
Na busca contínua por novas fontes de proteína, tanto para animais de estimação quanto para humanos, alternativas como a carne cultivada têm gerado grande entusiasmo devido às suas credenciais de sustentabilidade, entre outras características. No entanto, essa tecnologia também enfrenta desafios significativos.
Um dos principais obstáculos, pelo menos de acordo com o que está sendo observado nos Estados Unidos, é a obtenção de aprovação regulatória. “Muitos governos estaduais continuaram propondo ou aprovando leis que exigem rotulagem específica para produtos cultivados a partir de células ou, em alguns casos, proibindo totalmente sua produção e comercialização”, escreveram especialistas regulatórios do escritório de advocacia Husch Blackwell, que atende diversos clientes dos setores de alimentos para humanos e pets. Embora a questão esteja mais relacionada aos alimentos para consumo humano até o momento, ela também tem implicações para o mercado pet.
Outros países e regiões, incluindo Austrália, Canadá, União Europeia (UE), Israel e Reino Unido, também estão “avaliando o uso de produtos de carne cultivada por células para consumo humano”, acrescentaram os especialistas.
Carne cultivada enfrenta desafios de escalabilidade e aceitação do consumidor
As questões regulatórias não são o único desafio para a adoção mais ampla da proteína cultivada. Atualmente, o principal obstáculo é a escalabilidade — ou a falta dela. Até mesmo empresas que apostam integralmente nessa tecnologia reconhecem essa limitação.
“A carne cultivada não será um produto de massa no curto prazo. Isso é simplesmente uma questão de escala”, afirmou Jan Luprich, responsável por parcerias estratégicas da Bene Meat Technologies, em resposta a uma pergunta após sua apresentação no Petfood Forum Europe 2026. “Para atender apenas 1% da produção global de carne, seriam necessárias aproximadamente 1.000 fábricas, cada uma produzindo 3.600 toneladas por ano.”
Segundo ele, a oportunidade mais realista no curto prazo está em nichos premium e diferenciados.
“Existe espaço para construir algo relevante entre os consumidores e, para empresas com visão de futuro, este é o momento de entrar nesse segmento”, disse.
A avaliação é baseada em um teste conduzido pela Bene Meat com quase 200 tutores de cães em diversos países da União Europeia. Luprich apresentou os resultados ao lado de Simone Stringhetti, coordenadora de estudos de alimentação e especialista em desenvolvimento de negócios da empresa.
Os principais resultados incluíram:
- Quase 90% dos cães aceitaram os petiscos contendo carne cultivada;
- 83% dos tutores avaliaram os produtos como equivalentes ou superiores aos petiscos normalmente utilizados;
- As reações adversas foram mínimas; apenas dois casos de alteração na qualidade das fezes foram relatados e, segundo Luprich, não estavam relacionados ao consumo dos produtos;
- A educação do consumidor mostrou impacto significativo: a percepção da carne cultivada como algo “natural” melhorou após a experiência prática, assim como a confiança na tecnologia como uma boa opção para pets;
- Cerca de 40% dos tutores afirmaram que se sentiriam confortáveis oferecendo carne cultivada regularmente aos seus animais;
- Aproximadamente 45% disseram que provavelmente adotariam o produto com frequência, resultando em cerca de 85% de potencial intenção de uso regular;
- 86% dos participantes afirmaram que comprariam petiscos com carne cultivada se estivessem disponíveis no mercado;
- Os principais motivos para a compra foram ética, saúde, qualidade dos ingredientes e sustentabilidade;
- Entre os poucos participantes que não comprariam o produto, os motivos mais citados foram rejeição pelos cães, problemas relacionados à textura ou ao tamanho dos petiscos e preocupações com o preço. Curiosamente, nenhum valor foi apresentado na pesquisa, sugerindo uma preocupação antecipada com custos, e não uma reação a preços reais;
- As motivações para recomendar o produto a amigos ou veterinários estavam relacionadas principalmente à saúde, ao perfil nutricional e ao processo de produção controlado, e não à ética ou sustentabilidade, algo que surpreendeu os pesquisadores.
“O interesse dos consumidores é real, e observamos isso não apenas neste estudo, mas ao longo de seis anos de interação com o mercado”, afirmou Luprich.
Enfrentando a máquina do hype: a proteína de insetos é um alerta?
Luprich acredita que o interesse do consumidor é importante para superar outro desafio persistente das proteínas inovadoras: o ciclo de hype.
“A carne cultivada seguiu um caminho semelhante ao de outras tecnologias emergentes que passaram por ciclos de entusiasmo exagerado, como inteligência artificial, hidrogênio, impressão 3D e proteína de insetos”, disse. Para ele, houve declarações ousadas e promessas excessivas, o que inevitavelmente levou à decepção quando os resultados não se materializaram. “O ceticismo surgiu. Centenas de milhões de dólares foram investidos, mas os resultados não corresponderam às expectativas. A questão natural passa a ser: qual é, de fato, o valor dessa tecnologia?”, perguntou.
A inclusão da proteína de insetos nessa lista é reveladora. De fato, alguns especialistas da indústria pet acreditam que esse ingrediente está enfrentando um choque entre expectativas e realidade. Apesar de já contar com muito mais aprovações regulatórias e produtos comerciais do que outras fontes proteicas alternativas, fatores como baixo conhecimento dos consumidores, aceitação limitada e dificuldades para ampliar a produção continuam restringindo seu crescimento.
O problema da escalabilidade também torna a proteína de insetos mais cara do que outras fontes proteicas, o que dificulta sua adoção em períodos de incerteza econômica.
Será que a proteína cultivada conseguirá evitar o mesmo destino graças a estudos como o realizado pela Bene Meat?
“É importante esclarecer que a tecnologia não fracassou”, afirmou Luprich ao comparar a carne cultivada com outras tecnologias cercadas de hype. “A ciência por trás dela é utilizada pela indústria farmacêutica há décadas. O que falhou foi o alinhamento entre cronogramas e expectativas. Quando as pessoas esperam volumes comerciais em curto prazo e recebem apenas declarações ambiciosas e imagens geradas por inteligência artificial, a confiança diminui.” Para ele, o que realmente importa é ter um produto tangível, valor comprovado, viabilidade econômica e demanda validada pelos consumidores.
Ainda assim, vale destacar que pesquisadores já publicaram diversos estudos sobre proteína de insetos — em quantidade limitada, mas superior aos apenas três estudos publicados sobre carne cultivada. Empresas do setor também investiram em programas de educação do consumidor e realizaram pesquisas que indicam potencial de mercado. Além disso, tutores já podem adquirir e oferecer alimentos e petiscos à base de proteína de insetos há vários anos.
Será interessante acompanhar se a proteína de insetos conseguirá recuperar seu impulso e se a carne cultivada conseguirá consolidar seu espaço, especialmente caso a economia melhore e mais tutores se sintam financeiramente seguros para experimentar opções de maior valor agregado.
Enquanto isso, o conselho permanece o mesmo: cuidado com o hype.
















