Guerra aos fungos: processos e tecnologias para controle de micotoxinas na ração pet

Micotoxinas representam ameaça à saúde dos pets e à cadeia produtiva de rações, exigindo processos rigorosos, tecnologias avançadas e protocolos de segurança em toda a indústria.

Fungos Pet Food Tom Mayer
Unsplash|Tom Mayer

Fungos estão entre as criaturas mais curiosas da Terra. Eles podem ser gigantes ou não passar de microorganismos, enriquecer a culinária humana ou servir como um veneno poderoso, trazer benefícios funcionais ou sérios riscos de contaminação. Tão complexos e diversos, não é à toa que esses organismos têm até seu próprio reino.  

Na indústria de pet food, fungos aparecem como aliados quando integram formulações, como as leveduras, que ganham função probiótica para melhorar a flora intestinal de animais de estimação, e quando significam avanços em proteínas alternativas, como as soluções com micoproteínas. No cotidiano, contudo, os fungos representam uma preocupação constante — e microscópica — para a segurança da produção e a saúde dos consumidores: as micotoxinas.

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O risco das micotoxinas na indústria pet

As micotoxinas são compostos químicos orgânicos produzidos por fungos pluricelulares ou filamentosos, também conhecidos como bolores ou mofos. Esses compostos não têm função bioquímica no crescimento do fungo, sendo usados como defesa contra patógenos, pragas e estresses ambientais, mas podem causar respostas tóxicas graves em humanos e animais quando ingeridos.

Na indústria pet, o tema tem relevância especial porque a ração seca, o maior segmento do mercado de alimentos para animais de companhia, costuma conter quantidades variáveis de ingredientes altamente suscetíveis à contaminação por micotoxinas, como milho, arroz, cevada, trigo e sorgo.  

Segundo explica Lucélia Hauptli, zootecnista e professora adjunta de Nutrição de Cães e Gatos na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a contaminação pode ocorrer em diferentes etapas da cadeia produtiva, desde o cultivo até a distribuição dos produtos. 

Esses compostos surgem quando fungos dos gêneros Aspergillus, Penicillium e Fusarium presentes nos cereais encontram condições ideais de umidade, temperatura e oxigênio para se desenvolverem. Por isso, práticas que reduzam a umidade desde a colheita até o armazenamento são essenciais para evitar o crescimento fúngico.

A exposição de pets às micotoxinas pode causar efeitos agudos, como danos hepáticos ou renais que levam à morte, e efeitos crônicos, com impacto no desempenho e bem-estar animal. O primeiro caso registrado de intoxicação por micotoxina em cães ocorreu em 1952, nos Estados Unidos, com uma ração contaminada que provocou uma doença hepática chamada “hepatite X”.

Segundo Hauptli, mais de 500 micotoxinas foram identificadas como potencialmente toxigênicas entre os mais de 100 mil fungos conhecidos pela ciência. Para a nutrição animal, as aflatoxinas, fumonisinas, tricotecenos, ocratoxinas e zearalenona são de especial interesse.

“As aflatoxinas são as principais micotoxinas detectadas em alimentos de cães e gatos, seja por recalls ou estudos científicos. Mesmo em pequenas concentrações, elas são altamente tóxicas, causando danos ao fígado, comprometendo a coagulação e podendo levar a hemorragias e óbitos”, explica a zootecnista.

Micotoxinas: desafios para a segurança de insumos

Apesar da modernização das fábricas de ração e da adoção de boas práticas de fabricação, a contaminação ainda é um desafio constante.

Grãos de milho danificados, sujeitos à contaminação por micotoxinas.Grãos de milho danificados, sujeitos à contaminação por micotoxinas.EmbrapaDe acordo com Hauptli, o controle das micotoxinas é complexo e começa na qualidade dos ingredientes recebidos. Problemas na colheita e armazenamento de grãos, erros de amostragem, matérias-primas contaminadas e métodos analíticos imprecisos podem comprometer a detecção. “Como a contaminação é heterogênea, grãos de um mesmo lote podem apresentar níveis muito diferentes de toxina, o que torna a quantificação e as decisões subsequentes mais complexas.”

 

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Segundo o CEO do Sindirações, Ariovaldo Zani, erros de amostragem são uma das principais fontes de incerteza. Além dos níveis distintos de toxina por amostra, a contaminação por mais de uma micotoxina pode complicar o processo. “A detecção de múltiplas micotoxinas exige técnicas laboratoriais modernas e mais complexas, capazes de identificar diferentes contaminantes em uma única amostra.”

Fora isso, uma vez produzidas, micotoxinas são extremamente difíceis de eliminar. Elas são resistentes ao calor e não são eliminadas pelos processos térmicos comuns de extrusão, cozimento ou refrigeração, o que significa que mesmo alimentos processados podem conter níveis prejudiciais dessas toxinas. 

No caso da aflatoxina, segundo explica Hauptli, o desafio é maior pois ela tem afinidade, ou seja, uma ligação mais forte, com alimentos ricos em carboidratos e lipídios, como o pet food.

Como gerenciar micotoxinas nos alimentos para pet

Para os especialistas, a seleção de fornecedores é crucial, especialmente no caso de farinhas de origem animal. Trabalhar com parceiros certificados e realizar análises periódicas, mesmo quando há laudo técnico, fortalece o controle de qualidade. “A qualificação de fornecedores de grãos e as auditorias contínuas são indispensáveis, especialmente porque a composição das matérias-primas varia por safra e origem”, afirma Zani.  

