
Durante uma apresentação bastante esclarecedora sobre o cenário do mercado brasileiro de alimentos para pets, realizada no Petfood Forum Brasil em 13 de agosto, uma declaração de Iván Franco, fundador da Triplethree International Market Research, me chamou a atenção: “Os consumidores compram resultados, não ingredientes.”
Isso me fez questionar se esse comportamento do consumidor seria exclusivo dos tutores brasileiros. Afinal, nos Estados Unidos, o maior mercado de alimentos para pets do mundo, nutricionistas há muito lamentam que os tutores tendem a se concentrar nos ingredientes, em vez dos nutrientes de que seus pets precisam para se desenvolverem de forma saudável. Essa atenção estaria mudando, dos ingredientes para os resultados? Alguns especialistas do setor acreditam que sim.
“O cenário de ingredientes se tornou muito mais sofisticado nos últimos anos”, afirmou Shiguang Yu, Ph.D., diretor global de nutrição animal da dsm-firmenich, citado pela editora Lindsay Beaton em um artigo que será publicado na edição de setembro de 2026 da Petfood Industry. “Estamos deixando para trás a ideia de que os alimentos para pets precisam simplesmente fornecer nutrição essencial e avançando em direção a formulações desenvolvidas com resultados específicos de saúde em mente. Ômega-3, prebióticos, probióticos, pós-bióticos, aminoácidos especializados e outros ingredientes funcionais estão sendo cada vez mais utilizados para apoiar áreas como saúde digestiva, imunidade, mobilidade e cognição.”
Dados: tutores de pets buscam resultados relacionados à saúde
Os comentários de Yu são respaldados por dados. Por exemplo, uma pesquisa realizada em 2025 com 1.054 tutores de pets nos Estados Unidos, conduzida por Lonnie Hobbs Jr., professor assistente de economia agrícola da Universidade Estadual do Kansas, mostrou que 32% dos entrevistados afirmaram ter comprado alimentos para pets que promoviam a saúde digestiva, seguidos de perto pela saúde da pele e da pelagem, com 31%.
Outras alegações relacionadas à saúde que provavelmente são interpretadas pelos tutores como resultados incluíram suporte imunológico (17%), controle de peso (15%), alta energia (quase 15%), suporte às articulações do quadril (14%) e cuidados musculares, saúde dental e do hálito e digestão sensível, todos em torno de 11%. Em níveis mais baixos, apareceram ainda pele sensível, cuidados cardíacos, saúde cerebral, alívio de alergias, estímulo do apetite e redução de coceira e vermelhidão.
Esses números estão alinhados com dados sobre os “estados de necessidade” (need states) em alimentos para gatos apresentados por Nicole Hill, vice-presidente de estratégia e inovação da Nextin Research by MarketPlace, durante uma apresentação no Petfood Forum 2026, realizado em abril, nos Estados Unidos. Derivados de uma pesquisa com mais de 1.200 tutores de gatos norte-americanos, os dados mostraram que “gatos de ambiente interno” (indoor cats) eram a principal necessidade, com cerca de 40%, relacionada a um estilo de vida mais do que a um resultado de saúde.
Mas, na sequência, apareceram resultados de saúde propriamente ditos, como controle de bolas de pelo (cerca de 25%), bem-estar diário (20%), digestão/estômago sensível (16%), saúde dental e do hálito (15%), controle de peso (13%) e, em níveis mais baixos, cuidados urinários, bem-estar de gatos idosos, saúde intestinal, imunidade e cuidados com a pele/pele sensível.
Traduzindo a linguagem dos ingredientes do setor para a linguagem do consumidor
Em relação aos tutores brasileiros, Franco aprofundou, em sua apresentação, a linguagem que eles utilizam quando falam sobre alimentos para pets. “Os consumidores não descrevem as fórmulas; eles descrevem o que mudou em seus pets”, explicou.
Assim, “meu cachorro gosta” se traduz em palatabilidade/aceitação, enquanto “pelagem melhor” indica uma evidência visível de qualidade. “Melhor digestão” sinaliza conforto e saúde; “mais energia” significa que o pet parece mais saudável. Além disso, “fezes mais firmes” fornece aos tutores uma evidência diária de um bom resultado, enquanto “menos odor” representa um benefício para o ambiente doméstico.
A interpretação geral é: “Os tutores brasileiros usam a condição diária do animal como principal teste de qualidade”, afirmou Franco.
Ele também ofereceu algumas sugestões para traduzir a linguagem do setor de alimentos para pets relacionada aos ingredientes para a linguagem de resultados que os tutores buscam:
- Proteína = mais energia
- Sem grãos = melhor digestão
- Prebióticos = fezes melhores
- Ômega-3/6 e DHA = pelagem bonita
- Nutrição funcional = menos problemas
- Monoproteico = melhor tolerância
Outro artigo de Beaton, publicado em janeiro de 2025 sobre as principais tendências em alimentos para pets para aquele ano, citou a Innova Market Insights dando uma recomendação semelhante: “Conecte os ingredientes aos resultados para ajudar a ensinar os consumidores a pensar nos resultados de longo prazo e no bem-estar de seus pets.”

















