
Faz tempo que a inteligência artificial (IA) deixou de ser uma ferramenta para ajudar a escrever e-mails ou transcrever reuniões. No setor de pet food, ocupa espaços estratégicos que permitem melhor gestão, redução de custos, otimização de cadeias de produção e criação de novas categorias de serviços. Mas a realidade está longe de ser homogênea.
No Brasil, a adoção da tecnologia apresenta um cenário de contraste. Enquanto a IA já opera em estágios avançados no país — o Brasil é o país mais viciado em IA do mundo de acordo com um relatório de janeiro de 2026 da empresa de cibersegurança Check Point Software — a indústria de pet food demonstra diferentes velocidades para a implementação da tecnologia.
A Petfood Forum Brasil falou com quatro fabricantes nacionais para entender como (e se) a IA está presente nas operações. No geral, empresas com DNA brasileiro ainda estudam ou não possuem iniciativas concretas para o uso integrado da tecnologia. Por outro lado, a IA já incrementa megaprojetos industriais em fabricantes multinacionais e significa agilidade estratégica em foodtechs.
Multinacionais lideram a transformação digital
Gigantes globais do setor já fazem uso pesado da IA na automação em suas operações brasileiras. A Nestlé Purina, por exemplo, investiu R$ 2,5 bilhões em uma nova megafábrica em Vargeão (SC), projetada totalmente sob o conceito de Indústria 4.0. A unidade opera 100% paperless (sem papel) e emprega robótica avançada integrada à inteligência artificial nas linhas de envase e embalagem de sachês.
Outro caso que demonstra alta maturidade do uso da IA na indústria é a aplicação da tecnologia para prever falhas de maquinário. A WEG, empresa global de fabricação e comercialização de maquinário, implementou um sistema automatizado de gestão de ativos e sensores em uma grande empresa brasileira de pet food para monitorar moinhos críticos em sua operação.
O software, munido de inteligência artificial, conseguiu identificar falhas (como empeno no rotor e desnivelamento) em estágio inicial, evitando que a fábrica ficasse paralisada por dias. Segundo a empresa, o uso da solução gerou aumento de 17% na produtividade e uma economia anual estimada em R$ 660 mil em custos de manutenção.
No atendimento ao cliente, a fabricante italiana Farmina desponta como exemplo do uso de IA. Seu chatbot automatizado funciona como um especialista em nutrição e saúde pet 24 horas por dia, 7 dias por semana, fornecendo aconselhamento personalizado para tutores com base nas necessidades e estilo de vida dos pets.
Fabricantes brasileiras estão dando os primeiros passos
Nas fabricantes de origem brasileira, por outro lado, a IA ainda não faz parte da “folha de funcionários”. A Special Dog Company, produtora de rações e petiscos do interior de São Paulo, informou, em nota, que não tem nenhum projeto avançado de IA dentro da empresa.
O mesmo acontece com a BRF Pet, segmento de alimentos para animais de estimação da MBRF. Segundo informações da assessoria, a empresa não possui nenhuma ativação ou processo de produção que utilize IA no segmento, mas conta com iniciativas que englobam a companhia como um todo.
Já a PremierPet, uma das pioneiras no desenvolvimento de alimentos premium para pets no Brasil, afirma que já conta com soluções de IA em alguns departamentos, mas ainda em estágios iniciais.
Startups ocupam lugar na vanguarda
No outro extremo do mercado, as startups do segmento, conhecidas como foodtechs, enxergam a IA como parte do coração operacional. É o caso da A Quinta, fabricante de alimentos úmidos, naturais e personalizados para cães, que aplica a tecnologia como um aditivo de eficiência operacional na otimização de processos logísticos, comunicação e marketing.
Em nota, a empresa ressalta que a IA contribui principalmente para reduzir a complexidade operacional, como organização de informações, padronização de processos e agilidade na comunicação. Além de otimizar etapas internas que, sem esse apoio, seriam mais lentas e sujeitas a erro.
“Em um modelo como o nosso, que envolve personalização, produção e distribuição recorrente, esses ganhos são fundamentais para manter consistência, previsibilidade e qualidade em cada entrega”, diz Tiago Tresca, CEO e cofundador da empresa.
IA não é tendência passageira
Segundo Brenda Garofalo, coordenadora técnica em Nutrição Animal, P&D e Regulatórios na Vertrauen Consultoria Pet, em artigo publicado na Editora Stilo, a inteligência artificial não é uma tendência passageira no mercado pet. “Ela é a infraestrutura sobre a qual será construída a próxima geração do setor”, afirma. A convergência entre vínculo emocional crescente com os animais e o poder analítico da IA está criando um novo paradigma: o da medicina preventiva, da nutrição de precisão e do bem-estar integral.
No entanto, a especialista afirma que o caminho à frente exige uma visão estratégica que coloque os dados no centro do negócio, respeitando as rigorosas fronteiras éticas e regulatórias. A conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) no processamento de dados dos tutores e de seus cães, por exemplo, desponta como um grande desafio regulatório para a tecnologia.
Além disso, as decisões críticas que envolvem a saúde e o cuidado dos cães continuam demandando inteligência humana. “A tecnologia apoia o processo, mas as decisões críticas seguem sendo humanas, baseadas em critérios técnicos e no cuidado com a saúde dos cães”, completa Trisca.
Ainda assim, as oportunidades são imensas para quem conseguir navegar pela complexidade técnica e entregar soluções que, de fato, traduzam dados em mais qualidade de vida para os animais e tranquilidade para os tutores.

















