A pegada ambiental de um cão e o papel da indústria de pet food na transição sustentável

Impacto ambiental da alimentação pet pode representar até 18% das emissões brasileiras. Fabricantes devem pesar escolhas de formulação, origem das proteínas e embalagens na busca por um futuro sustentável.

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Juliana Stern | Imagem gerada com ferramentas de IA

Animais de estimação estão consolidando seu papel como integrantes permanentes das famílias brasileiras, e isso pode significar mais pressão em um planeta já sobrecarregado. 

Os pets estão cada vez mais presentes nos lares. Só no Brasil, a população de pets já ultrapassa os 164 milhões segundo dados da Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abempet), configurando a terceira maior população de pets do mundo, atrás dos Estados Unidos e China. 

Essa expansão também se reflete no aumento da demanda por produtos desse segmento, incluindo alimentos e petiscos, que deve faturar R$ 77,2 bilhões neste ano, ainda segundo a Abempet.  

Considerando que alimentos para pets são ricos em ingredientes de origem animal, relacionados às principais fontes de emissões de gases de efeito estufa (GEE), o setor é chave para uma indústria e um futuro mais sustentável. 

Então, qual deve ser a preocupação sobre o impacto dos pets no meio ambiente?

Como o pet food impacta o meio ambiente

A produção de alimentos, incluindo os voltados para animais de estimação, é uma das principais responsáveis pelo aquecimento global. 

Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), uma das maiores bases de dados de emissões de GEE do mundo iniciativa do Observatório do Clima, o Brasil emitiu 2.296 milhões de toneladas (Mt) de dióxido de carbono equivalente (CO2e) no ano em 2023. Quase metade das emissões (46,2% ou 1062 MtCO2e) foram atribuídas à mudanças de uso de terra e 27,4% (631 MtCO2e) à agropecuária, especialmente pelas emissões relacionadas ao desmatamento e à criação de animais para alimentação humana e animal. 

Ainda que o Brasil represente cerca de 3% das emissões globais, mensuradas em 57,1 bilhões de toneladas segundo o sexto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o país continuará a ser grande contribuinte para o aquecimento do planeta e as consequentes mudanças climáticas se não houver uma contenção.  

Segundo disse Paulo Artaxo, coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da Universidade de São Paulo (USP), seguir a meta do Acordo de Paris, que previa limitar o aquecimento médio global entre 1,5ºC e 2ºC, já é uma missão impossível.

O IPCC estima um aumento médio de 3,7ºC e 4,3ºC na temperatura média global até 2080, podendo ser contidas em 3,2ºC caso fortes ações de mitigação sejam tomadas. “Hoje já vivemos com uma previsão de aquecimento médio do planeta de 3ºC. Mas esse aquecimento é variável pelo mundo. No Brasil, estaríamos falando de uma alta média entre 4ºC e 4,5ºC”, apresentou o especialista. 

Nesse cenário, o Brasil se torna uma região cada vez mais seca, com diminuição da precipitação, mudanças na umidade do solo e déficit de água nas principais regiões produtoras de alimentos. “Se o futuro do país tiver que ser baseado na agricultura, teremos sérios problemas para sustentar a vida de 220 milhões de habitantes”, disse Artaxo ao apresentar dados do Fórum Econômico Mundial de 2016 que preveem a perda de 20% a 50% de hectares produtivos no país até 2050. 

Quem dirá sustentar mais de 160 milhões de pets. 

Veja também: 5 ações de conservação ambiental que empresas de pet food podem incentivar

Qual o impacto ambiental de cães e gatos no Brasil

As pesquisas publicadas sobre o impacto ambiental dos alimentos para pets ainda são limitadas. No entanto, é possível ter uma ideia do quanto ter um animal de estimação contribui para o aquecimento global. 

Um estudo publicado na Scientific Reports em 2022 estimou o impacto ambiental da produção de 1.000 kcal de dietas para cães e gatos, de acordo com o tipo de alimento (úmido ou seco) e considerando as variáveis: emissão de dióxido de carbono equivalente (CO₂e), uso da terra, emissão acidificante, emissão eutrofizante, retirada de água doce e uso de água levando em conta o estresse hídrico no Brasil.

Considerando um cão de 10 kg, com consumo médio de 534 kcal por dia, o estudo estimou que a mediana de emissões de CO₂e de uma dieta seca é de 4,25 kg por 1.000 kcal, enquanto uma dieta úmida apresenta 33,56 kg de CO₂e por 1.000 kcal.

Assim, esse cão seria responsável por aproximadamente 828,37 kg de CO₂e por ano se consumisse apenas rações secas, ou 6.541 kg de CO₂e por ano na alimentação por dietas úmidas. 

Ao extrapolar esse impacto para a população canina atual do Brasil, estimada em 63,7 milhões de animais, as emissões totais associadas à alimentação dos cães variariam entre 52,7 MtCO₂e por ano para dietas secas e 416,8 MtCO₂e por ano para dietas úmidas.

Considerando as emissões totais do Brasil, a alimentação dos cães representaria de 2,3% (ração seca) a 18,2% desse total (alimentação úmida).

