Nova abordagem baseada no microbioma pode redefinir saúde intestinal de cães

Conceito propõe atuar na origem dos desequilíbrios do microbioma e pode ampliar aplicações de ingredientes funcionais no mercado pet

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A Petfood Industry conversou com a Dra. Rosemary Waring, diretora científica da Tharos, empresa britânica especializada em saúde animal, sobre uma nova abordagem para a saúde intestinal dos animais chamada anabiômica. A companhia, que atua com foco no microbioma animal, lançou no segmento pet canino um suplemento enzimático natural patenteado derivado da cevada, o CaniNectar, após três anos de pesquisas realizadas inicialmente com cavalos.

O que é anabiômica?

O conceito de anabiômica está relacionado ao momento em que ocorre a intervenção no microbioma do animal.

Probióticos e pós-bióticos atuam em uma etapa posterior do processo: você adiciona cepas bacterianas externas esperando que elas consigam se estabelecer ou fornecer subprodutos metabólicos que essas bactérias naturalmente produziriam. "O problema é que nenhuma dessas abordagens questiona por que o microbioma entrou em disbiose em primeiro lugar, e as evidências clínicas refletem essa lacuna. Os benefícios tendem a ser modestos, variam consideravelmente entre indivíduos e não são duradouros, principalmente porque as bactérias introduzidas enfrentam resistência da comunidade microbiana já existente e as condições que originaram o problema permanecem inalteradas”, afirma Waring. 

Segundo a pesquisadora, a anabiômica, termo definido por Waring, Dagi e Hunter em um artigo publicado em 2024 no Journal of Modern Agriculture and Biotechnology, propõe uma abordagem anterior ao desenvolvimento da disbiose. "O objetivo é restaurar as condições que permitem que as bactérias benéficas do próprio animal prosperem naturalmente, sem introduzir qualquer organismo externo”, explica. 

Como o CaniNectar funciona?

De acordo com a Tharos, o CaniNectar é produzido a partir de cevada maltada utilizando variedades tradicionais com elevado teor natural de enzimas. O suplemento reúne essas enzimas, todo o complexo de vitaminas do grupo B, antioxidantes naturais e minerais essenciais, como magnésio, potássio, selênio, zinco e ferro.

No caso do CaniNectar, a restauração das condições ideais do microbioma ocorre por meio de dois mecanismos que atuam em conjunto: enzimas digestivas que reduzem o volume de material não digerido que chega ao cólon — principal fonte de alimento para bactérias patogênicas — e uma matriz de maltodextrina que modula independentemente o ambiente intestinal. "Estamos modificando o substrato disponível, e não adicionando novos microrganismos à população”, afirma Waring.

Segundo ela, esse mecanismo promove uma mudança sustentada pelo próprio microbioma do animal, sem depender da suplementação contínua. "Os dados longitudinais da UK Border Force, que acompanharam seis cães de trabalho durante dois anos, mostraram uma redução média de 96,8% das bactérias do grupo Spirochaetes, resultado que permaneceu estável após dois anos de acompanhamento, sem expansão de patógenos em nenhum momento. Esse nível de durabilidade simplesmente não costuma aparecer na literatura científica sobre probióticos."

Como a anabiômica atende à demanda por ingredientes funcionais

Segundo Waring, um dos principais movimentos atuais da indústria pet é a crescente busca por ingredientes funcionais, e a anabiômica pode atender a diferentes necessidades relacionadas à saúde animal. Entre elas: 

Ansiedade

A ansiedade provavelmente representa hoje a maior necessidade ainda não atendida na saúde dos animais de companhia. “Mais de 70% dos cães apresentam pelo menos um comportamento associado à ansiedade”, relembra Waring. Hoje, ansiedade e agressividade já são citadas com mais frequência do que doenças ou custos como motivos para o abandono de cães pelos tutores. “As opções disponíveis atualmente são medicamentos que apenas controlam os sintomas ou suplementos calmantes que atuam sobre o sistema neurológico sem tratar a causa do problema. Nenhuma dessas abordagens chega à origem da condição."

