
Antes considerados uma inovação capaz de transformar a indústria de alimentação animal, os ingredientes à base de insetos rapidamente passaram dos testes laboratoriais para projetos em escala industrial. No entanto, alguns anos depois, o entusiasmo inicial deu lugar a uma realidade mais moderada. Barreiras regulatórias, altos custos de produção e uma adoção de mercado mais lenta do que o esperado reduziram significativamente as expectativas nos últimos anos.
No início da década de 2020, diversos analistas projetaram um forte crescimento do segmento de proteínas de insetos até 2030. A consultoria Strategic Market Research estimou, em 2022, que o mercado global de proteína de insetos valia US$ 268,7 milhões (R$ 1,3 bilhão). Na época, os analistas esperavam que o mercado crescesse, em média, 31,5% ao ano, alcançando US$ 4,1 bilhões (R$ 20,6 bilhões) até 2032.
A International Platform of Insects for Food and Feed (IPIFF), organização sem fins lucrativos da União Europeia (UE) que representa os interesses do setor de entomocultura do bloco, estimou que a produção europeia de proteína de insetos poderia crescer de apenas alguns milhares de toneladas em 2020 para aproximadamente 1 milhão de toneladas de capacidade até 2030, com potencial para criar até 25 mil empregos em toda a cadeia de valor.
No entanto, a realidade até agora se mostrou mais modesta. Embora não exista consenso entre analistas sobre o tamanho atual do mercado global de insetos, é evidente que o volume real de vendas sequer chegou perto das projeções feitas no início da década.
Além disso, diversos projetos de grande visibilidade que prometiam provocar mudanças estruturais na indústria de alimentação animal fracassaram de forma significativa.
Mais recentemente, a Ÿnsect, gigante francesa de proteína de insetos, entrou em liquidação judicial em dezembro de 2025 após não conseguir garantir financiamento para superar desafios persistentes relacionados a questões financeiras, técnicas e altos custos operacionais. Apesar de ter captado mais de US$ 600 milhões (R$ 3 bilhões), a empresa enfrentou dificuldades com os elevados custos de energia, problemas técnicos em sua principal fábrica e preços pouco competitivos para sua proteína de larvas de tenébrio.
Problemas sistêmicos na cadeia de produção de insetos
Um dos principais entraves ao avanço da proteína de insetos foi que, apesar das inovações significativas, a indústria não conseguiu superar alguns problemas históricos, incluindo altos custos e preocupações com a qualidade.
Os desafios da farinha de insetos já eram conhecidos há anos, afirmou Aidan Connolly, presidente da AgriTech Capital, assessoria norte-americana de investimento especializada em inovação e tecnologia no setor do agronegócio.
“Já entendíamos, naquela época, que a farinha de insetos precisava ser mais barata do que a farinha de peixe -e talvez do que os isolados proteicos de soja -, além de apresentar perfil nutricional consistente e segurança”, afirmou Connolly, que constata que a maior parte disso foi alcançada, mas não totalmente. “Por isso, exceto no mercado pet, a adoção foi limitada.”
Além disso, continuou Connolly, surgiram questionamentos sobre os limites de inclusão da proteína de insetos nas dietas de animais de produção e de companhia, incluindo problemas de palatabilidade e suspeitas de que compostos como a quitina possam desencadear reações alérgicas.
“Embora isso ainda não esteja totalmente definido, o papel da proteína de insetos como opção em alimentos para pets, aquicultura e produção avícola tem sido prejudicado por essas dúvidas”, acrescentou Connolly.
A indústria de alimentação animal à base de insetos, especialmente na Europa, passou por uma desaceleração perceptível à medida que o setor avançou além do entusiasmo inicial e entrou em uma fase industrial. Além da liquidação da Ÿnsect, as dificuldades contribuíram para a falência ou reestruturação de outros projetos relevantes, incluindo a Enorm Biofactory, empresa dinamarquesa que operava a maior fazenda de insetos do norte da Europa até declarar falência, e a Agronutris, startup francesa fabricante de farinha e óleos da mosca-soldado-negra (BSF), que deu entrada em um plano formal de reestruturação financeira supervisionado pela Justiça à Tribuna de Comércio local, ambos em 2025.
O custo continua sendo um desafio central: a proteína de insetos possui preço significativamente superior ao de ingredientes convencionais, como farelo de soja e farinha de peixe, e sua produção exige grandes instalações automatizadas e intensivas em capital. A turbulência econômica dos últimos anos agravou ainda mais o cenário e, quando as condições de financiamento se tornaram mais restritivas, algumas empresas tiveram dificuldades para sustentar seus planos de expansão.
