Do tabu à tigela: vantagens e desafios no caminho da proteína de inseto para pets no Brasil

Mercado brasileiro da proteína alternativa é avaliado em R$ 19 milhões e deve crescer mais de 10% ao ano até 2034

Produção De Proteína De Inseto No Brasil

Por mais que não seja tão comum quanto em alguns países da Ásia, em que espetos de grilos e baratas são “comidas de rua” populares, o brasileiro não é estranho a uma dieta à base de insetos. Na alimentação pet, no entanto, os tutores podem precisar passar por uma fase de convencimento. 

No Brasil, o consumo das rainhas das formigas Atta, conhecidas como tanajuras, içás ou saúvas, chega a ser histórico. Relacionada às culturas alimentares indígenas, em algumas regiões do Brasil a tradição de comer tanajuras perdura desde o século XVI e ocorre especialmente no início do período chuvoso, que coincide com o período reprodutivo das formigas. 

No Espírito Santo, por exemplo, os povos Tupinikim e Guarani preparam a farofa de tanajura com maior frequência em outubro, quando, para a reprodução, elas realizam a revoada e ficam aos montes pelo chão das aldeias. O inseto, no entanto, é famoso e está presente na mesa dos brasileiros em escala nacional. Além da farofa, bolo, petiscos e até salada são receitas possíveis com a tanajura.

Para os pets, a popularidade da formiga parece não se traduzir automaticamente em aceitação dos novos alimentos à base de proteínas de insetos. “A barreira psicológica envolvendo os insetos é o nosso principal desafio. A maioria recebe com estranheza”, conta Bruno Multedo, Cofundador & CEO na Lets Fly, produtora dos petiscos “Comida de Dragão”, elaborados com farinha de moscas soldado negras (BSF). 

“Por ser uma novidade no Brasil, existe uma dúvida inicial sobre o uso da proteína de insetos. Mas percebemos que, quando os tutores entendem os benefícios nutricionais, a segurança do ingrediente e os resultados para os pets, essa estranheza praticamente desaparece”, complementa Mateus Homse, Coordenador de Produtos da Special Dog Company que, recentemente, ampliou o portfólio da ração Bionatural Sensitive para cães, feita com proteínas de peixe branco e farinha de BSF. 

Mesmo sem aceitação automática, os especialistas ouvidos pelo Petfood Forum Brasil preveem que o futuro da proteína de inseto no país é promissor. “É uma alternativa que enxergamos com muito potencial, tanto do ponto de vista nutricional quanto ambiental”, diz Homse. O caminho, no entanto, tem desafios que passam pela informação e pelas limitações para o ganho de escala. 

Como está o mercado de proteína de inseto para pets no Brasil?

O mercado brasileiro de alimentos para pets à base de insetos representa 2,31% do tamanho do mercado global, segundo análise da Deep Market Insights. Em 2025, o segmento foi avaliado em US$ 3,7 milhões (R$ 19,1 milhões) e está em crescimento acelerado, com previsão de atingir US$ 9,03 milhões (R$ 46,8 milhões) até 2034, crescendo a uma taxa composta anual (CAGR) de 10,36% durante o período. 

Em 2025, consta no relatório que a BSF representou a maior parcela do tamanho do mercado por tipo de inseto e ela deve continuar sendo o principal motor de crescimento dentro da categoria.

Na experiência da Ybynsect, um dos pioneiros na produção industrial da proteína de tenébrio molitor, conhecido como larva-da-farinha, no Brasil, à medida que a alimentação pet com insetos deixa de ser tabu, a aceitação do consumidor passa a ser um desafio menor para a ampliação de mercado. “Mais empresas e grandes players do mercado têm procurado a proteína de insetos como ingrediente-chave, mas ela está longe de se consolidar e fazer frente às demais proteínas na alimentação pet”, avalia Mauro Ávila, CMO da Ybynsect.

Proteínas de insetos no Brasil: vantagens com desafios de ganho de escala

Um dos principais motivos para que a proteína de insetos ainda não seja tão competitiva quanto a bovina ou a de aves é a dificuldade em implementar produções de grande escala. De acordo com Ávila, porém, o desafio não se explica pela falta de interesse, insumos ou mão de obra qualificada, mas sim pelo baixo investimento em inovação.

“Falando do tenébrio, o Brasil tem vantagens para a produção de larga escala. O clima é favorável, temos grande suprimento de farinha de trigo (principal insumo para a produção), preços competitivos, geração de energia sustentável e barata. Mesmo assim, hoje temos mais de 30 toneladas de demanda reprimida da farinha de tenébrio porque nossa operação não consegue atender”, diz Ávila. 

Para escalar a produção, Ávila afirma que o maior obstáculo é a aquisição de equipamentos que possibilitem a automação dos processos. “A tecnologia nacional não consegue competir com grandes produtores da Ásia, por exemplo, que têm muito mais tradição nesse mercado e, por consequência, soluções mais avançadas.” 

