
Atualmente, não faltam iniciativas de exploração de tecnologias inteligentes, incluindo a inteligência artificial (IA), nos processos produtivos de pet food. Praticamente todo equipamento industrial é capaz de gerar algum tipo de dado útil para o fabricante, desde que ele saiba como interpretá-lo e aplicá-lo.
“O volume de dados disponíveis não é o problema”, afirmou Alex Douglas, diretor de desenvolvimento de clientes da Pulsant. O verdadeiro desafio, para ele, está em identificar quais conjuntos de dados são realmente críticos, processá-los com rapidez suficiente e definir onde esse processamento deve ocorrer. “Sem essa clareza, o sistema fica sobrecarregado e caro, especialmente quando o uso de nuvem cresce sem controle.”
Segundo Douglas, fabricantes pressionados a digitalizar todas as áreas da operação acabam criando fluxos de dados extensos e difíceis de transformar em ações práticas.
Para evitar isso, é fundamental contar com a infraestrutura digital adequada, capaz de garantir a coleta eficiente e no tempo certo das informações geradas pelos equipamentos dentro da planta industrial. Isso permite gerar insights acionáveis que agregam valor e aumentam a produtividade.
Como a IA se aplica ao ambiente de produção de pet food
Durante o evento Pet Food Collab 2025, realizado em setembro, a inteligência artificial foi um dos temas centrais, alinhada ao foco da conferência em pesquisas e tecnologias de ponta para o setor. No painel “A era digital: o papel da inteligência artificial na produção de pet food”, conduzido por Allison Blomme, doutoranda da Universidade Estadual de Kansas, Estados Unidos, foram discutidas diversas aplicações potenciais da IA na indústria de pet food.
“O machine learning e a IA generativa podem ser usados para aprimorar a tomada de decisão no chão de fábrica”, explicou Blomme. Esta última, segundo ela, permite que os operadores acessem informações sobre os sistemas de forma mais intuitiva, melhorando previsões de processamento, a eficácia da manutenção preventiva e a capacidade de antecipar a qualidade do produto.
O uso de machine learning e de grandes modelos de linguagem, treinados com enormes volumes de dados para gerar textos semelhantes aos humanos, também pode simplificar o planejamento da produção. Um pedido, por exemplo, pode ser importado diretamente para o sistema produtivo correspondente, permitindo que as equipes visualizem as ordens recebidas e que os líderes de produção acompanhem o progresso diário. Documentações como checklists digitais e relatórios de diagnóstico também podem ser integradas ao sistema, e novas unidades industriais conseguem incorporar essas ferramentas digitais desde o início de suas operações.
Ainda assim, existe o risco de excesso de informação comprometer a eficiência de sistemas bem estruturados. Por isso, é essencial definir com precisão o que deve ou não ser monitorado.
“Quando os fabricantes deixam de coletar dados de forma indiscriminada e passam a adotar uma abordagem direcionada e orientada pelo tempo, os ganhos de eficiência são imediatos”, afirmou Douglas.
As equipes de engenharia, por exemplo, conseguem priorizar manutenção preditiva em vez de corretiva. As cadeias de suprimentos se tornam mais responsivas, com estoques menores e margens mais ajustadas ao modelo just in time, uma filosofia de gestão que visa produzir e entregar bens e materiais exatamente quando são necessários, na quantidade exata, para atender à demanda real, eliminando estoques desnecessários e desperdícios. Além disso, tomadores de decisão passam a trabalhar com uma visão atual e unificada do desempenho operacional, e não com dados atrasados ou conflitantes.
Em sua apresentação “Otimização da produção com análise de processos”, também no Pet Food Collab 2025, Jay Pokorny, diretor de inovação estratégica da Wenger/Extru-Tech, abordou o conceito de “gêmeos digitais”, representações virtuais de objetos, processos ou sistemas físicos que utilizam dados em tempo real para analisar desempenho, identificar problemas e realizar simulações.
