Insetos felizes: bem-estar de insetos criados em cativeiro afeta ingredientes para ração pet

Donos de animais de estimação tendem a se preocupar com o bem-estar animal de forma geral. O tratamento ético de insetos pode ser um diferencial para marcas de pet food.

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O bem-estar de insetos criados para rações pet pode influenciar a percepção de consumidores
O bem-estar de insetos criados para rações pet pode influenciar a percepção de consumidores
Eurogroup for Animals

Dizer que alguém “não faria mal nem a uma mosca” raramente é verdade. Embora as algumas pessoas geralmente deixem as aranhas seguirem com suas atividades predatórias contra pragas dentro de casa, elas costumam matar moscas ou pernilongos. 

Os mosquitos são os animais mais mortais do planeta, considerando sua propensão a espalhar malária, dengue e outras doenças graves. Tecnicamente, os culpados são os parasitas, vírus e patógenos que eles transmitem. Ainda assim, poucas pessoas se opõem à erradicação de mosquitos e outros insetos vetores de doenças. No entanto, a empatia humana por insetos pode ganhar um novo tom ao considerar aqueles criados como ingredientes para alimentos dos nossos animais de estimação.

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Insetos também são animais, e esse “gado minúsculo de seis patas” pode ter direito a proteções semelhantes às concedidas aos animais de fazenda tradicionais de pelo ou pena. A questão do bem-estar animal gira em torno do sofrimento e da senciência. No caso dos insetos, isso envolve determinar se eles têm consciência e podem sentir dor, como outros animais, ou se são apenas autômatos movidos por reações químicas de causa e efeito. Embora escolas filosóficas e religiosas tenham opiniões variadas sobre isso ao longo da história, observações e evidências sugerem que todos os animais, incluindo os humanos, percebem o mundo através de mecanismos semelhantes. Embora em graus diferentes, todos os animais parecem sentir sensações e possuir algum nível de cognição.

“A ciência da senciência de animais invertebrados — e mais precisamente a dos insetos — é muito menos desenvolvida do que a, já escassa, ciência da senciência de vertebrados devido à uma séria falta de financiamento”, afirma Francis Maugère, assessor político do Eurogroup for Animals, organização européia de proteção animal. 

Insetos sentem dor?

Em 2023, o Eurogroup for Animals coordenou uma Declaração Científica sobre Senciência e Bem-estar de Insetos com pesquisadores e filósofos especializados para resumir as evidências disponíveis.“Um número crescente de evidências sugere que algumas ordens de insetos provavelmente, ou muito provavelmente, sentem dor e prazer, e experimentam uma vida senciente”, relata Maugère. 

Maugère também citou uma publicação de 2024 da Universidade de Nova York (NYU), a Declaração de Nova York sobre Consciência Animal. No documento, pesquisadores da NYU concluíram que há evidências empíricas de que todos os vertebrados, e pelo menos muitos invertebrados, provavelmente possuem consciência. Estudos recentes sobre as necessidades de bem-estar das espécies de insetos mais comuns para criação em cativeiro — como a Black Soldier Fly (BSF), o tenébrio (larva da farinha) e grilos — podem ajudar a desenvolver esses padrões.

“Muitos produtores já estão refletindo seriamente sobre isso, prestando muita atenção aos impactos da densidade populacional, tipo de alimentação, umidade relativa, temperatura e outras variáveis na mortalidade dos insetos, taxas de conversão alimentar e outros indicadores amplos de bem-estar”, diz Bob Fischer, professor de filosofia na Universidade Estadual do Texas, nos Estados Unidos. “No entanto, à medida que aprendemos mais sobre os estressores e preferências dos insetos, surgirão oportunidades para melhorar ainda mais as condições desses animais.”

Diretrizes de bem-estar animal para a criação de insetos para alimentação

Fischer se referiu ao trabalho do Barrett Lab, da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, que produziu revisões que sugerem meios dos produtores reduzirem os estressores dos insetos criados. Por exemplo, as BSF adultas geralmente são privadas de alimento após botarem ovos o que, segundo o laboratório, pode aumentar os níveis de estresse. O trabalho sugere que seria melhor alimentá-las ou realizar a eutanásia, pois ambas as opções reduziriam impactos negativos ao bem-estar.

Maugère, do Eurogroup for Animals, afirma que o modelo dos cinco domínios do bem-estar animal pode orientar as fazendas de insetos:

  • Nutrição
  • Ambiente físico
  • Saúde
  • Interações comportamentais
  • Estado mental

Aplicado aos insetos, esses padrões de bem-estar podem incluir: 

  • métodos instantâneos de abate;
  • uso de anestésicos recomendados ou insensibilização antes do abate ou despovoamento;
  • evitar o jejum pré-abate sem justificativas de segurança;
  • proibição de substratos de alimentação inapropriados ou perigosos;
  • fornecimento de nutrição e hidratação adequadas para todos os estágios da vida;
  • proibição de manipulação genética que impeça a expressão de comportamentos naturais (como a capacidade de voar ou o crescimento fisiológico excessivo);
  • densidades de criação adequadas;
  • evitar luzes que causem estresse em espécies fotofóbicas;
  • níveis de temperatura e umidade adequados à espécie;
  • e protocolos de monitoramento, prevenção e tratamento de doenças.

“Insetos, como todos os outros animais, têm muitas preferências que podem ser frustradas sem necessariamente causar dor”, diz Fischer. “Por exemplo, podem preferir estar próximos a indivíduos da mesma espécie (até certo ponto), preferir certos tipos de alimentos, evitar a exposição à luz, ou ter preferências por faixas específicas de temperatura e umidade. Ao oferecer aos insetos o que eles preferem, seu bem-estar pode ser aprimorado.”

Apesar das evidências de que insetos têm necessidades específicas de bem-estar, ainda não há consenso científico.

“Não podemos afirmar com absoluta certeza que insetos — especialmente os criados para alimentação humana e animal — sentem dor e têm necessidades de bem-estar”, afirma Maugère. “Mas, diante das crescentes evidências, e considerando a quantidade massiva de indivíduos impactados pela criação de insetos, pedimos a adoção de uma abordagem de precaução”, sugere o assessor político do Eurogroup for Animals. 

Para ele, a criação de insetos deve ser considerada criação animal e seguir regras de bem-estar específicas para cada espécie. “A importância desse tema já é reconhecida por representantes da indústria, mesmo que ainda não existam padrões abrangentes desenvolvidos e implementados em nível industrial ou legislativo”, reforça. 

Mesmo sem consenso científico ou padrões regulatórios, produtores de ingredientes para pet food podem se beneficiar ao considerar o bem-estar dos insetos criados. Donos de pets geralmente demonstram mais preocupação com o bem-estar animal do que pessoas que não convivem com animais de estimação. Sendo assi, o tratamento ético de insetos pode ser um diferencial de marca em um mercado saturado por alegações de sustentabilidade e direitos dos animais.

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