Coreia do Norte muda visão sobre pets e passa a adquirir animais de estimação abertamente

Importações de cães, gatos e produtos para pets vindos da China crescem entre a elite do país

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Tim Wall | Imagem gerada com ferramentas de IA

Seguindo o exemplo do líder supremo Kim Jong Un, que visitou uma loja de animais de estimação em abril deste ano, norte-coreanos — especialmente os mais ricos — passaram a adquirir pets e comprar alimentos e acessórios para pets de forma aberta. Até recentemente, essa prática era condenada pelo regime como uma “cultura capitalista decadente”, associada ao luxo.

A Coreia do Norte é governada por uma ditadura totalitária baseada na ideologia estatal Juche, que prega a autossuficiência. Durante a pandemia de covid-19, cães e outros animais de estimação chegaram a ser confiscados e enviados para açougues, onde serviram de alimento para a população afetada pela escassez de comida. Na época, Kim também proibiu a criação de animais de estimação, classificando a prática como uma “tendência contaminada pela ideologia burguesa”.

Nos últimos meses, porém, essa postura começou a mudar após o líder norte-coreano visitar a loja de animais Hwasong Pet Shop, localizada na quarta fase do recém-inaugurado distrito de Hwasong, em Pyongyang. Durante a visita, Kim foi fotografado segurando um filhote de cachorro ao lado de familiares.

Segundo o Daily NK, organização jornalística sediada em Seul, na Coreia do Sul, e administrada por desertores norte-coreanos, empresas comerciais ligadas ao Estado passaram a importar um grande número de cães da China, além de alimentos para pets e outros produtos destinados ao cuidado dos animais.

Entre as raças importadas estão maltês, yorkshire terrier e beagle, além de gatos e aves. Os animais são transportados da cidade chinesa de Dandong, passando por Sinuiju, até Pyongyang. Dandong, localizada na fronteira com a Coreia do Norte, é o principal corredor comercial entre os dois países.

Os compradores desses animais pertencem, em sua maioria, à classe empresarial mais rica e a integrantes do Partido dos Trabalhadores norte-coreano.

Especialistas avaliam que esse movimento pode representar o início da formação de uma indústria pet no país, tradicionalmente isolado do restante do mundo.

Não há dados oficiais sobre a população pet

Não existem estatísticas oficiais sobre a população de animais de estimação na Coreia do Norte, mas a posse de pets vem crescendo gradualmente, sobretudo entre a elite de Pyongyang.

Historicamente, cães e gatos eram mantidos apenas para fins de segurança ou controle de roedores. A aparição de Kim Jong Un dentro de uma loja de animais, no entanto, mudou rapidamente essa percepção.

“Como um número crescente de famílias da capital e de outras regiões possui animais de estimação atualmente, determinei a construção de uma nova loja para vender pets, diversos acessórios e oferecer serviços especializados”, afirmou Kim, segundo declarações reproduzidas pela imprensa local.

O líder norte-coreano também defendeu a expansão da produção nacional de itens destinados ao setor pet, incluindo alimentos para animais, ferramentas de higiene e medicamentos veterinários, informou o Daily NK.

Apesar disso, observadores dentro e fora do país consideram incomum essa súbita demonstração de interesse pelos animais de estimação, especialmente em um contexto em que grande parte da população ainda vive em situação de extrema pobreza e enfrenta dificuldades para obter alimentos para si mesma, quanto mais para um pet.

Há também quem interprete a iniciativa como uma estratégia do governo para captar recursos privados ociosos por meio de empresas estatais.

Ainda assim, qualquer crítica ao possível renascimento da indústria pet na Coreia do Norte tende a ser rapidamente neutralizada pela própria visita da família governante à loja de animais.

“As pessoas comentam que, se o líder supremo e sua filha visitaram pessoalmente uma pet shop, quem ousaria criticar abertamente alguém por criar um cachorro como animal de estimação?”, afirmou uma fonte ouvida pelo Daily NK.

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