Carboidratos na dieta de gatos: revisão de estudos não encontra aumento significativo de gordura ou resistência à insulina

Apesar da má reputação dos carboidratos em dietas humanas e pet, evidências de 16 estudos indicam relação pouco significativa entre o teor do macronutriente e a gordura corporal e resistência à insulina em gatos.

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Carboidratos Na Dieta De Gatos
imagem criada pelo autor com ferramentas da IA

Os ancestrais selvagens dos gatos ingeriam poucos carboidratos em suas dietas compostas por pequenos mamíferos, répteis e aves. Mesmo os primeiros gatos domésticos, antes do surgimento da indústria de alimentos para pets, só tinham contato com algo além de proteína pelos grãos e açúcares vegetais presentes no estômago de suas presas. 

Com esse histórico, acredita-se que o metabolismo dos gatos pode não aceitar bem o nutriente já que não é acostumado com ele, com altos teores contribuindo para obesidade, resistência à insulina ou aumento de glicose nos felinos. No entanto, pesquisas indicam que o carboidrato pode não ser um vilão metabólico. 

Uma meta-análise publicada na revista científica Veterinary Sciences investigou os efeitos dos carboidratos em alimentos comerciais para gatos a partir de 16 estudos revisados por pares que examinaram a composição de macronutrientes da dieta e marcadores de saúde metabólica em gatos. Os resultados indicam possíveis adaptações metabólicas e benefícios energéticos. 

Impacto dos carboidratos nas rações para gatos

A revisão de 16 estudos analisou as concentrações de insulina e glicose em jejum, bem como os resultados da massa de gordura corporal. Os pesquisadores levaram em conta o peso corporal, a ingestão diária de energia e os parâmetros de design específicos de cada estudo, além dos teores de gordura, proteína e carboidratos da dieta (medidos como extrato livre de nitrogênio NFE, % da energia metabolizável).

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A meta-análise chegou a três conclusões principais:

1. Não houve associação positiva entre carboidratos na dieta e obesidade ou resistência à insulina em gatos

Nenhum dos estudos analisados encontrou associação entre o aumento de carboidratos na dieta e o aumento de gordura corporal, ou as concentrações de insulina ou glicose em jejum. Eles avaliaram dietas com 2,8% a 57% da energia metabolizável proveniente de carboidratos.

Na verdade, a literatura apontou que em gatos magros um maior teor de NFE, em relação à ingestão energética, estava associado a uma redução na massa de gordura corporal. Já os níveis de insulina em jejum apresentaram uma correlação mais forte com a o nível de gordura corporal e o teor de gordura na dieta do que com a alta ingestão de carboidratos.

2. Teores de gordura são mais importantes para o aumento da gordura corporal do que carboidratos

Modelos consistentemente demonstraram que dietas com alto teor de gordura (>35% da energia metabolizável) promovem maior ingestão energética e ganho de peso em condições de alimentação à vontade (ad libitum). O aumento da gordura na dieta, em vez do teor de carboidratos, mostrou ser um indicador mais confiável de maior massa de gordura corporal e níveis de insulina em jejum.

3. Carboidratos têm efeito insignificante sobre a glicose em jejum

Em 14 dos 16 estudos analisados, a composição de macronutrientes não demonstrou uma relação significativa com os níveis de glicose em jejum. Tal fato pode ser explicado pelas adaptações metabólicas dos gatos domésticos. Por serem carnívoros obrigatórios, os gatos sintetizam glicose no sangue a partir de nutrientes que não são carboidratos, principalmente aminoácidos. Consequentemente, apresentam uma taxa de depuração de glicose mais lenta em comparação com espécies onívoras.

“Os resultados desta meta-análise indicam que até 57% da energia metabolizável composta por carboidratos não são um fator de risco para aumento da gordura corporal, insulina ou glicose em jejum em gatos, o que sugere elas não representam risco para obesidade felina, resistência à insulina ou hiperglicemia”, escreveram os autores. Contudo, ressaltam que estudos complementares são necessários para avaliar as respostas de insulina e glicose pós-refeições (pós-prandiais) das diferentes composições de macronutrientes para maior compreensão do papel dos carboidratos no metabolismo felino. 

A meta-análise indicou que os estudos analisados apresentaram um poder preditivo moderado, mas os resultados precisam ser interpretados com cautela devido a várias limitações. Muitos estudos tinham amostras pequenas, usavam desenhos experimentais diferentes e não controlavam variáveis importantes, como sexo, idade, status reprodutivo e regime alimentar dos animais. Em vários casos, a ingestão calórica foi limitada apenas à energia de manutenção, o que pode ter reduzido as variações na gordura corporal induzidas pela dieta, um fator relevante para avaliar a resistência à insulina. 

Para garantir comparabilidade entre os estudos, foram analisados apenas os níveis de glicose e insulina em jejum. Mas essa escolha impediu a avaliação de respostas metabólicas pós-prandiais, que poderiam ser marcadores mais sensíveis de alterações na sensibilidade à insulina.

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Implicações para a formulação de alimentos pet

Essas descobertas podem levar a uma reavaliação de antigas suposições sobre os riscos metabólicos associados aos carboidratos em rações felinas. A indústria tem se voltado para formulações com baixo teor de carboidratos e alto teor de proteínas, mas as evidências sugerem que a gordura dietética pode ter um papel mais significativo na promoção do acúmulo de gordura e de distúrbios relacionados à insulina.

Em geral, a análise ressalta a complexidade do metabolismo de gatos domésticos e a importância de considerar a ingestão energética e a composição corporal, além das proporções de macronutrientes. Com o aumento do teor de carboidratos, é crucial avaliar também a substituição de gordura ou proteína na dieta ao observar os efeitos metabólicos.

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