Alimentos liofilizados para pets ganham espaço em demanda, ingredientes e processos de fabricação

Mudanças no comportamento do consumidor, inovação em ingredientes e avanços na engenharia de produção impulsionam a transição dos alimentos liofilizados para pets de um nicho especializado para uma categoria escalável

2 Lisa Selfie December 2020 Headshot
2606 Freezedried Pet Food sc Vm76myq V
makotomo | iStock.com

Os alimentos liofilizados para animais de estimação deixaram de ser uma novidade. Hoje, a categoria demonstra potencial de crescimento sustentável, aparece com mais frequência na alimentação dos pets, atrai investimentos em capacidade produtiva e estimula o desenvolvimento de novos ingredientes.

Liofilizados entram em dietas personalizadas

Segundo Shannon Landry, diretora de pesquisa para o mercado pet da Packaged Facts, os tutores estão cada vez mais combinando diferentes tipos de alimentos para criar dietas personalizadas para seus animais, e os produtos liofilizados desempenham um papel importante nesse comportamento.

"Cerca de dois terços dos tutores afirmam que, pelo menos ocasionalmente, acrescentam algum ingrediente à tigela do pet", afirmou Landry.

Esse padrão de alimentação, que ela define como alimentação flexível ou complementar, inclui desde alimentos úmidos e ingredientes da alimentação humana até alimentos frescos, cozidos suavemente, liofilizados, desidratados ao ar e dietas cruas.

O elemento comum entre essas escolhas é a intencionalidade. Segundo Landry, os consumidores estão montando refeições cuidadosamente, não apenas enchendo a tigela.

A principal motivação é oferecer maior variedade e tornar a alimentação mais interessante para o animal. Em seguida aparecem os benefícios relacionados à saúde e ao bem-estar. Também figuram entre os motivos incentivar animais seletivos a comer e aumentar a ingestão de água, especialmente no caso dos gatos.

A percepção de saúde ajuda a explicar o crescimento dos formatos alternativos. Quase 70% dos tutores, segundo dados da Packaged Facts, preocupam-se com o grau de processamento dos alimentos industrializados para pets, o que contribui para o interesse pelos produtos liofilizados, geralmente percebidos como menos processados do que as rações secas tradicionais.

A humanização dos animais de estimação também exerce influência."Os tutores enxergam seus pets como membros da família. Essa humanização os levou a buscar formulações que se aproximam mais dos alimentos consumidos por pessoas, tanto na forma como são produzidas quanto na aparência", afirmou Landry. 

Ela acrescenta que embalagens transparentes, que permitem visualizar exatamente o conteúdo do produto, tornaram-se um diferencial competitivo, beneficiando especialmente os alimentos frescos e liofilizados.

Valor vai além do preço

Apesar do crescimento da categoria, Landry reconhece que o preço continua sendo um desafio importante para os consumidores. Segundo suas pesquisas, o alto custo da alimentação figura entre as principais preocupações dos tutores.

Ainda assim, ela ressalta que valor não significa necessariamente baixo preço.

Para um grupo crescente de consumidores, investir em alimentos premium vale a pena quando eles oferecem ingredientes de maior qualidade e benefícios concretos à saúde dos animais.

Quais ingredientes podem ser liofilizados?

Para Sean Jones, diretor de vendas da Glacial Freeze Dry, a indústria pet ainda desperdiça oportunidades ao deixar de explorar ingredientes que poderiam ser transformados em produtos premium.

Segundo ele, os fabricantes deveriam se perguntar constantemente:"É possível liofilizar isso?" A ideia não se restringe a um ingrediente específico, mas aos diversos subprodutos e matérias-primas já presentes na cadeia produtiva, como vísceras, aparas, cortes menos nobres e outros ingredientes pouco convencionais, que poderiam gerar produtos de alto valor agregado após a liofilização.

Jones cita como exemplo as cabeças de pato, que antes eram destinadas à produção de farinha animal, mas hoje são vendidas em pet shops entre US$ 7 a US$ 10 (cerca de R$ 36 a R$ 51). Segundo ele, um processador atualmente liofiliza cerca de 5 toneladas de cabeças de pato por semana.

Ele compara essa transformação à história das asas de frango. "Houve uma época em que ninguém pedia asas de frango em restaurantes. Nas décadas de 1970 e 1980 elas simplesmente eram descartadas." A mensagem principal é que o ingrediente negligenciado de hoje pode se tornar o produto de maior demanda amanhã.

Nem tudo faz sentido economicamente

Jones ressalta, porém, que a disponibilidade de matéria-prima não garante rentabilidade. Dois fatores determinam se vale a pena liofilizar determinado ingrediente:

  • o custo da matéria-prima;
  • e o custo do processamento.

Mesmo ingredientes gratuitos podem gerar margens reduzidas se exigirem ciclos longos e complexos de liofilização.

