3, antioxidantes naturais, minerais orgânicos, entre outros.

Com o avanço da idade, também é comum observar uma redução na ingestão alimentar voluntária em cães e gatos por alterações sensoriais no olfato e paladar. 

Por isso, Tresca diz que é fundamental que as dietas para pets idosos sejam altamente palatáveis, estimulando o consumo mesmo diante de menor apetite. “Pets idosos muitas vezes apresentam alterações dentárias ou menor apetite, e precisam de alimentos mais macios, aromáticos e atrativos, sem abrir mão do equilíbrio nutricional.” 

Em rações secas, é importante que o tamanho e a densidade do kibble (unidade de ração seca) do alimento seja adequado ao porte do animal e, dependendo da condição dentária, combinações com alimentos úmidos ou uma alimentação úmida exclusiva pode ser indicada. 

Papel dos fabricantes de pet food na saúde de pets idosos

Para os especialistas, em um mercado como o pet impulsionado pela valorização da saúde preventiva com foco em longevidade, a demanda por alimentos para essa etapa da vida vem aumentando. Mas falta conscientização para que essas dietas sejam mais difundidas. 

“Para nós, investir em uma linha específica para cães idosos é uma prioridade, pois esse público cresce no Brasil e ainda carece de informação. Muitos tutores não têm consciência de que as necessidades nutricionais mudam de forma significativa ao longo da vida do pet”, afirma Tresca. 

Segundo Souza, a falta de conhecimento começa com a dificuldade em reconhecer que o pet já entrou na fase senil, principalmente porque pode ser difícil reconhecer os sinais do envelhecimento. “É muito comum que tutores não saibam exatamente a idade do animal ou não associem mudanças comportamentais e físicas ao envelhecimento.” 

Esse cenário se traduz em oportunidades para os fabricantes de pet food que investem em formulações específicas para essa fase de vida. Para Souza, elas estão especialmente no papel da educação e orientação dos tutores, principalmente para os que não têm o hábito de consultar o veterinário sobre a alimentação de seus animais. 

“Uma das estratégias mais eficazes nesse sentido é investir em embalagens com comunicação clara e acessível, destacando de forma objetiva os benefícios nutricionais do produto e a idade recomendada para sua introdução na dieta do pet. Ações desse tipo ajudam a guiar decisões de compra mais conscientes”, afirma.

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