
Para a indústria de alimentos de animais de estimação, a relação profunda entre a alimentação pet, saúde humana e meio ambiente não é novidade: um exemplo recente são os casos de infecções por Salmonella pelo contato com alimentos crus para animais de estimação no Canadá. No entanto, essa relação vai além do impacto direto de zoonoses, com novas abordagens que transformam a visão sobre o que são alimentos verdadeiramente saudáveis e sustentáveis.
A 30ª Conferência das Partes da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Mudança do Clima (COP 30), sediada em Belém, no Pará, em novembro, foi um marco para a construção de uma agenda que reforça a ideia de que a conservação ambiental está intimamente ligada com o bem-estar humano e de tudo que envolve a sociedade — inclusive a alimentação pet: a chamada Saúde Única.
O que é a Saúde Única?
A Saúde Única, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é uma abordagem que reconhece que a saúde dos seres humanos está intimamente ligada e é interdependente da saúde dos animais domésticos e selvagens, das plantas e do meio ambiente em geral. Significa, basicamente, que a manutenção de ecossistemas saudáveis é benéfica para sociedades e economias saudáveis.
Conforme as mudanças climáticas continuam a impulsionar a perda de biodiversidade e a degradação dos ecossistemas, o aumento das temperaturas e a alteração dos padrões de chuva estão modificando os habitats de vetores de doenças, como mosquitos e carrapatos, expandindo o alcance da malária, da dengue e de outras doenças infecciosas.
O desmatamento, as mudanças no uso da terra e a exploração da vida selvagem, especialmente em áreas de alta biodiversidade como a Amazônia, foco da COP 30, perturbam ainda mais os ecossistemas e aumentam o risco de transmissão zoonótica: segundo a OMS, cerca de 60% das infecções humanas são causadas por vírus, bactérias ou parasitas que têm origem em animais, sejam eles selvagens, de criação ou estimação.
Por que a Saúde Única é importante para a indústria pet?
Embora o potencial de transmissão de doenças entre humanos e animais de estimação seja menor que aquele observado na pecuária, a proximidade cotidiana entre tutores e pets reforça a necessidade de uma atenção constante à saúde animal.
A assistência sanitária, o manejo higiênico e a qualidade dos alimentos e da água oferecidos aos animais são fatores essenciais para reduzir riscos de zoonoses e prevenir surtos associados a patógenos transmitidos por alimento, ressalta Carla Maria Figueiredo de Carvalho, médica-veterinária e coordenadora técnica do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP).
No contexto na indústria pet, formulações nutricionalmente equilibradas construídas sobre critérios técnicos qualificados, são determinantes para mitigar deficiências, manter a integridade imunológica e reduzir a vulnerabilidade dos animais a agentes infecciosos, inclusive aqueles com potencial zoonótico.
Na prática industrial, essa competência depende de um fluxo integrado entre médicos-veterinários e zootecnistas ao longo do desenvolvimento, validação e monitoramento de dietas seguras, funcionais e ambientalmente responsáveis. “A atuação conjunta desses profissionais fortalece os alicerces técnicos que sustentam qualidade, segurança e eficácia nutricional, elementos centrais para a aplicação dos princípios de Saúde Única na cadeia de pet food”, afirma Figueiredo.
Alimentos pet seguros, de qualidade e sustentáveis
Para a indústria de pet food, a lógica de Saúde Única reforça uma premissa estratégica: produzir alimentos seguros e nutritivos para cães e gatos depende diretamente da resiliência e sustentabilidade das cadeias agropecuárias que fornecem insumos de origem animal e vegetal.
Quando as condições climáticas se tornam instáveis, toda a arquitetura produtiva é pressionada. Por exemplo, a irregularidade das chuvas altera períodos de plantio e colheita, o que compromete a fertilidade do solo e reduz a produtividade de grãos, como milho e soja, que servem tanto como fontes energéticas e fibrosas quanto como base de subprodutos proteicos nas formulações.
