Rações à base de plantas para cães ganham espaço na Europa

Estudo identifica alta de mais de 500% nos lançamentos anuais de alimentos pet à base de plantas; mercado acompanha tendência de consumo sustentável e ligados aos valores dos tutores.

Ração Vegetariana Europa

Seguindo tendências de consumo, rações à base de plantas encontram um ambiente favorável no mercado de pet food europeu. Nos últimos quatro anos, os lançamentos anuais de alimentos veganos e vegetarianos para pets cresceram mais de cinco vezes. 

A constatação é de um estudo de cientistas da empresa irlandesa de biotecnologia ClonBio, em colaboração com a Universidade Estadual de Iowa (Estados Unidos). O trabalho, publicado na revista Animals em junho de 2025, analisou 4.563 produtos para cães disponíveis no mercado europeu entre 2020 e 2024. A pesquisa comparou a quantidade, o conteúdo nutricional e os preços de alimentos à base de plantas, híbridos (que combinam plantas e carne) e de origem animal.

No período analisado, a oferta de produtos à base de plantas, considerados vegetarianos ou veganos, foi a que mais cresceu. Os lançamentos anuais de rações sem proteína animal na Europa avançaram de nove, em 2020, para 57 em 2024, uma alta de 533%. Ainda assim, a categoria é a menos representada, totalizando 166, ou 3,6%, dos lançamentos nos últimos quatro anos. 

As dietas "híbridas", que combinam ingredientes de origem vegetal e animal, foram o segmento de maior crescimento, representando 3.018 (66%) do total de novos produtos lançados. Em 2024, os lançamentos de produtos híbridos (608) mais que duplicaram os de alimentos exclusivamente à base de carne (272), que têm apresentado uma queda desde o seu pico de 282 novos produtos em 2019.

De acordo com os pesquisadores, esses resultados refletem o interesse crescente dos consumidores por opções de alimentos sustentáveis, éticos e nutricionalmente balanceados para animais de estimação. O aumento dos híbridos reflete uma mudança mais ampla nas preferências dos consumidores em direção a formulações que oferecem benefícios ambientais e de saúde, sem abandonar totalmente o perfil nutricional dos alimentos tradicionais de origem animal. 

Alta de alimentos veganos e vegetarianos para pets: tendência sustentável e ética

Segundo os autores do estudo, o movimento acompanha uma visão mais humanizada dos animais de estimação, tratados cada vez mais como membros da família, e a busca por produtos alinhados aos valores dos donos. 

“A desaceleração nas inovações com base em carne pode indicar uma mudança nas prioridades dos consumidores, com a sustentabilidade e os princípios éticos influenciando cada vez mais as decisões de compra”, apontam os pesquisadores.  

O cenário construído pelo levantamento reflete movimentações recentes do mercado europeu. Por exemplo, em 2024, a Associação Veterinária Britânica (BVA) revogou orientações contrárias à alimentação pet à base de plantas e reconheceu os importantes benefícios ambientais relacionados. No entanto, alertam que os tutores devem estar atentos para garantir que essas dietas atendam às necessidades nutricionais. 

“Apoiamos os donos a fazerem escolhas informadas sobre o que alimentar seus animais de estimação, mas eles devem estar cientes de que essas escolhas desempenham um papel fundamental na saúde do animal e também podem ter um impacto mais amplo na saúde humana e na sustentabilidade ambiental”, disse Anna Judson, presidente da BVA. 

O crescimento do segmento também se traduz em números globais. Avaliado em US$ 10,3 bilhões em 2024, o mercado de alimentos veganos para pets deve atingir US$ 19,7 bilhões até 2034, com taxa de crescimento anual composta de 6,7%, segundo dados da Market.us News. Os cães lideram esse consumo, respondendo por 72,3% do mercado.

Os alimentos veganos “convencionais”, compostos por proteínas vegetais como ervilhas, lentilhas e soja, respondem por 63,2% do segmento, com destaque para as rações secas, que representam 56,2% das vendas. 

Leia também: Mercado global de petfood orgânica e natural projeta superar US$ 57 bilhões até 2033

Formulações e desafios nutricionais

Além do apelo ético e ambiental, o estudo irlandês afirma que alimentos veganos e vegetarianos para cães diferenciam-se por atributos como ausência de aditivos, corantes artificiais e conservantes. Embora essas alegações estejam presentes em todas as categorias analisadas, as formulações à base de plantas concentram declarações específicas como “vegano”, “vegetariano” e “plant-based (à base de plantas)”, reforçando seu posicionamento de nicho.

Do ponto de vista nutricional, no entanto, os desafios permanecem. As rações de origem vegetal tendem a apresentar baixos teores de proteína e gordura, nutrientes essenciais para a saúde dos cães, e maior teor de fibras e minerais. Alimentos híbridos, por sua vez, oferecem maior variação conforme a proporção de ingredientes de origem animal, enquanto os tradicionais, à base de carne, apresentam os maiores níveis médios de proteína e gordura.

Por exemplo, no caso dos petiscos, os produtos à base de carne concentram mais proteína (30,5g/100g) e gordura (9,7g/100g), enquanto os veganos têm menor teor desses componentes (6,9g e 3,0g, respectivamente). Por outro lado, se destacam pelo maior teor de fibras (3,7g/100g) frente aos petiscos de origem animal (1,75g/100g) e híbridos (1,90g/100g).

O estudo também ressalta que produtos à base de plantas tendem a ter preços mais elevados, tanto pelo uso de ingredientes especiais quanto pela complexidade do processo necessário para garantir um perfil nutricional adequado. No entanto, a crescente demanda e os avanços em pesquisa e desenvolvimento vêm reduzindo essa distância, especialmente em snacks e petiscos, que já apresentam preços mais competitivos em relação aos produtos convencionais.

Sustentabilidade em pauta

O estudo reforça que a adesão a dietas plant-based é impulsionada por seus potenciais benefícios ambientais. 

A produção de alimentos para pets à base de carne está associada à emissão de gases de efeito estufa e ao uso intensivo de recursos naturais. Uma pesquisa conduzida pelo professor Andrew Knight, da Universidade de Murdoch (Austrália), considerou qual seria o impacto ambiental caso todos os cães do mundo adotassem dietas veganas. Considerando uma população global de 471 milhões de cães de estimação, esse movimento seria capaz de reduzir emissões de 0,57 gigatoneladas de CO₂ por ano, volume que supera as emissões anuais do Reino Unido (~0,37 Gt CO₂ em 2024).

Além disso, a adoção de dietas à base de plantas poderia liberar energia alimentar suficiente para alimentar 450 milhões de pessoas, o equivalente à população da União Europeia.

Perspectivas para a indústria pet food

Para a indústria de pet food, os resultados apontam para um campo de oportunidades e também de exigências. A tendência é que a formulação de produtos cada vez mais conectados aos valores dos tutores se torne um diferencial competitivo.

No entanto, a melhora no perfil nutricional dos alimentos à base de plantas, especialmente no teor de proteínas, gorduras e digestibilidade, será essencial para consolidar a categoria.

Investimentos em ingredientes proteicos inovadores, novas tecnologias de processamento, estratégias de fabricação mais econômicas e transparência nas informações nutricionais são caminhos recomendados pelos autores.

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