Porque discutir sustentabilidade em pet food

Esses resultados evidenciam a importância de incluir o setor de pet food nas discussões sobre sustentabilidade, uma vez que seu impacto potencial pode ser expressivo quando considerado em escala nacional.

Diversos fatores influenciam a sustentabilidade de um alimento pet, como escolha de ingredientes, composição de matérias-primas, digestibilidade e porcentagens de inclusão de ingredientes. O estudo da Scientific Reports ressalta que o uso de proteínas de origem animal é o maior responsável pelo impacto ambiental do pet food. Por exemplo, a produção de 100 gramas de proteína de ervilhas emite 0,4 kg CO2e, enquanto a produção da mesma quantidade de proteína de carne bovina emite 35 kg CO2e, quase 90 vezes mais. 

O que fazer para reduzir a pegada ambiental do pet food

A sustentabilidade de longo prazo da indústria de alimentos para pets depende de diversos fatores, desde a preferência por matérias-primas sustentáveis até o uso de métodos de produção ambientalmente responsáveis e embalagens recicláveis.

Segundo escreveu Peter Alexander, professor de Sistemas Alimentares Globais na Universidade de Edimburgo, Escócia, em artigo publicado no The Conversation, há várias formas de reduzir a pegada ambiental dos animais de estimação.

Reduzir a quantidade de alimento necessária é um bom começo. Em 2022, a Association for Pet Obesity Prevention (Associação para a Prevenção da Obesidade em Pets) relatou que 61% dos gatos e 59% dos cães estavam obesos ou acima do peso. Isso significa que muitos tutores alimentam seus animais muito além do necessário, desperdiçando recursos e ampliando, sem perceber, o impacto ambiental do alimento pet.

Nesse sentido, a indústria pode atuar na educação do tutor e incentivar a oferta da quantidade adequada de alimento. A ação ainda contribui para combater a obesidade animal

Outra ação eficiente é incorporar ingredientes mais ecológicos nas formulações. Uma opção atual é a proteína de insetos, que usam menos espaço de terra e recursos hídricos para a produção do que proteína animal. Buscar soluções nutritivas e palatáveis com menor teor de carne, especialmente de ruminantes, que precisam de grandes áreas de pasto para a produção, e incluir mais ingredientes de origem vegetal também é um caminho. 

Embora o consumo de proteínas vegetais tenha menor impacto ambiental, nos casos em que seja necessária a inclusão de proteína animal, é importante optar por fontes de produção com menor impacto. Um estudo do Instituto de Estudos Marinhos e Antárticos, da Universidade da Tasmânia, por exemplo, revelou que o carbono emitido pela captura da maioria das espécies de peixes é muito inferior ao emitido pela produção de carne vermelha. A captura de 1 kg de peixe gera de 1 a 5 kg de carbono, enquanto a produção de 1 kg de carne vermelha gera entre 50 e 750 kg de carbono.

Sustentabilidade dos ingredientes à embalagem

Empresas comprometidas com o meio ambiente também devem buscar formas sustentáveis de embalar seus produtos. O plástico usado nas embalagens de alimentos para pets é tão prejudicial quanto o utilizado na fabricação de brinquedos para animais. Segundo a Pet Sustainability Coalition, 99% de todas as embalagens de alimentos e petiscos para pets vão parar em aterros sanitários todos os anos.

As empresas que produzem itens para pets devem priorizar a transição para embalagens 100% recicláveis, reutilizáveis ou compostáveis a fim de diminuir a contribuição da indústria pet para o aquecimento global. 

Ser e se comunicar sustentável como estratégia de reputação

Iniciativas sustentáveis beneficiam o meio ambiente, mas também podem fortalecer a reputação de marcas. Um estudo italiano de junho deste ano publicado na revista Environmental Challenges afirma que o papel da sustentabilidade na forma como as empresas operam se tornou uma ferramenta poderosa de comunicação. Ele é capaz de demonstrar o compromisso de uma empresa com questões ambientais, sociais e econômicas, além de agregar valor para todos os seus stakeholders.

“Na indústria de alimentos para pets, a comunicação sobre sustentabilidade vem mudando, seguindo tendências semelhantes às observadas na indústria de alimentos para consumo humano, em direção a uma abordagem de marketing que incorpora diferentes elementos, incluindo a sustentabilidade”, afirmaram os pesquisadores.

Leia também: Tutores de pets valorizam rações sustentáveis. É suficiente para gastar mais?

O trabalho sugere que empresas que comunicam de forma eficaz seus esforços em sustentabilidade ambiental, ao mesmo tempo em que ampliam e aprimoram os aspectos sociais e econômicos, podem fortalecer sua reputação de marca, aumentar a confiança dos consumidores e conquistar vantagem competitiva. 

Melhorar a comunicação com foco em transparência e divulgação científica, pode ser um diferencial importante para torná-la mais eficaz. Além disso, essa prática pode ajudar a reduzir o risco de greenwashing, estabelecendo padrões de reporte claros e evitando declarações vagas.

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