No caso da empresa, o EXPRO AI é um software de otimização de processos de extrusão que cria uma representação virtual completa do processo, incluindo o sistema de extrusão, os fluxos de matéria-prima, o secador, o aplicador de cobertura e o resfriador. Segundo Pokorny, essa tecnologia permite prever os resultados de qualidade do produto logo na saída do extrusor e realizar ajustes de processo em tempo real para manter a qualidade dentro dos parâmetros desejados.
Tecnologias inteligentes além da produção de pet food
As tecnologias inteligentes também estão cada vez mais presentes em etapas que vão além da fabricação.
“Como muitos produtos de pet food são altamente perecíveis, como refeições frescas e congeladas, toppers e caldos, pequenas variações de temperatura podem resultar em perdas significativas”, explicou Randy Skyba, vice-presidente de vendas e marketing da Due North, fornecedora de soluções de refrigeração.
Nesse sentido, ele diz que sistemas inteligentes mantêm o resfriamento constante e emitem alertas imediatos quando as condições se desviam do ideal, ajudando a preservar a qualidade e a vida útil dos produtos. Eles também antecipam a necessidade de manutenção, evitando paradas dispendiosas ou perdas totais de mercadorias. Além disso, “controles inteligentes otimizam os ciclos dos compressores e o consumo de energia, reduzindo os custos operacionais diários e mantendo cada SKU dentro da faixa segura”, explicou.
A refrigeração inteligente também permite acompanhar a movimentação de estoque e os padrões de venda, possibilitando que os varejistas ajustem suas estratégias de reposição para maximizar a rentabilidade.
Outro avanço importante é a flexibilidade crescente desses sistemas. “No mercado pet, isso significa que refrigeradores e freezers podem ser configurados de acordo com o mix real de produtos, como alimentos frescos, carnes cruas congeladas, caldos e suplementos. O software pode ser ajustado para monitorar o que está vendendo bem, o que permanece parado por mais tempo e oferecer à equipe uma visualização simples da temperatura e da necessidade de reposição”, acrescentou Skyba.
Os próprios tutores de pets também vêm adotando cada vez mais tecnologias inteligentes, desde comedouros e bebedouros automáticos, até caixas de areia conectadas a aplicativos. Seja para acompanhar os animais à distância ou controlar porções de alimento, a inteligência artificial está se integrando de forma crescente à rotina do cuidado com os pets.
O futuro das tecnologias inteligentes e da IA no pet food
Com a evolução dessas tecnologias, o uso em tempo real tende a se tornar cada vez mais comum.
“A transformação digital na indústria depende de transformar dados em ativos realmente úteis”, afirmou Douglas.
Segundo ele, ao construir infraestruturas digitais que priorizem análises em tempo real, processamento local e filtragem inteligente de dados, os fabricantes conseguem reduzir ruídos, responder mais rapidamente a riscos operacionais e gerar ganhos concretos de produtividade. “Em um setor em que cada segundo conta e relevância sempre supera volume. E, com plataformas de alto desempenho próximas ao ponto de uso, a oportunidade de agir com base nos dados certos, no momento certo, nunca foi tão viável.”
Essa transição para o tempo real já começa a se materializar em diferentes frentes do setor de pet food.
A inteligência artificial está avançando para a otimização em tempo real, na qual um refrigerador consegue ajustar seu próprio desempenho com base no que acontece ao redor, como abertura de portas, temperatura ambiente e carga de produtos. “Também observamos avanços na integração de dados de sensores, câmeras e sistemas de ponto de venda para prever a demanda e ajustar o resfriamento de forma dinâmica. Para o pet food, isso se traduz em menos variações de temperatura, menor desperdício de energia e decisões de abastecimento mais inteligentes, contribuindo para margens melhores e uma experiência de compra mais confiável para o consumidor”, finalizou Skyba.


















