‘Comida é remédio’ para pets? Tutores apoiam a ideia, mas cobram mais informação qualificada

Pesquisas mostram que os consumidores veem a alimentação e a nutrição como essenciais para a saúde e o bem-estar dos pets, mas sentem falta de orientação veterinária.

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Em 2023, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos (HHS, na sigla em inglês) lançou o programa Food Is Medicine (“Comida é remédio”). Essa iniciativa, financiada pelo Congresso americano, visava promover a alimentação e a nutrição como pilares da saúde geral, combatendo doenças crônicas ligadas à nutrição e a insegurança alimentar, conforme detalhado no site do HHS.

Programas como esses, embora não sejam inovadores, estão ganhando visibilidade. Contudo, ainda são pouco conhecidos tanto pela maioria dos consumidores quanto pelos profissionais da área da saúde.

Uma pesquisa recente, conduzida pela Fundação Rockefeller, que tem seu próprio programa Food Is Medicine, revelou que o conceito ainda é pouco conhecido. Mais de 2.200 pessoas (1.135 pacientes e 399 profissionais de saúde) foram entrevistas nos 50 estados dos Estados Unidos e apenas 13% do público em geral e 32% dos profissionais de saúde estavam familiarizados com o termo. Os resultados foram divulgados por Jolanda van Hal no site NutritionInsight.com.

Ainda assim, o interesse existe. Mais de 80% dos entrevistados acreditam que “a área da saúde deveria oferecer mais programas de alimentação e nutrição para tratar e controlar doenças”, escreveu van Hal. Quase 90% dos pacientes entrevistados expressaram preferência por uma abordagem de saúde baseada na alimentação saudável ao invés de medicamentos.

No mundo pet, embora muitos tutores não utilizem o termo "comida como remédio", suas preferências de consumo indicam uma mentalidade alinhada a essa ideia. Em janeiro de 2025, uma pesquisa da Packaged Facts, organização especializada em pesquisas de mercado, cobrindo alimentos, bebidas e bens de consumo embalados, entrevistou tutores de cães e gatos nos Estados Unidos e revelou que 80% consideram a ração o item mais crucial para a saúde de seus pets. Além disso, mais de 20% disseram buscar formulações voltadas para necessidades específicas de saúde e bem-estar dos animais. 

Tutores associam ração à saúde e ao bem-estar dos pets

Outros dados da Packaged Facts reforçam a percepção da ração como um fator importante para a saúde dos pets. A nutrição e a alimentação estão entre as principais preocupações de saúde para 44% dos tutores de cães e 49% dos tutores de gatos, com um nível de importância semelhante ao do exercício físico. Em comparação com pesquisas anteriores, a empresa aponta para uma crescente disposição dos tutores em pagar mais por rações que oferecem benefícios de saúde e bem-estar, passando de 66% em 2023 para 74% em 2024.

Leia também: Tutores estão dispostos a pagar mais por rações que beneficiam a saúde dos seus pets

É importante notar que a disposição de pagar mais não se traduz necessariamente em ação, especialmente em períodos de instabilidade econômica. No entanto, a compra de alimentos para pets nos Estados Unidos motivada pela busca por benefícios em saúde específicas é uma tendência, conforme a Packaged Facts, mesmo que os números ainda sejam modestos. Uma pesquisa anterior da empresa, de 2024, revelou que, entre os tutores que adquiriram rações funcionais, 17% optaram por formulações para a saúde geral, e entre 9% e 12% escolheram rações específicas para alergias, saúde da pele e pelagem, digestão ou saúde bucal.

“Hoje, a maioria das rações para pets se posiciona de alguma forma em torno de saúde e bem-estar”, disse Shannon Landry, gerente de marca da Packaged Facts, durante apresentação no Petfood Forum 2025. “Até marcas de valor mais baixo fazem alegações relacionadas à saúde.”

Desconexão: tutores querem orientação dos veterinários sobre ração e nutrição

A ideia de “ração como remédio” enfrenta uma barreira na desconexão entre o que os tutores acreditam e buscam sobre saúde e bem-estar e a tradicional carência de foco ou conhecimento nutricional por parte dos veterinários.