Com a limitação da tecnologia de casa, a alternativa, custosa, seria a importação do maquinário necessário ou a terceirização de alguns processos de produção. “Soluções que ainda estão fora de alcance por questões de custo”, diz Ávila. Atualmente, a Ybynsect opera apenas no Rio Grande do Sul, um dos principais pólos de inovação em proteínas de insetos, e detém toda a cadeia produtiva, desde a criação, abate e processamento dos tenébrios. A companhia é a única certificada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária para o processamento do tenébrio molitor. 

Proteína de inseto: investimento não acompanha a demanda?

Ávila reforça que o problema do acesso insuficiente à inovação está diretamente ligado ao investimento conservador. “Por ser um ingrediente novo, que está começando a ganhar mercado, ainda é uma área que depende de pesquisa disruptiva e soluções inovadoras. E, claro, quanto mais disruptivo, maior o risco, o que dificulta o acesso ao fomento.” 

Além disso, a novidade também significa que a regulamentação ainda é lenta, burocrática e custosa, afastando ainda mais o interesse de investidores. No entanto, Ávila é otimista. “A demanda existe, o mercado está crescendo e temos potencial — se tivermos ações integradas de fomento à inovação — de estar entre os principais países produtores no mercado global.”

Insetos como futuro sustentável

O potencial de crescimento da proteína de insetos também está ligado à pressão global por sistemas alimentares mais sustentáveis, tanto na alimentação pet quanto na humana. Segundo Multedo, o aumento da população mundial e a limitação de recursos naturais devem impulsionar a busca por fontes alternativas de proteína nas próximas décadas. “Quando você compara com o gado, a gente precisa de 15 mil litros de água a menos por quilo de proteína produzida. Também precisamos de 3.140 vezes menos área para produzir o mesmo quilo de proteína”, afirma.

Além do mercado de nutrição animal, Multedo acredita que a proteína de insetos também deve avançar para a alimentação humana nos próximos anos. Segundo ele, a farinha de insetos pode ser incorporada a diversos produtos sem alterar significativamente sua aparência ou consumo, agregando valor nutricional. “Essa fonte proteica pode ser misturada a outros produtos para enriquecer de proteína um macarrão, um sorvete, uma manteiga. Dá para fazer um montão de coisa sem que o inseto apareça, mas trazendo toda a riqueza nutricional que ele carrega”, afirma. Essa combinação entre alta densidade nutricional e menor impacto ambiental, ele diz, deve sustentar o crescimento do setor no longo prazo.

Mais informação, mais espaço

Os entrevistados concordam que o futuro da proteína de inseto nas alimentações dos pets brasileiros irá depender de três pilares: investimento, regulamentação e informação. Sendo o último o que irá sustentar o mercado enquanto os demais evoluem mais lentamente. 

Se por um lado a proteína de insetos ainda é uma novidade para boa parte dos brasileiros, por outro, a mudança na forma como o mercado percebe esse ingrediente está acelerada. Segundo Ávila, a disseminação de informação de qualidade tem ajudado a desconstruir preconceitos históricos. “Até cinco anos atrás, inseto era sinônimo de praga”, afirma.

Para Multedo, a resistência inicial costuma estar ligada ao desconhecimento sobre os benefícios ambientais e nutricionais dos insetos. À medida que o consumidor entende melhor o processo produtivo e as características desses ingredientes, a receptividade tende a aumentar. “Existe uma barreira mental. Falta conhecimento sobre os insetos, sobre os benefícios e sobre o que existe ali. Isso se conecta diretamente com nojo e doença, o que é muito distante da realidade”, diz. 

Segundo ele, a experiência da Comida de Dragão mostra que cada vez mais consumidores estão dispostos a experimentar e incorporar esses produtos à rotina dos pets. “O nosso produto que mais vende é a larva desidratada, que é o Comida de Dragão original. Ele também é o que gera mais impacto visual. As pessoas ou amam ou odeiam. E estão amando cada vez mais.”

A percepção é compartilhada por Homse, da Special Dog, que vê na informação um dos principais motores para a expansão do mercado. “Quanto mais o tutor entende os benefícios da proteína alternativa, tanto para os pets quanto para o meio ambiente, maior tende a ser a aceitação”, afirma. Ele destaca ainda que os consumidores mais jovens são mais amigáveis à proteína por serem mais familiarizados com pautas relacionadas à sustentabilidade e à inovação alimentar.

Para os próximos anos, a expectativa é de crescimento gradual, impulsionado pelo avanço das pesquisas, pela ampliação da oferta e pela busca por soluções mais sustentáveis para a nutrição animal. “Hoje ainda é um ingrediente diferente para muitos consumidores brasileiros, mas percebemos uma evolução clara no interesse e na abertura para esse tipo de inovação”, diz Homse.

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