
Dizer que um alimento é “cru”, “sem conservantes”, “natural” ou tem “cereais integrais” incentiva a percepção de que aquele produto é mais benéfico nutricionalmente por conta dessas características. No entanto, um novo estudo norte-americano aponta que essas alegações podem não estar acompanhadas de provas científicas da sua superioridade nutricional.
Alimentos para animais de estimação frescos, que incluem os crus e minimamente processados, tornaram-se um importante motor do crescimento das vendas no varejo de pet food. Tão importante que, sem o segmento, as vendas de pet food estariam praticamente estagnadas ou crescendo muito pouco, segundo a Petfood Industry. Além disso, de acordo com o relatório mais recente da Packaged Facts, os congelados e refrigerados impulsionaram o crescimento total da categoria de alimentos para cães em mais de 1% nos Estados Unidos em 2024.
No entanto, à medida que o pet food fresco cresce, suas alegações de marketing podem estar corroendo a confiança nos formatos tradicionais.
Em uma revisão da literatura publicada na revista Animals, pesquisadores analisaram três das alegações mais comuns usadas por marcas de pet food fresco: a de que aditivos e conservantes são inerentemente prejudiciais, a de que ingredientes próprios para consumo humano, integrais ou minimamente processados oferecem maiores benefícios nutricionais.
Aditivos e conservantes são prejudiciais?
A revisão examinou 60 estudos sobre aditivos e 39 estudos sobre conservantes utilizados em alimentos para pets. A análise identificou diferenças de risco próximas de zero em ambas as categorias, indicando que não houve aumento mensurável de efeitos adversos à saúde quando aditivos e conservantes aprovados foram utilizados dentro dos limites regulatórios estabelecidos.
Entre os possíveis problemas de saúde avaliados estavam efeitos gastrointestinais, marcadores de toxicidade, alterações comportamentais, resposta imunológica e morte dos animais. No entanto, a maioria dos estudos relatou efeitos neutros ou até benéficos. Quando reações adversas foram observadas, geralmente foram leves, transitórias e não claramente atribuíveis ao ingrediente em si.
Ao contrário, aditivos funcionais como probióticos, ácidos graxos ômega-3, enzimas, fibras e antioxidantes foram frequentemente associados a melhorias na digestibilidade, em marcadores de saúde intestinal ou em indicadores metabólicos. Esses achados foram consistentes tanto em cães quanto em gatos e entre diferentes tipos de aditivos.
Como o processamento impacta na nutrição
Para avaliar alegações relacionadas ao processamento, a revisão analisou 102 comparações relacionadas ao efeito de diferentes tipos de processamento na digestibilidade e 137 comparações relacionadas à retenção de nutrientes. Os resultados mostraram grande variabilidade, com efeitos tanto benéficos quanto prejudiciais, dependendo do tipo de ingrediente e do método de processamento utilizado.
No geral, o processamento melhora a digestibilidade dos ingredientes em aproximadamente 51,3% quando comparado a alimentos não processados. No entanto, o estudo alerta que isso nem sempre acontece: em 50% das comparações, o processamento teve efeitos prejudiciais
Para entender se o processamento é benéfico ou não, o estudo sugere que o método de processamento — escolher entre extrusão ou torrefação, por exemplo — é muito mais determinante para a digestibilidade do que o grau de intensidade, medido por tempo, pressão ou temperatura. Fervura e torrefação úmida foram citadas como métodos que produzem resultados amplamente benéficos para a digestão.
Outro achado do estudo é que o tipo de ingrediente é o fator que causa o maior impacto na digestão em todos os métodos de processamento.
Por exemplo, leguminosas, como feijão-manteiga (navy beans) e ervilhas amarelas, e amidos resistentes tendem a se beneficiar de maiores níveis de processamento. Os métodos podem romper estruturas celulares, inativar fatores antinutricionais e aumentar a disponibilidade dos nutrientes para a digestão enzimática. Em contraste, subprodutos de carne bovina e de aves apresentam alterações mínimas na digestibilidade, independentemente do nível de processamento aplicado.
O estudo também questiona alegações que reforçam a percepção de que grãos integrais são sempre mais vantajosos do ponto de vista digestivo.
No caso do arroz integral, o processamento moderado ou intenso foi associado a efeitos negativos sobre a digestibilidade da proteína. Esses resultados sugerem que, embora grãos integrais possam oferecer benefícios relacionados ao teor de fibras ou à composição nutricional, alimentos com processamento mais severo podem não corresponder a esse potencial.
Assim, o estudo sugere que alegações como “cereais integrais” ou “alimentação natural” podem não refletir superioridade nutricional. A composição específica da receita e o método técnico de fabricação demonstram maior influência do que como o ingrediente é comercializado.
Ingredientes para consumo humano X consumo animal
Na comparação entre ingredientes próprios para consumo humano, considerados de maior valor nutricional, e os destinados ao consumo animal, a revisão não encontrou evidências robustas que possam clarificar seus benefícios.
Apenas seis estudos atenderam aos critérios da revisão para comparações diretas entre ingredientes para consumo humano e animal. Esses estudos também apresentaram limitações, como tamanhos de amostra reduzidos, definições inconsistentes e risco elevado de viés.
Nos casos em que parâmetros de segurança foram avaliados, a maioria dos ingredientes para o consumo animal ficou dentro dos limites aceitáveis de contaminantes. As comparações nutricionais mostraram resultados mistos, sem diferenças consistentes em digestibilidade, densidade nutricional ou desfechos de saúde.
O estudo conclui que as evidências atuais são insuficientes para estabelecer uma vantagem nutricional ou de segurança clara para ingredientes de consumo humano.
Controles de formulação e segurança são fundamentais
Em todas as três áreas analisadas, a revisão constatou que a segurança dos alimentos e a adequação nutricional estão mais associadas a controles de formulação, testes de ingredientes e conformidade com padrões nutricionais estabelecidos.
As escolhas de processamento e de origem dos ingredientes podem influenciar a vida de prateleira, os requisitos de armazenamento e a estabilidade dos nutrientes, mas não determinam, por si só, a segurança do produto ou os desfechos de saúde.
Diante dessa constatação, o estudo ressalta que empresas de pet food devem garantir que todas as alegações de marketing sejam respaldadas por evidências científicas acessíveis e revisadas por pares antes de comunicá-las aos consumidores, permitindo decisões informadas.


