Segundo ela, o que mudou nos últimos anos foi o avanço das pesquisas, tornando quase impossível  ignorar a conexão entre intestino e cérebro nos cães. "O intestino não está apenas associado à ansiedade; ele parece desempenhar um papel determinante no desenvolvimento desse comportamento. É justamente nesse ponto que a anabiômica se encaixa”, diz. Trata-se da primeira categoria voltada para tratar a disbiose intestinal e seus efeitos neuroquímicos subsequentes por meio de um único mecanismo natural, sem medicamentos e sem introdução de organismos externos.

Envelhecimento

As demandas relacionadas ao envelhecimento também ganham importância à medida que os pets vivem mais. "Os tutores de cães idosos procuram soluções que combatam o declínio geral da saúde, e não apenas sintomas isolados. A função digestiva é um dos principais fatores desse processo de envelhecimento, mas raramente recebe atenção direta", afirma Waring. 

A deficiência subclínica de vitamina B12 é desproporcionalmente comum em cães idosos, sendo encontrada em até 82% dos animais com enteropatias crônicas. Esse déficit contribui silenciosamente para a redução da energia, perda de apetite e menor interação, mudanças que muitos tutores atribuem simplesmente ao avanço da idade.

Segundo ela, o papel da anabiômica nesse contexto é relativamente simples. "O suporte enzimático reduz a carga fermentativa, que tende a aumentar com o declínio da capacidade digestiva relacionado ao envelhecimento, enquanto o fornecimento direto de vitaminas B12 e B6 corrige uma deficiência comum e frequentemente subdiagnosticada em cães idosos", explica. 

Além disso, ela aponta que os tutores nem sempre procuram um produto antienvelhecimento. “Eles querem entender por que seu cão parece menos ativo do que antes. Essa é uma necessidade que essa categoria pode atender diretamente."

O futuro da anabiômica e das pesquisas sobre o microbioma pet

Na avaliação de Waring, os tutores estão mais bem informados do que há alguns anos. Eles procuram produtos sustentados por mecanismos de ação claros, e não apenas por alegações presentes na embalagem. "Uma intervenção que atua na origem do problema, respaldada por estudos revisados por pares e dados reproduzíveis, está alinhada com a direção para a qual caminham as expectativas dos consumidores."

Segundo ela, a pesquisa sobre microbioma evolui rapidamente, e o elemento comum entre os trabalhos mais promissores é considerar o microbioma como o principal organizador da saúde canina. "O que o campo científico precisa agora são estudos de intervenção capazes de transformar relações de correlação em evidências concretas de causa e efeito."

Esse é justamente o objetivo do programa de pesquisa do CaniNectar, que inclui um estudo de metabolômica e metagenômica revisado por pares, um estudo longitudinal de dois anos com cães de trabalho da UK Border Force, um ensaio clínico independente realizado pela Blue Cross e um estudo profissional em duas fases envolvendo atualmente 129 cães e 63 profissionais. O próximo passo natural, segundo Waring, será a realização de estudos randomizados e duplo-cegos.

"Mais adiante, acredito que o eixo intestino-cérebro se tornará uma abordagem consolidada para compreender o comportamento dos cães, e não apenas sua saúde digestiva. O mercado de ingredientes funcionais acompanhará essa transformação", afirma. 

Ela explica também que as ferramentas analíticas disponíveis atualmente, como metagenômica 16S, metabolômica de ácidos graxos de cadeia curta (SCFA) e perfil neuroquímico sérico, permitem explicar esses mecanismos com muito mais precisão. “Produtos capazes de demonstrar uma remodelação duradoura do microbioma, sustentada por estudos publicados, em vez de apenas alegações sobre um único mecanismo ou efeitos temporários da suplementação, estarão em posição privilegiada. Ainda estamos no início dessa jornada, mas a direção é clara."

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