
O preço de qualquer alimento no ponto de venda parece um número simples, mas, na prática, reúne inúmeras variáveis de custo envolvidas para que esse produto chegue às mãos do consumidor.
De acordo com dados de 2023 do Serviço de Pesquisa Econômica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, no segmento de alimentos para consumo humano, cada dólar gasto inclui 0,09 centavos referentes à produção agropecuária e 0,13 centavos ao processamento de alimentos, além de custos com embalagens (0,02 centavos), transporte (0,03 centavos) e diversos outros fatores.
No pet food, naturalmente, esses mesmos elementos estão presentes. Ao mesmo tempo, os tutores de pets sentem a pressão econômica, já que os custos aumentam em toda a cadeia. No início de setembro de 2025, o site de avaliação de alimentos para cães Dog Food Advisor divulgou os resultados de sua primeira pesquisa com tutores de cães nos Estados Unidos, com o objetivo de entender melhor como essas pessoas alimentam e cuidam de seus animais.
Quase 10 mil assinantes da newsletter do site responderam à pesquisa, e os resultados demonstraram o alto nível de fidelidade dos tutores aos seus pets:
- 52% afirmaram que deixariam de comer para alimentar seus cães.
- 96% disseram que jamais abririam mão do animal por causa do custo da alimentação.
- 86% afirmaram que reduziriam gastos pessoais para conseguir comprar ração de qualidade para o cão.
Esses dados são positivos para a indústria de pet food como um todo, mas não significam que os consumidores não estejam buscando economizar sempre que possível, especialmente diante da continuidade das turbulências econômicas e do enfraquecimento das redes de proteção financeira.
É nesse contexto que a eficiência de custos da indústria se torna fundamental para garantir que os produtos cheguem às prateleiras com preços mais acessíveis.
Os principais pontos de pressão de custos na produção de pet food
Ao questionar especialistas do setor sobre onde surgem as ineficiências de custos, a resposta foi previsível: praticamente em todas as etapas. Equipamentos, mão de obra, embalagens, energia, matérias-primas e o próprio processo produtivo apresentam desafios constantes para manter a eficiência econômica.
“De modo geral, a mitigação de custos está focada no aumento da eficiência por meio de melhorias no processamento”, afirmou Ian Mealey, diretor de Marketing de Produtos da Datacor Animal Nutrition, empresa que desenvolve softwares de formulação voltados à melhoria da nutrição, da conformidade regulatória e da rentabilidade em escala.
Do ponto de vista da formulação, o especialista percebe um reconhecimento crescente de que as decisões de compra de ingredientes, que são diretamente influenciadas pelas fórmulas dos produtos, têm papel relevante na redução de custos. “Uma estratégia inadequada de aquisição de ingredientes permite fabricar o produto, mas a um custo mais alto do que o necessário”, diz.
Para ele, a formulação é um exemplo claro de como a tecnologia impacta outras áreas do negócio, neste caso, o sourcing, a identificação, avaliação e seleção de fornecedores.
A questão da origem dos ingredientes remete aos problemas enfrentados durante a pandemia de covid-19, quando fabricantes de pet food precisaram lidar com a manutenção do fornecimento à medida que canais tradicionais se tornaram sobrecarregados ou indisponíveis. Esse debate permanece atual. Um relatório recente do Institute for Feed Education & Research destacou as necessidades de vitaminas e aminoácidos nas formulações de pet food nos Estados Unidos e apontou que essas demandas simplesmente não conseguem ser atendidas pela produção doméstica.
O relatório aponta que o país possui produção interna limitada de aminoácidos, representando menos de 20% da capacidade global, e praticamente não produz vitaminas, com exceção da niacina (B3), que corresponde a apenas 7% da produção mundial.
Como resultado, a indústria de nutrição animal depende fortemente de importações, especialmente da China, que fornece uma parcela significativa dos aminoácidos e vitaminas suplementares. Por exemplo, 100% da lisina importada utilizada em rações para animais de produção e aves vem da China. As importações de vitaminas também são altamente dependentes do país, sobretudo no caso da tiamina (B1), do ácido pantotênico (B5), da piridoxina (B6) e da vitamina E, em que as fontes chinesas representam mais de 80% do total importado. Essa forte dependência de poucos fornecedores evidencia a vulnerabilidade da produção de alimentos para animais a interrupções na cadeia global de suprimentos.
Além disso, há o próprio processo de fabricação do pet food, no qual as tecnologias de equipamentos vêm sendo aprimoradas há anos para reduzir paradas, desperdícios e ineficiências.
Alguns dos custos mais relevantes na produção de pet food estão ligados aos ingredientes, ao consumo de energia dos equipamentos e à sua eficiência operacional, explicou Jonathan Iman, responsável por vendas e desenvolvimento de negócios nos Estados Unidos da Tietjen, empresa alemã fornecedora de equipamentos para o processamento otimizado de matérias-primas. “A produção de alimentos extrusados gera custos muito elevados com desperdício ou sobras geradas no processo de produção. Como os ingredientes estão entre os insumos mais caros, os fabricantes devem concentrar esforços na redução desse desperdício. Ajustar a distribuição do tamanho de partículas e otimizar a moagem é um bom ponto de partida.”
