Fórmulas para cães idosos podem estar erradas: é preciso de aminoácidos, não de proteínas

Especialista afirma que diretrizes nutricionais atuais podem estar desatualizadas e não atender necessidades específicas de raças e tempo de vida dos cães.

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Graças à alimentação mais equilibrada e ao fato de passarem mais tempo em ambientes seguros, os cães estão vivendo mais tempo, e cada vez mais pets atingem a terceira idade.

Assim como filhotes, cães idosos têm necessidades nutricionais diferentes do que adultos. No entanto, fórmulas desenvolvidas para esse momento da vida dos pets podem estar mais ligadas ao marketing do que à ciência. É o que afirma Claire Timlin, pesquisadora de nutrição canina e envelhecimento, diretora de Pesquisa e Desenvolvimento do Four Rivers Kennel, centro de pesquisa em nutrição canina. A especialista apresentou o tema durante o Petfood Forum 2025, evento global da indústria de alimentos para pets que ocorreu em abril nos Estados Unidos.

De acordo com Timlin, evidências emergentes sugerem que as diretrizes atuais de aminoácidos, podem estar desatualizadas e ser insuficientes para atender à diversidade nutricional dos cães de companhia modernos. Nos Estados Unidos, essas diretrizes são estabelecidas pelo National Research Council (NRC) e pela Association of American Feed Control Officials (AAFCO), na qual as diretrizes brasileiras são baseadas. 

Por exemplo, ela aponta que cães têm uma exigência maior de aminoácidos do que o colocado nas diretrizes que, por sua vez, dão um peso maior à ingestão de proteínas. “Alimentos com alto teor proteico não fazem diferença se não estamos atendendo às exigências de aminoácidos limitantes”, explicou a pesquisadora. 

Em relação à terceira idade canina, atualmente, tanto a AAFCO quanto o NRC oferecem recomendações nutricionais focadas exclusivamente em duas fases da vida: crescimento/reprodução e manutenção adulta. Essas diretrizes, segundo Timlin, ignoram em grande parte os cães idosos, cujos perfis metabólicos e eficiência digestiva são significativamente diferentes.

“Cães idosos perdem massa magra, têm menor digestibilidade e menor ingestão de alimento. No entanto, vemos muitas campanhas de marketing promovendo dietas específicas para cães idosos, mas pouca pesquisa focada nas necessidades reais desses animais.”

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Segundo Timlin, grande parte dos dados que sustentam os padrões atuais vem de metodologias antigas, como os testes de balanço de nitrogênio (indicativo do metabolismo do animal), além de estudos com um número limitado de raças e tamanhos. No Four Rivers Kennel, a equipe de Timlin busca novas abordagens para suprir essa lacuna nos dados. Uma delas é a técnica de Oxidação de Aminoácidos Indicadores (IAAO, na sigla em inglês), que mede o metabolismo de aminoácidos dos cães por meio da análise do ar exalado. A IAAO oferece uma visão mais precisa sobre a utilização de aminoácidos em diferentes raças, fases da vida e composições dietéticas. O procedimento, no entanto, ainda é custoso e logisticamente complexo. 

Em um exemplo da pesquisa de Timlin, as exigências de metionina — um aminoácido essencial que atua como um dos blocos construtores das proteínas — determinadas pela IAAO para filhotes, adultos e idosos foram superiores aos parâmetros mínimos definidos pelo NRC. Da mesma forma, as recomendações de aminoácidos sulfurados totais (que inclui a metionina) baseadas em IAAO também mostraram variações por fase da vida, indicando doses menores para cães idosos, como esperado, mas também com um aumento nos requisitos quando se considera a perda de massa magra.

Nutrição canina: digestibilidade não é o mesmo que biodisponibilidade

Timlin também destacou a diferença entre digestibilidade e biodisponibilidade nas formulações de alimentos completos para cães idosos

A digestibilidade refere-se à quantidade de aminoácidos que o animal consegue absorver no intestino, enquanto a biodisponibilidade indica o quanto desses nutrientes absorvidos é, de fato, aproveitado pelo organismo para funções vitais, como a síntese de proteínas. Ou seja, um ingrediente pode ter alta digestibilidade, mas baixa biodisponibilidade, o que significa que, embora os aminoácidos entrem no corpo, nem todos são utilizados de forma eficiente.

A biodisponibilidade metabólica pode variar significativamente entre ingredientes. Questões de processamento, o cozimento ou a matéria-prima em si impactam nesse quesito. De acordo com a pesquisadora, dados reunidos em estudos com humanos e cães mostraram que ingredientes como isolado de proteína de soja e caseína têm alta biodisponibilidade, enquanto outros, como grão-de-bico e certas farinhas processadas, são menos aproveitados. Em outro exemplo, um estudo encontrou maior biodisponibilidade de metionina na proteína de ervilha do que na farinha de frango.

Timlin alertou que a superformulação de dietas, prática que fornece uma quantidade de nutrientes superior à necessária para garantir adequação nutricional, pode levar a cargas desnecessárias de alguns nutrientes, como nitrogênio, que podem ser prejudiciais para cães idosos com funções renal e hepática comprometidas. Ela defendeu formulações mais precisas, que melhorem a sustentabilidade e reduzam o desperdício.

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Fórmulas raça-específicas

A pesquisadora também criticou a generalização de dados nutricionais para diferentes raças de cães.

“Na pecuária, temos animais geneticamente uniformes, então a nutrição de precisão funciona bem. Mas em pet food, lidamos com raças muito diversas, com necessidades distintas”, afirmou.

Do mesmo modo, embora existam muitas fórmulas voltadas para cães idosos, essas receitas nem sempre têm respaldo científico para atender as necessidades nutricionais nessa fase da vida. Para preencher essa lacuna, Timlin fez um apelo para que a indústria de pet food aumente o investimento em estudos nutricionais amplos e imparciais. “É fundamental que a indústria de pet food se una e crie mais oportunidades de financiamento.”

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