Dados da Packaged Facts mostram que a escolha da ração, inclusive como medida preventiva de saúde, é o tema sobre o qual os tutores mais gostariam de receber orientação de seus veterinários: 24% dos tutores de animais de estimação abordaram essa questão. Além disso, entre 13% e 18% gostariam de receber mais informações sobre petiscos e suplementos.

No entanto, a necessidade dos tutores encontra barreiras na formação dos veterinários. Ou melhor, na falta dela. No início de 2025, o Purina Institute relatou que “apenas um em cada cinco profissionais veterinários entrevistados diz oferecer proativamente conselhos nutricionais na maioria das consultas”. 

“A alimentação dos pets tradicionalmente tem um papel limitado na grade curricular das faculdades de veterinária, e, por consequência, nos serviços veterinários para animais de companhia”, disse David Sprinkle, diretor de pesquisa de mercado pet da Packaged Facts, em sua coluna "Market Report" da edição de julho de 2025 da Petfood Industry.

Ele destaca que questionamentos sobre o papel da nutrição na formação veterinária persistem desde 1996, ano em que uma pesquisa indicou que 70% dos veterinários norte-americanos consideravam sua capacitação nutricional insuficiente. Uma nova pesquisa, realizada em 2016, revelou pouca melhora: 64% dos estudantes de veterinária nos Estados Unidos e Canadá ainda percebiam que a nutrição era pouco enfatizada em seus currículos.

Sprinkle aponta que, embora as escolas veterinárias estejam progressivamente focando mais na nutrição de pets, especialmente por meio de programas de nutricionistas veterinários certificados, uma especialidade reconhecida pelo American College of Veterinary Internal Medicine desde 2021, a publicação Petfoodology (2023) da Universidade Tufts (Massachusetts, EUA) revelou que os Estados Unidos contam com apenas cerca de 100 desses profissionais.

E esses especialistas “geralmente ocupam cargos institucionais, corporativos ou governamentais (incluindo em faculdades de veterinária, hospitais veterinários especializados e de ensino, e grandes fabricantes de ração)”, aponta. Ficando longe de posições capazes de orientar diretamente os tutores sobre como alimentar seus pets. Veterinários generalistas podem até encaminhar clientes para nutricionistas certificados em universidades ou hospitais veterinários, mas esse tipo de atendimento costuma ter um custo elevado, que muitos tutores não podem ou não querem pagar.

O papel de fabricantes de ração

Grandes fabricantes de ração, como Purina, Mars (e sua subsidiária Royal Canin) e Hill's, há muito tempo, investem na formação de veterinários. Não por acaso, são também as principais no segmento de dietas veterinárias para pets, e é comum que as informações sobre nutrição animal fornecidas a estudantes e profissionais sejam focadas em seus produtos.

No entanto, isso não impede que essas e outras empresas desempenhem um papel fundamental na redução da lacuna de conhecimento em nutrição. Por exemplo, o Purina Institute divulgou proativamente, por meio de um comunicado de imprensa, dados sobre o número de veterinários que oferecem orientação nutricional. Este comunicado, conforme relatado por Sprinkle, fazia parte de uma série de webinars sobre nutrição para animais de estimação, direcionados a veterinários.

Anúncios recentes mostram empresas de ração investindo em nutrição clínica veterinária. A Royal Canin e a Farmer's Dog, por exemplo, estão financiando cadeiras acadêmicas e programas de residência em universidades como Texas A&M e Universidade do Tennessee, respectivamente. É notável que empresas menores e especializadas, como a Farmer's Dog (que não tem linha veterinária) e a Just Food for Dogs (que apoia a Western University of Health Sciences), também estejam aderindo a essa iniciativa.

É importante notar que os exemplos mencionados são apenas uma amostra, e não uma lista exaustiva, de iniciativas já em andamento. O cerne da questão, e a grande esperança, é que ao impulsionar a educação nutricional dos veterinários, mais profissionais estarão aptos a oferecer as orientações tão buscadas pelos tutores. Isso resultará em benefícios para todos, sobretudo para os pets. 

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