Petiscos podem fazer parte da dieta do pet? Estudo brasileiro chama atenção para riscos de deficiência de nutrientes

A substituição de 10% da dieta diária de cães e gatos por petiscos podem trazer riscos nutricionais a depender do nível de atividade do animal.

Petiscos Para Cães
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Seja para recompensar o treinamento, reforço positivo ou simples demonstração de afeto, oferecer petiscos para os pets é uma prática comum entre os tutores. No entanto, os petiscos costumam ser escolhidos sem considerar ingredientes funcionais, priorizando atributos como sabor e forma, e muitos tutores não os consideram parte essencial da ingestão nutricional, o que pode levar a excesso calórico ou deficiências. 

Uma nova pesquisa do Centro de Pesquisa em Nutrologia de Cães e Gatos da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (CEPEN-FMVZ/USP) analisou o impacto da inclusão de petiscos na dieta de cães e gatos. Foram averiguados os níveis de gordura e proteína recomendados para animais ativos e inativos.

Publicado em 2025 na revista acadêmica Veterinary Sciences, o estudo analisou rótulos de centenas de alimentos secos completos e petiscos comerciais disponíveis no mercado brasileiro. Os resultados indicaram que para gatos inativos, a substituição de 10% da ingestão calórica diária por petiscos pode levar a deficiências significativas de proteínas e gorduras essenciais. Para cães, os petiscos não apresentam os mesmos riscos. 

Qual a quantidade recomendada de petiscos para cães e gatos?

A pesquisa usou recomendações de organizações como a World Small Animal Veterinary Association (WSAVA) e a American Animal Hospital Association (AAHA) que determinam que a oferta de petiscos não ultrapasse 10% da ingestão calórica diária para cães e gatos. Essa recomendação assume que os 90% restantes da dieta fornecem nutrição completa e equilibrada, visando prevenir a obesidade. 

Para averiguar se essa substituição alcança os níveis recomendados, o estudo avaliou 226 rótulos de alimentos secos para cães adultos e 124 para gatos adultos, além de 170 petiscos secos, úmidos ou líquidos para cães e 114 para gatos disponíveis no mercado brasileiro. Os pesquisadores analisaram o teor de proteína e gordura declarado nos rótulos e calcularam as necessidades energéticas de manutenção (MER) para pets ativos e inativos, seguindo as diretrizes da European Pet Food Industry Federation (FEDIAF). 

Para calcular o MER, utiliza-se uma fórmula que combina uma base calórica multiplicada pelo peso do animal elevado a um expoente que reflete o metabolismo do animal em função do nível de atividade. 

  • Cães inativos (idosos, sedentários): 95 kcal × Peso Corporal^0.75
  • Gatos inativos (idosos, sedentários, castrados): 75 kcal × Peso Corporal^0.67
  • Cães ativos: 110 kcal × Peso Corporal^0.75
  • Gatos ativos: 100 kcal × Peso Corporal^0.67

Sendo assim, a fórmula para um cão inativo de 10kg (95 kcal × (10 kg)^0.75) mostraria que a necessidade calórica diária desse animal seria de 533.9 kcal/dia. 

Em seguida, a pesquisa simulou a substituição de 10% da MER por petiscos, ajustando a quantidade do alimento principal, e verificaram se a dieta resultante atendia aos requisitos mínimos de proteína e gordura da FEDIAF.

Petiscos para gatos: quantidade ideal para uma dieta equilibrada

Os resultados mostraram que, para cães (ativos e inativos), todas as dietas analisadas, mesmo com a inclusão de 10% de petiscos, atenderam aos requisitos mínimos de proteína e gordura da FEDIAF. Já para gatos, os achados foram diferentes. Embora todos os petiscos para gatos ativos atendessem ao mínimo de proteína, 1,61% das dietas falharam em atingir o mínimo de gordura com petiscos líquidos.

A substituição de 10% da dieta por petiscos pode trazes riscos à saúde de gatos pouco ativos, como idosos e castrados.A substituição de 10% da dieta por petiscos pode trazes riscos à saúde de gatos pouco ativos, como idosos e castrados.Unsplash

Para os felinos inativos, no entanto, a substituição de 10% da dieta por petiscos apresenta impactos mais significativos. Em alguns casos, a pesquisa mostra que quase metade das dietas não atendeu aos requisitos mínimos da FEDIAF para proteína e gordura após a restrição calórica para a inclusão de petiscos:

  • Proteína: 36,29% das dietas com petiscos secos, 16,12% com petiscos úmidos e 2,41% com petiscos líquidos não atingiram o mínimo.
  • Gordura: 29,03% das dietas com petiscos secos, 28,22% com petiscos úmidos e 44,77% com petiscos líquidos não atingiram o mínimo.

De acordo com o trabalho da FMVZ/USP os gatos possuem necessidades dietéticas mais elevadas de proteína e gordura devido a características metabólicas únicas. Deficiências nesses macronutrientes, incluindo aminoácidos e ácidos graxos essenciais (como arginina, taurina e ácido araquidônico), podem levar a sérios problemas de saúde, como hiperamonemia, uremia, problemas reprodutivos, cegueira, cardiomiopatia, entre outros.

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O papel da indústria na nutrição equilibrada dos pets

A pesquisa também aponta para o desafio de inconsistências na precisão dos rótulos de alimentos para pets, o que agrava a preocupação com deficiências ou excessos nutricionais.

O trabalho sugere que as empresas de alimentos para pets deveriam fornecer informações de rotulagem mais detalhadas, incluindo como acomodar petiscos nas dietas com base em suas formulações específicas. Segundo os pesquisadores, isso ajudaria tutores e veterinários a criar planos nutricionais mais precisos e adaptados a cada animal, minimizando o risco de deficiências nutricionais. 

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