As cabeças de pato, por exemplo, exigem bandejas especiais mais largas e podem permanecer dois dias ou mais dentro do equipamento. "Mesmo que o ingrediente seja gratuito e resulte em um excelente produto final, é preciso perguntar quanto custa processá-lo. Essa resposta pode determinar toda a margem do negócio."

Outro desafio é garantir o fornecimento contínuo. Jones cita a carne de javali como exemplo de ingrediente que desapareceu do mercado após problemas de abastecimento.

Antes de lançar uma linha permanente, afirma ele, os fabricantes precisam assegurar disponibilidade consistente da matéria-prima. Segundo Jones, essa estratégia acompanha exatamente o comportamento observado entre os consumidores. "Os toppers são uma parte importante desse mercado. Mesmo fabricantes de alimentos convencionais poderiam liofilizar determinados ingredientes, moê-los e comercializá-los como toppers, sustentados por uma proposta nutricional convincente."

Ele reconhece, entretanto, que nem toda boa ideia é economicamente viável. Proteínas exóticas e formulações complexas frequentemente deixam de fazer sentido após a análise de custos. "Pode ser o melhor produto do mundo, mas, se custar uma pequena fortuna por quilo, poucas pessoas vão comprá-lo."

Como ampliar a produção sem perder eficiência

Para Matt Graunke, executivo de vendas da Parker Freeze Dry, compreender o funcionamento da liofilização é fundamental para integrá-la às linhas industriais de fabricação de alimentos para pets.

Segundo ele, a liofilização é, por definição, um processo realizado em bateladas. "O equipamento é fechado, o ar é retirado e o ciclo acontece", explicou. Isso contrasta com a produção convencional de alimentos para pets, baseada em processos contínuos. "Em uma fábrica tradicional, tudo se movimenta continuamente por esteiras. A liofilização exige produção em bateladas."

Ainda assim, Graunke afirma que é possível integrar ambos os sistemas. Sua proposta baseia-se em três pilares:

  • automação das etapas anteriores e posteriores à liofilização;
  • programação escalonada entre diferentes câmaras;
  • sistemas compartilhados de refrigeração com múltiplos compressores.

Segundo ele, “a principal conclusão é que a liofilização pode funcionar como parte de um sistema quase contínuo quando as operações em bateladas são automatizadas, programadas e projetadas de forma integrada."

Padronização reduz desperdícios

Graunke destaca que etapas como carregamento das bandejas, movimentação dos carrinhos e padronização do peso exercem enorme influência sobre a eficiência do processo. "Entradas inconsistentes produzem resultados inconsistentes. É o clássico 'lixo entra, lixo sai'."

Padronizar a quantidade de produto em cada bandeja e automatizar carga e descarga reduzem tanto a variabilidade quanto a necessidade de mão de obra.

Planejamento matemático da produção

Graunke apresentou um exemplo de uma fábrica que precisava produzir cerca de 3,2 toneladas por dia. A partir do tempo de processamento e da capacidade de cada bandeja, foi possível calcular que oito câmaras operando em horários escalonados seriam suficientes para atingir a meta.

Segundo ele, depois que os parâmetros são corretamente definidos, o sistema torna-se previsível e estável.

Eficiência energética

O especialista também destacou o papel dos sistemas compartilhados de refrigeração. Em vez de cada câmara possuir um compressor exclusivo, um conjunto de compressores pode atender simultaneamente várias câmaras, reduzindo consumo de energia e acelerando o descongelamento dos equipamentos.

Pequenos desvios geram grandes perdas

Graunke alerta que alterações aparentemente insignificantes podem comprometer toda a eficiência operacional.

Adicionar apenas meio quilo extra em cada bandeja pode aumentar o tempo de processamento em várias horas ao longo do ano, afetando toda a programação da fábrica. "Se você não prestar atenção ao que realmente está acontecendo e não fizer as contas, pode estar perdendo tempo e dinheiro."

Inteligência artificial deve acelerar a otimização

Graunke acredita que a próxima evolução será a utilização de inteligência artificial para apoiar decisões operacionais.

Segundo ele, em breve será possível integrar todas as variáveis do processo em agentes de IA capazes de recomendar automaticamente ajustes que reduzam tentativas e erros e aumentem a eficiência produtiva.

O panorama geral: uma categoria em expansão

O comportamento dos consumidores está migrando para formatos considerados mais saudáveis e premium. A alimentação complementar transformou toppers e alimentos liofilizados em compras cada vez mais frequentes.

Essa demanda estimula a inovação em ingredientes, leva fornecedores a reconsiderar quais matérias-primas podem ser liofilizadas e obriga a indústria a desenvolver soluções para ampliar a produção sem perder eficiência.

Para Graunke, a infraestrutura necessária para essa expansão já está sendo construída. "Nos próximos cinco anos, os alimentos liofilizados para pets deixarão de ser um processo especializado para se tornarem um modelo de fabricação padronizado e escalável."

Página 1 de 9
Próxima Página