
A inteligência artificial (IA) tem alimentado uma ansiedade de ficar de fora da novidade, talvez mais até do que tem aumentado a produtividade. Grande parte do entusiasmo em torno da IA está ligada a não “perder o bonde”. No entanto, usar IA só por usar não é apenas improdutivo, como também pode comprometer a credibilidade de sustentabilidade de uma marca.
Profissionais do setor de pet food já começaram a utilizar ferramentas de IA para otimizar formulações, navegar pelas regulamentações e automatizar o marketing, entre outras aplicações. Ao mesmo tempo, empresas do setor têm assumido compromissos mais sérios com responsabilidade ecológica e social.
Centros de dados de IA exigem grandes espaços físicos e enorme consumo de energia para operar, ambos com custos ambientais e impactos nas comunidades vizinhas. Embora a inteligência artificial possa gerar benefícios, para manter uma postura sustentável, as empresas de pet food devem utilizá-la de forma seletiva, com base em objetivos claros, em vez de seguir tendências.
O custo ecológico da infraestrutura de IA
A mensagem ambiental em torno da IA é, no geral, negativa. Treinar e manter modelos de grande escala pode consumir quantidades significativas de eletricidade, frequentemente proveniente de combustíveis fósseis, dependendo da matriz energética regional.
Os data centers, base da implementação da IA, também demandam grande uso de água para sistemas de resfriamento, pressionando o abastecimento hídrico local e contribuindo para emissões de calor que afetam comunidades ao redor. Além disso, pelo grande uso de terra, a construção e operação desses centros podem alterar padrões de uso do solo.
As implicações sociais também entram nessa equação. Condições de trabalho na construção e manutenção de data centers, assim como na extração de minerais para componentes de hardware, têm sido alvo de questionamentos. Comunidades próximas a grandes instalações podem enfrentar competição por recursos, especialmente água.
Ainda assim, uma revisão de literatura com 155 estudos mostrou que a IA pode melhorar significativamente a sustentabilidade de ecossistemas regionais na América Latina, África, Ásia e outras regiões. Algumas soluções envolvem o monitoramento ambiental, a otimização agrícola e a gestão de recursos, além de aumentar eficiência e adaptabilidade.
Por outro lado, o estudo também destacou riscos, como desigualdade socioeconômica, barreiras tecnológicas e impactos regionais desiguais.
Da mesma forma, no livro “Human Values, Ethics, and Dignity in the Age of Artificial Intelligence”, publicado pela IGI Global, os autores apontam que a IA tem potencial para aprimorar a gestão ambiental por meio de análise de dados, modelagem preditiva e otimização de recursos — apoiando previsões climáticas, agricultura de precisão e monitoramento da poluição. No entanto, ressaltam que esses benefícios podem não ser distribuídos de forma equitativa entre regiões e comunidades.
Embora a IA possa apoiar metas de sustentabilidade, seus impactos ambientais e sociais exigem avaliação cuidadosa para garantir que os benefícios não sejam superados pelos efeitos colaterais.
A ascensão das ferramentas de machine learning
Apesar dessas preocupações, a adoção de IA em diferentes setores tem acelerado rapidamente. O setor de pet food se inclui nisso.
Fornecedores de ingredientes utilizam análises preditivas para prever safras e otimizar o abastecimento. Fabricantes de equipamentos incorporam IA em sistemas de processamento para monitoramento em tempo real e previsão de manutenção. Empresas de embalagens exploram design orientado por IA e otimização de materiais. Já as marcas de pet food utilizam IA para previsão de demanda, conceitos de nutrição personalizada e engajamento com consumidores.
A pressão competitiva para adotar essas tecnologias está aumentando, especialmente à medida que os primeiros adotantes relatam ganhos de eficiência e redução de custos.
Esse movimento acompanha tendências mais amplas: tecnologias de IA generativa apresentam uma das taxas de adoção mais rápidas entre as inovações digitais recentes, sendo rapidamente integradas aos fluxos de trabalho. No entanto, os resultados variam conforme o uso.
Segundo pesquisa publicada antecipadamente na revista Organizational Science, um estudo com 758 trabalhadores do conhecimento mostrou que a IA melhora o desempenho em tarefas dentro de sua capacidade, aumentando velocidade, produtividade e qualidade.
Por outro lado, seu uso reduziu a precisão em tarefas mais complexas fora desse escopo. O estudo também destacou que a percepção de vantagem competitiva e a facilidade de implementação impulsionam a adoção rápida, mesmo quando as implicações de longo prazo ainda são incertas.
No setor de pet food, essa dinâmica pode gerar um ambiente de “corrida pela adoção”. Empresas podem se sentir pressionadas a implementar IA não apenas por ganhos operacionais, mas também para sinalizar inovação a varejistas, investidores e consumidores.
Adotar IA com propósito ou por pressão do mercado?
De um lado, os benefícios potenciais da IA na produção de pet food podem favorecer o meio ambiente. Modelos de formulação mais eficientes podem reduzir desperdício de ingredientes. Manutenção preditiva pode minimizar paradas e melhorar a eficiência energética. A otimização da cadeia de suprimentos pode reduzir emissões de transporte ao melhorar a logística.
Em teoria, esses ganhos podem compensar parte dos custos ambientais da própria IA. No entanto, esses custos muitas vezes são externos à empresa que utiliza a tecnologia. Recaem sobre os provedores de nuvem, fabricantes de hardware e sistemas energéticos, o que reduz sua visibilidade nos relatórios corporativos de sustentabilidade.
Além disso, nem todo uso de IA gera ganhos reais de eficiência. Em alguns casos, a adoção é impulsionada mais pelo medo de ficar para trás do que por necessidades operacionais concretas. Quando a IA é implementada principalmente por diferenciação de marketing ou alinhamento com tendências, o custo ambiental torna-se mais difícil de justificar.
O conceito econômico de externalidades é central aqui. Ele descreve como os custos ambientais e sociais associados à IA geralmente não são arcados diretamente pelas empresas que utilizam a tecnologia, mas distribuídos pela sociedade.
Quando os benefícios privados da IA (como economia de custos e aumento de produtividade) superam os custos diretos para a empresa, a adoção parece racional. Porém, ao considerar os impactos ambientais mais amplos, essa equação pode mudar.
Para a indústria de pet food, que cada vez mais enfatiza sustentabilidade no posicionamento de marca, ignorar essas externalidades pode representar riscos reputacionais. Tutores estão mais atentos ao impacto total dos produtos que consomem. Por outro lado, comunicar a consciência da empresa sobre os impactos ambientais da tecnologia pode fortalecer sua imagem junto ao público.
Em vez de rejeitar a IA, uma abordagem mais eficaz tende a ser a seletividade. Priorizar aplicações que gerem melhorias mensuráveis, sejam elas ambientais ou operacionais, e evitar adoções motivadas apenas por pressão competitiva pode alinhar o uso da IA com metas mais amplas de sustentabilidade. Reconhecer e contabilizar as externalidades associadas à tecnologia será essencial nesse processo.


