No caso de macroingredientes como o milho, o fornecedor deve garantir a origem e darlaudos de qualidade. “ Não se dispensa a etapa de coleta de amostra para análises de umidade, teor de impurezas, grãos ardidos, micotoxinas e a granulometria”, reforça Hauptli.

Dentro das fábricas, o armazenamento deve seguir cuidados rigorosos para o controle da umidade: colocar sacos sobre paletes, afastadas de paredes, em ambientes limpos, secos, ventilados e protegidos da luz solar. A vedação adequada e o controle de insetos e roedores também são fundamentais. 

“Para produtos armazenados em silos, é necessário garantir teor de umidade dentro dos limites recomendados para cada tipo de grão, além de limpeza, controle de temperatura e aeração. A manutenção preventiva dos silos e equipamentos de processamento, como misturadores e extrusoras, também integra as boas práticas”, complementa Hauptli.

Outros pontos destacados pela professora incluem a rastreabilidade dos lotes e planos de recall, que asseguram a transparência da cadeia produtiva e a confiança do consumidor.

Tecnologias para o controle de micotoxinas na indústria pet

Considerando que encontrar micotoxinas nas amostras de matéria-prima e dos alimentos depois de prontos é o maior desafio, as principais tecnologias apontadas pelos especialistas entram nesta etapa do processo. 

Segundo Hauptli, a detecção quantitativa e qualitativa dessas substâncias requer equipamentos de alta precisão, que permitem identificar e medir com exatidão as micotoxinas presentes nos ingredientes e produtos. 

Entre eles, ela menciona a Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (HPLC), que separa os diferentes componentes da amostra, permitindo determinar a quantidade exata de cada uma; o Ensaio Imunoenzimático (ELISA), que utiliza moléculas que reconhecem especificamente as toxinas e produzem uma reação visível, indicando tanto a presença quanto a concentração delas; e a Espectroscopia de Infravermelho Próximo (NIR), que analisa como a luz próxima do infravermelho é absorvida pelos alimentos, identificando padrões que revelam a presença de micotoxinas sem destruir a amostra, possibilitando uma análise rápida e não invasiva.

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De acordo com Zani, o Sindirações incentiva o uso de métodos imunológicos para detecção rápida, como os ensaios ELISA, ou o fluxo através de membranas, um tipo de detecção que funciona como um teste de “tirinha” em que a amostra passa por uma membrana e gera um resultado visível — o mesmo princípio de testes de gravidez. “Essas soluções oferecem resultados em minutos, com alta sensibilidade, baixo custo e possibilidade de aplicação em campo, sem necessidade de reagentes tóxicos ou pré-limpeza das amostras”, detalha.

Embora sejam mais ágeis que os métodos cromatográficos, a precisão depende da representatividade da amostra. O executivo ressalta que a escolha da técnica deve considerar o custo, a linearidade, a recuperação e a repetibilidade do método.

No processamento, a extrusão, etapa central da fabricação de ração seca, não é suficiente para eliminar as micotoxinas, exigindo outras soluções para garantir a segurança dos alimentos. 

Hauptli sugere que, diante da ameaça de produção de micotoxinas, a medida preventiva ideal é a incorporação de aditivos adsorventes nos alimentos. Eles são aditivos inertes, ou seja, não apresentam princípio nutricional e têm, como única função, aderir à superfície das micotoxinas, de modo a inativar as ações deletérias aos pets.

“Os adsorventes são uma resposta eficaz para mitigar esta presença indesejada. A base desses aditivos são as argilas, que apresentam essa capacidade de se ligar às micotoxinas, encasulá-las e eliminá-las pelas fezes sem danos aos animais.”

Para Zani, essa solução não é livre de desafios. “Alguns adsorventes apresentam excelente desempenho frente às aflatoxinas, mas eficácia variável para outras micotoxinas. Além disso, o uso do adsorvente inadequado para o tipo de micotoxina pode afetar a digestibilidade e a absorção de nutrientes essenciais”. Por isso, a seleção do material deve considerar a toxina-alvo, o pH e a dose adequada. 

O executivo do Sindirações também destaca que tecnologias alternativas, como a irradiação de alimentos, têm sido avaliadas para esse fim. A técnica é um processo que utiliza radiação ionizante, como raios gama, raios X ou feixes de elétrons de alta energia, para tratar alimentos com o objetivo de melhorar sua segurança e prolongar sua vida útil. Regulamentada pela Anvisa, a técnica é eficaz para controle microbiológico e pragas, mas ainda carece de validação técnica e viabilidade econômica para o uso em pet food.

Como fortalecer a segurança de insumos para pet food

O Sindirações recomenda protocolos baseados em esquemas de certificação que exigem análise de perigos, pontos críticos de controle, rastreabilidade por lote e monitoramento constante de fornecedores.

A entidade publica regularmente o Compêndio Brasileiro de Alimentação Animal, cuja sexta edição aborda as Boas Práticas de Higiene e Análise, revisadas com base no Codex Alimentarius. “O conteúdo traz fundamentos aplicáveis à alimentação animal e humana, com foco em segurança, mapeamento de riscos, planos de amostragem, certificações de sistemas e capacitação técnica das equipes”, explica Zani.

Essas práticas, segundo ele, formam uma estrutura de gestão integrada que permite identificar riscos por matéria-prima, origem e safra, além de orientar decisões de aceitação e segregação de lotes ainda na recepção do insumo.

Por fim, Hauptli alerta que o controle não se encerra na indústria. O armazenamento e a comercialização também impactam a qualidade dos alimentos. Pontos de venda com umidade, calor excessivo, insetos ou roedores podem comprometer produtos originalmente seguros. “Mesmo embaladas, as rações podem ser afetadas se armazenadas em condições inadequadas”, observa.

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