As pastagens e forragens que sustentam os animais de criação, principais fontes de proteína nos alimentos pet, também são sensíveis ao clima. Quando há estiagens prolongadas ou chuvas excessivas, o valor nutricional dessas áreas se deteriora, impactando diretamente a qualidade dos subprodutos de origem animal que compõem as rações. Na prática industrial, isso significa maior variabilidade de matérias-primas, necessidade de ajustes constantes de formulação e pressão adicional sobre a rastreabilidade e os controles de qualidade. "É por isso que sustentabilidade e segurança dos alimentos não podem ser tratadas como agendas separadas”, afirma a médica-veterinária.
Outro ponto destacado pela especialista é a vulnerabilidade do armazenamento diante das mudanças ambientais. "A combinação de umidade e temperatura elevadas cria um ambiente favorável para fungos e bactérias, tornando o controle sanitário uma etapa ainda mais crítica para a integridade do produto final.”
Saúde Única como ativo estratégico para a indústria
O recado para a indústria de pet food é simples: qualidade, segurança, sustentabilidade e competitividade caminham juntas. Segundo a Pet Sustainability Coalition (PSC), essa convergência já aparece de forma explícita em mercados maduros. A sustentabilidade deixou de ser um diferencial cosmético e passou a estruturar decisões críticas de formulação, compras, inovação e compliance.
“Produtos sustentáveis tornaram-se um dos setores de crescimento mais rápido em toda a indústria”, afirmou Allison Reser, diretora de sustentabilidade e inovação da PSC em entrevista para o portal Food Ingredients Global Insights. A diretora conta que a organização observa um aumento no espaço nas prateleiras do varejo de 13% para quase 25% em apenas quatro anos de produtos comercializados de forma sustentável, um crescimento duas vezes maior do que os produtos convencionais.
A pressão regulatória também redesenha as exigências industriais. “A União Europeia, por exemplo, determinou que todas as embalagens sejam recicláveis até 2030 e estabeleceu metas vinculativas para o conteúdo reciclado”, lembrou Reser. Isso significa que, além de comunicar compromissos, as empresas precisam desenvolver soluções operacionais que respondam a exigências cada vez mais específicas de clima, água, solo e biodiversidade.
Do ponto de vista técnico-industrial, a coordenadora do CRMV-SP reforça que o grande desafio está em implementar boas práticas de fabricação ao longo de toda a cadeia, mitigando impactos ambientais, otimizando o uso de energia e água e adotando o descarte adequado de resíduos.
A sustentabilidade, nesse contexto, exige ciência aplicada, pesquisa contínua e tecnologias capazes de aumentar eficiência, segurança e qualidade dos alimentos.
Sustentabilidade como valor de marca
A comunicação ambiental, por sua vez, precisa deixar de lado ambiguidades. Claims genéricos ou pouco verificáveis já não encontram espaço. Mesmo quando uma marca adota embalagens recicláveis ou compostáveis, a infraestrutura necessária pode não estar disponível ou pode representar custos elevados, tornando o compromisso difícil de cumprir na prática.
Para Reser, a resposta passa pela inovação com foco em resiliência. “Para garantir a cadeia de suprimentos e contribuir para as metas climáticas, a indústria precisa repensar criativamente o desenvolvimento de produtos. Isso significa adotar ativamente soluções de alto valor agregado e vantajosas para todos, como proteínas alternativas e ingredientes reciclados”, destacou Reser.
A liderança do PSC também recomenda que cada empresa escolha uma ou duas iniciativas de alto impacto, acompanhe métricas, valide resultados e comunique com precisão. “Pequenas vitórias comprovadas geram credibilidade, impulsionamento de marca e alinhamento com as metas de sustentabilidade e o sucesso do negócio.”
Na síntese, Saúde Única não é apenas uma abordagem de saúde pública, mas um vetor de competitividade para toda a cadeia de pet food. Incorporá-la de forma estratégica significa garantir acesso a matérias-primas mais estáveis, fortalecer a segurança sanitária, antecipar pressões regulatórias e construir marcas mais resilientes em um ambiente de negócios já transformado pelas mudanças climáticas.

