Processos que eram eficientes há dez anos podem não ser mais hoje em dia, o que torna essencial acompanhar as tendências do setor e manter flexibilidade operacional.
A eficiência dos equipamentos, ou seja, quanto do tempo programado de produção é realmente produtivo, é outro ponto crítico de custo, aponta Iman. “Com o passar dos anos, as formulações de pet food passaram a exigir moagens mais finas e teores mais elevados de gordura, o que pode fazer com que sistemas de moagem operem de forma ineficiente e aumentem o tempo de parada. A eficiência pode ser melhorada com equipamentos projetados especificamente para as formulações atuais”, disse.
Como soluções práticas de redução de custos se aplicam à produção de pet food
Em outubro de 2025, a dsm-firmenich, líder global em nutrição e saúde animal, inaugurou nos Estados Unidos uma unidade de premix dedicada exclusivamente ao mercado pet. O projeto foi concebido para incorporar o máximo possível de eficiências voltadas à redução de custos.
“Desde o início, fizemos escolhas estratégicas para equilibrar o investimento inicial em automação, segurança e sustentabilidade com economias de longo prazo em operação, energia e qualidade”, afirmou Rishabh Pande, vice-presidente global de pet food da empresa. A localização estratégica da planta, no centro do U.S. Animal Health Corridor (Corredor de Saúde Animal, em tradução livre), trecho que representa a maior concentração mundial de empresas de saúde animal que vai do Missouri ao Kansas, gera ganhos de processo e de custo ao posicionar a empresa mais próxima de clientes-chave, parceiros e redes logísticas. “Essa proximidade reduz custos de transporte, encurta prazos e permite uma colaboração técnica mais ágil”, diz Pande.
A automação, segundo o setor, tem papel central na construção de operações mais eficientes.
“A automação no processamento por bateladas e a rastreabilidade digital podem reduzir os custos de fabricação ao minimizar erros humanos, acelerar a produção e reduzir desperdícios”, explicou Pande. Tecnologias baseadas em automação de precisão e sistemas fechados e rastreáveis garantem que cada ingrediente seja adicionado de forma correta e segura, reduzindo o risco de contaminação cruzada, que pode levar a recalls dispendiosos.
Os recalls, de fato, representam custos elevados sob vários aspectos. Por isso, o objetivo final das empresas é investir adequadamente em ferramentas que evitem que eles ocorram.
“Alguns dos maiores custos na produção de pet food estão diretamente relacionados a recalls causados pela ausência de um plano robusto de segurança dos alimentos ou de um programa eficaz de verificação”, afirmou Matthew Nichols, diretor de desenvolvimento estratégico de mercado da Neogen, que oferece soluções de segurança e testes laboratoriais.
Segundo ele, um recall pode custar milhões de dólares às marcas e, mesmo quando o problema é identificado antes do lançamento no mercado, o descarte de produtos inseguros também gera perdas milionárias. Além disso, “há custos reputacionais, como perda de participação de mercado no futuro, percepção negativa da marca e quebra de confiança por parte dos clientes”, completou.
Os testes, como qualquer etapa do processo, também envolvem custos próprios.
No que se refere ao custo direto dos testes, os principais componentes são equipamentos, insumos, eventuais períodos de retenção de produto, tempo para obtenção de resultados e possíveis acordos de garantia. “A mão de obra também pode gerar custos diretos e indiretos, em função da alta rotatividade, da falta de capacitação técnica e de procedimentos de teste complexos”, explicou Nichols.
Até mesmo o layout da planta industrial pode impactar significativamente os custos de produção.
“Um layout mal projetado pode gerar ineficiências desnecessárias, enquanto uma torre de moagem bem concebida pode reduzir o tamanho dos equipamentos, o consumo de energia e as distâncias de transporte interno, melhorando o investimento de capital”, disse Iman.
Existe uma solução perfeita para eficiência de custos?
Em uma palavra: não.
“Sempre haverá trade-offs entre diferentes fatores”, afirmaram Nichols e Megan Noack, gerente global de marketing de produtos para toxinas naturais. Ainda assim, prevenir recalls e proteger a marca compensa. “Observamos a continuidade das tendências em gestão de dados e automação. Sempre que um programa de segurança dos alimentos se torna mais simples de implementar e manter, a empresa consegue reduzir custos e fortalecer a proteção da marca.”
No fim das contas, segundo Pande, alcançar eficiência não significa espremer ainda mais os recursos, mas sim construir processos mais inteligentes e integrados.
“Quando automação, integração e sustentabilidade atuam de forma conjunta, os fabricantes conseguem oferecer uma nutrição mais segura, consistente, econômica e responsável, beneficiando o negócio, os pets atendidos e o planeta”, concluiu.


















