
Resumo
- Gatos perderam a capacidade de sentir o sabor doce: durante a evolução, o gene Tas1r2 tornou-se um pseudogene nos felinos, eliminando os receptores funcionais para o sabor doce, enquanto os cães preservaram essa capacidade.
- Receptores de umami dos gatos são únicos: os felinos respondem de forma mais intensa a nucleotídeos de purina, como inosina 5'-monofosfato, abundantes no atum e em outros tecidos animais.
- Cães apresentam percepção sensorial mais ampla: embora também possuam receptores para umami, os cães dependem de um sistema sensorial mais diversificado, que inclui percepção de gordura e aroma, tornando sua dieta naturalmente mais flexível.
- Gatos são mais seletivos: felinos possuem entre 12 e 13 receptores para o sabor amargo, enquanto os cães têm 16, além de demonstrarem maior neofobia alimentar diante de dietas desconhecidas.
- Essas diferenças são fundamentais para a formulação de alimentos: conhecer as particularidades sensoriais de cada espécie é essencial para desenvolver proteínas alternativas, dietas terapêuticas e novos ingredientes com maior aceitação pelos animais.
Dizer que gatos são diferentes de cães pode soar como a premissa de uma piada recorrente. No entanto, milhões de anos de evolução realmente produziram dois animais de companhia com sistemas sensoriais bastante distintos, resultando em preferências de sabor, comportamentos alimentares e respostas aos ingredientes completamente diferentes, o que ajuda a explicar por que, apesar disso, cães e gatos frequentemente tentam comer a ração um do outro.
Uma revisão de literatura publicada na revista Advances in Small Animal Care reuniu décadas de pesquisas sobre palatabilidade em cães e gatos.
Segundo o estudo, os gatos são carnívoros obrigatórios e apresentam preferência pelo sabor umami, mas não conseguem perceber o sabor doce. Já os cães são carnívoros facultativos e possuem uma sensibilidade gustativa mais ampla.
A evolução moldou sistemas gustativos diferentes
Essas diferenças evolutivas se refletem tanto na biologia dos receptores gustativos quanto nas preferências alimentares de cada espécie.
O exemplo mais conhecido é a percepção do sabor doce. Segundo pesquisa publicada na revista Nature (Li et al., 2005), os gatos perderam essa capacidade porque o gene Tas1r2 tornou-se um pseudogene durante a evolução, impedindo a formação de um receptor funcional para o adocicado.
Estudos comportamentais mostram consistentemente que os gatos demonstram pouco interesse por açúcares, enquanto os cães mantêm receptores funcionais para esse sabor e, de modo geral, apresentam preferência por compostos adocicados.
O umami domina a percepção de sabor dos gatos
Se o doce não faz diferença para os felinos, o umami é o principal determinante de suas preferências alimentares.
Segundo pesquisa publicada na revista PLOS One, os receptores de umami dos gatos apresentam estrutura diferente da encontrada em humanos. Em vez de responder principalmente ao ácido glutâmico, esses receptores são fortemente ativados por nucleotídeos de purina, como inosina 5'-monofosfato (IMP) e guanosina 5'-monofosfato (GMP). Alguns aminoácidos atuam como potencializadores dessa resposta, e não como ativadores primários, formando um sistema sensorial altamente especializado para reconhecer tecidos de origem animal.
Essa característica ajuda a explicar por que ingredientes como o atum apresentam elevada palatabilidade para gatos. O músculo do atum contém grandes quantidades de inosina 5'-monofosfato e L-histidina livre, compostos capazes de ativar intensamente os receptores de umami dos felinos e estimular o consumo do alimento.
Segundo a revisão, trata-se de uma demonstração direta da relação entre a evolução dos gatos e suas preferências por determinados ingredientes.
Os cães também possuem receptores funcionais para umami capazes de detectar nucleotídeos. Entretanto, como seu sistema sensorial é mais abrangente, o umami representa apenas um dos componentes da percepção gustativa, e não o principal fator que determina a preferência alimentar.
A percepção da gordura também varia entre cães e gatos
As evidências reunidas na revisão indicam que a percepção da gordura representa outra diferença importante entre as espécies.
Estudos recentes identificaram nos gatos um possível receptor de ácidos graxos livres, denominado G protein-coupled receptor 120 (GPR120), capaz de responder a diversos ácidos graxos de cadeia longa.
Pesquisas comportamentais mostraram que o consumo dos compostos que ativam esse receptor atingiu seu pico em concentrações moderadas, sugerindo que os ácidos graxos livres participam diretamente da percepção do sabor, e não apenas da formação do aroma dos alimentos.
A revisão também apresenta evidências de que os gatos conseguem perceber compostos conhecidos como kokumi, intensificadores naturais de sabor detectados por meio do receptor sensível ao cálcio, capazes de potencializar as características de umami em dietas à base de carne.
Os cães também demonstram forte preferência por gordura. No entanto, as evidências disponíveis indicam que o aroma exerce papel mais importante do que os próprios receptores gustativos.
Segundo estudo publicado no Journal of Experimental Biology, quando tiveram liberdade para escolher entre alimentos com diferentes perfis nutricionais, os cães selecionaram consistentemente dietas com maior proporção de gordura do que de proteína.
Entretanto, receptores específicos para percepção da gordura ainda não foram caracterizados em cães com o mesmo nível de detalhamento observado em gatos.
A biologia do paladar influencia a formulação dos alimentos
A revisão também destaca diferenças na percepção do sabor amargo, na sensibilidade ao sal e no comportamento alimentar que podem influenciar as estratégias de formulação.
Os gatos possuem entre 12 e 13 receptores conhecidos para o sabor amargo, enquanto os cães apresentam 16.
Embora ambas as espécies utilizem esse mecanismo como defesa contra substâncias potencialmente tóxicas, o maior número de receptores nos cães pode contribuir para diferenças na aceitação de determinados ingredientes.
Além disso, cães e gatos demonstram sensibilidade relativamente baixa ao sabor salgado quando comparados aos humanos, característica compatível com uma dieta evolutivamente baseada em tecidos de origem animal.
O comportamento alimentar também difere entre as espécies. Os gatos tendem a apresentar maior neofobia alimentar, aproximando-se de novos alimentos com cautela, enquanto os cães demonstram maior flexibilidade diante de mudanças na dieta.
Essas diferenças podem dificultar reformulações de produtos, especialmente quando a indústria introduz ingredientes inéditos ou dietas terapêuticas.
Implicações práticas para formuladores
A dependência dos gatos de estímulos sensoriais associados à carne indica que ingredientes ricos em nucleotídeos, aminoácidos e hidrolisados proteicos processados adequadamente tendem a estar mais alinhados com sua biologia evolutiva.
Já a sensibilidade gustativa mais ampla dos cães oferece maior flexibilidade aos formuladores, mas também aumenta a importância de equilibrar sabor, aroma e textura durante o desenvolvimento dos produtos.
A revisão conclui que compreender a biologia sensorial específica de cada espécie será cada vez mais importante à medida que a indústria amplia o uso de proteínas alternativas, formulações terapêuticas e ingredientes sustentáveis.


















