Opinião: enchimentos em rações para pets são monstros mitológicos do marketing ou ameaça real?

A redução da lacuna entre ciência e marketing pode ser desafiadora. contudo, ao auxiliar os tutores a desmistificarem o conceito de "enchimentos" e a compreenderem o valor nutricional de cada ingrediente, é possível promover escolhas mais conscientes e uma maior valorização da complexidade envolvida na formulação de alimentos para pets.

Tw Headshot Cropped Headshot
Imagem 2025 07 21 143717880
Imagem criada pelo autor com ferramentas de IA

Grande parte dos inúmeros e-mail marketings sobre rações para pets demonizam certos ingredientes, tendo o tal do “enchimento” como alvo frequente. No entanto, no início da minha trajetória cobrindo o setor, um pesquisador em nutrição pet me disse que, no fim das contas, esse negócio nem existia na prática. 

Ele explicou que os formuladores estavam sempre tão focados em incluir os ingredientes certos na composição que não havia espaço para colocar algo desnecessário só para “encher linguiça”. Cada ingrediente tinha uma função, de uma forma ou de outra.

Então, os enchimentos são realmente vilões nas rações ou apenas fantasmas do marketing?

“O que se classifica como ‘enchimento’ depende de quem está fazendo a afirmação, porque não existe esse termo definido por nenhum órgão regulador ou livro de nutrição”, escreveu Greg Aldrich, Ph.D. e professor associado de pesquisa na Universidade Estadual do Kansas, Estados Unidos, em sua coluna na Petfood Industry. “Essa ambiguidade parece ser uma vantagem traiçoeira. ‘Sem enchimento’ virou uma expressão jogada ao vento, usada para explorar nossas percepções e medos de estarmos sendo enganados ou prejudicados.”

No cenário competitivo do marketing de alimentos para pets, poucos termos carregam uma conotação tão negativa quanto “enchimentos”. Frequentemente usado em campanhas publicitárias para diferenciar marcas premium de produtos convencionais, o termo virou sinônimo de ingredientes considerados baratos, sem valor nutricional ou desnecessários. Mas nos laboratórios e fábricas da indústria pet, a realidade é bem mais complexa, e o termo tem pouca base científica ou nutricional.

Quando marcas de ração se promovem como “livres de enchimentos”, não estão fazendo uma alegação definida por critérios legais ou científicos. Em vez disso, estão explorando uma narrativa que assume que certos ingredientes, como milho, trigo, soja, polpa de beterraba ou farelo de arroz, não servem para nada além de “encher” o produto. 

Essa estratégia de marketing tem raízes em tendências mais amplas da alimentação, especialmente nos movimentos de “rótulos limpos” (clean labels) e rações sem grãos, onde a simplicidade e familiaridade dos ingredientes muitas vezes se sobrepõem à sua funcionalidade nutricional.

Leia também: ingrediente pós-biótico reduz 20% da coceira em cães

História e uso do termo “enchimento” em rações para pets

Analisando a etimologia do termo, “enchimento” originalmente se referia a subprodutos da moagem de grãos incluídos na dieta de animais de produção, observou Aldrich.

“A lista incluía coisas como cascas, palhas, restos, poeira e talos. Curiosamente, esses itens são partes de ingredientes especificamente definidas, e é possível alegar, de fato, se um alimento contém ou não esses elementos. Com poucas exceções, esses itens não são usados em rações comerciais para pets há décadas”, escreveu o professor.

Pelo contrário, muitos ingredientes que hoje aparecem nas rações — e ainda são rotulados como “enchimento” — na verdade contribuem significativamente para o valor nutricional ou o desempenho funcional do produto. A polpa de beterraba, por exemplo, oferece fibras fermentáveis que promovem a saúde intestinal. O milho e o arroz fornecem carboidratos altamente digestíveis e aminoácidos essenciais. Até mesmo cascas de soja, que parecem ter baixo valor nutricional, podem ser úteis para reduzir a densidade calórica em formulações voltadas ao controle de peso.

Além disso, esses ingredientes muitas vezes exercem papel fundamental na estrutura física e no processamento da ração seca. A extrusão depende de propriedades específicas dos amidos para alcançar a textura, densidade e estabilidade desejadas. Ingredientes descartados como “enchimento” podem ser essenciais para esse processo.

Apesar disso, a alegação de “livre de enchimento” persiste porque ressoa com preocupações dos tutores. Marcas que promovem rações premium, com alto teor de carne ou com poucos ingredientes, tendem a destacar a ausência de “enchimentos” como sinal de pureza, qualidade ou superioridade nutricional, mesmo que essas alegações não tenham base científica ou regulatória.

Essa desconexão entre o discurso de marketing e a realidade da formulação representa um desafio para os profissionais da indústria. Ela não apenas distorce a percepção dos consumidores, como também pressiona os formuladores a evitarem ingredientes funcionais e custo-efetivos em favor de modismos do mercado.

Página 1 de 8
Próxima Página