Os avanços regulatórios na Europa melhoraram, mas ainda limitam o mercado endereçável, especialmente para aplicações em rações para aves e suínos. Fabricantes de ração, por sua vez, continuam altamente sensíveis a preços e priorizam fornecimento consistente e desempenho comprovado. Escalar a produção de insetos para níveis industriais também se mostrou biologicamente e operacionalmente complexo, retardando o caminho para a lucratividade em todo o setor.
Mercados emergentes entregam menos do que o esperado
No início da década, analistas acreditavam que mercados emergentes da Ásia, África e América Latina seriam alguns dos principais motores de crescimento da indústria de proteína de insetos. Por exemplo, a Strategic Market Research destacou que algumas dessas regiões são culturalmente mais abertas à incorporação de insetos na alimentação, o que poderia facilitar sua adoção em massa na indústria de rações.
Além disso, a análise observou que esses países também enfrentam desigualdades que causam insegurança alimentar e ingestão insuficiente de proteínas por parte da população.
Diante deste cenário, governos e empresas privadas passaram a direcionar recursos para a criação de instalações de produção de insetos tanto para consumo humano quanto para promover seu uso como fonte alternativa e acessível de proteína.
Alguns avanços relevantes ocorreram na China, onde fazendas de BSF em províncias como Shandong e Guangdong já produzem aproximadamente 100 mil toneladas de ração à base de insetos por ano. O ingrediente é testado em dietas para aves, suínos e aquicultura. No entanto, a adoção em larga escala continua limitada pelos custos, já que o farelo de soja ainda é uma opção mais barata do que a proteína de insetos.
Na Rússia, algumas previsões sugeriam que a produção de proteína de insetos poderia alcançar 150 mil toneladas até 2030. A indústria russa está longe de atingir essa meta. Embora alguns projetos-piloto tenham sido lançados nos últimos anos, o setor ainda demonstra resistência à aceitação de insetos como ingredientes para alimentação animal.
A produção de insetos também apresentou avanços promissores na África, segundo Dorte Verner, economista agrícola líder e responsável global por proteínas alternativas na área global de alimentação e agricultura do World Bank.
“Existe uma enorme demanda por ração à base de insetos em tudo, desde a produção de caviar em Madagascar até rações para aves, suínos e peixes na África continental, além de alimentos pet na Europa”, afirmou Verner. Ele adicionou que um número crescente de fabricantes europeus de alimentos para animais de estimação está fechando contratos com produtores africanos. Isso ocorre porque algumas das grandes fornecedoras do setor, que receberam investimentos significativos, interromperam a produção.
Novas fazendas de criação de insetos estão surgindo em todo o continente africano, impulsionadas por preocupações com segurança alimentar e pela busca de novas soluções para preencher lacunas na cadeia de suprimentos.
Nos últimos anos, Verner afirma que é possível observar grande expansão na produção de BSF por pequenos e grandes produtores na maioria dos países africanos. “Existe uma demanda crescente por proteínas, óleos e minerais de alta qualidade, fornecidos pelas larvas de mosca-soldado-negra”, disse, acrescentando que, recentemente, mercados como Etiópia, Madagascar e Senegal têm demandado apoio do World Bank Group para expandir esse setor.
Futuro dos insetos ainda é promissor
Apesar dos recentes contratempos, analistas acreditam que a indústria ainda possui um potencial significativo a ser explorado. Sobre o futuro do ingrediente em pet food, Connolly disse que há motivos para otimismo.
“Estou muito impressionado com a disposição das coalizões do setor em trabalhar juntas para obter reconhecimento da farinha de insetos como ingrediente para ração”, afirmou, elencando os avanços na genética de insetos para encontrar linhagens mais produtivas e resistentes e a maior compreensão do impacto da criação no conteúdo nutricional e na produtividade da farinha como sinais positivos de progresso.
“O principal desafio da indústria de insetos é encontrar substratos alimentares gratuitos, ou até mesmo situações em que os produtores sejam pagos para remover esses resíduos”, afirmou Connolly. Isso inevitavelmente leva ao uso de esterco animal, subprodutos e resíduos alimentares, além dos desafios de garantir segurança e ausência de contaminantes.
“Portanto, ainda há muito trabalho a ser feito, mas pelo menos existe um caminho claro pela frente”, concluiu Connolly.

















