
Diante de tanto barulho em torno da inteligência artificial (IA) e da impressão de que ela está em todos os lugares, seria natural pensar que ela já foi muito bem recebida e adotada no setor de pet food. Será?
De acordo com uma pesquisa recente do Petfood Industry, esse não parece ser o caso. Não só a adoção da tecnologia está mais lenta do que o aparente, a velocidade com que essa transformação digital ocorre parece seguir de perto o setor de alimentos humanos.
A pesquisa, feita através de enquete com 140 profissionais de pet food, indica que mais da metade (52%) não usa IA em suas empresas. Mais de um quarto (26%) disse que sua empresa ainda não começou a usar a tecnologia de forma alguma, enquanto a mesma porcentagem afirmou não ter certeza sobre o uso em seus negócios ou não ter opinião sobre o tema. Apenas 36% dos respondentes relataram adoção de IA.
No setor de alimentos humanos, o cenário é similar. Uma pesquisa da TraceGains feita entre junho e julho deste ano aponta que 36% das empresas não usam IA de forma alguma, uma porcentagem acima da realidade do segmento pet. Paul Bradley, diretor sênior de marketing de produto da TraceGains, classificou a situação como “a maioria das marcas ainda opera na idade da pedra”, segundo reportagem de Insha Naureen no site Food Ingredients First.
Uso de IA em alimentos humanos cresce, mas ainda em nível baixo
A pesquisa da TraceGains avaliou o uso da tecnologia em 190 empresas globais de alimentos e bebidas de diversos portes. O estudo analisou, de forma geral, a adoção de ferramentas digitais, incluindo aquelas que apoiam o desenvolvimento de novos produtos (NPD, na sigla em inglês). “Apesar de 83% das marcas planejarem impulsionar o NPD este ano, apenas 2% afirmam que seus processos de desenvolvimento de produtos são totalmente digitalizados”, escreveu Naureen.
Em relação especificamente à IA, 17% das empresas pesquisadas disseram estar “totalmente comprometidas” com seu uso, contra 10% em pesquisa semelhante realizada em 2024. A utilização está crescendo ao mesmo tempo que o ceticismo em relação à IA está diminuindo: “apenas 32% permanecem não convencidos, contra 44% no ano passado”, segundo o relatório da TraceGains citado por Naureen. Ainda assim, quase 56% das empresas continuam “parcialmente dependentes” de ferramentas manuais, e apenas 16% utilizam sistemas digitalizados.
Para as empresas de alimentos que já adotaram IA em algum nível, as áreas mais comuns de uso são obtenção de insights de mercado (24,7%), simplificação de compliance (9,5%) e aceleração da formulação (9%).
IA na indústria de pet food: marketing e vendas dominam o uso
De forma semelhante ao setor de alimentos humanos, as empresas da indústria de pet food estão direcionando os investimentos em IA para as áreas de marketing e vendas. Segundo o levantamento da Petfood Industry, 35% dos respondentes usam a tecnologia para identificação de público-alvo e otimização de campanhas, seguidas por tendências de consumo e análise da concorrência (21%).
Outros usos da IA na indústria pet incluem ganhos de eficiência produtiva, com foco em otimização da manufatura e controle de qualidade (18%). Também aparecem aplicações em formulação de produtos, como ajuste de receitas e busca por alternativas de ingredientes, e auxílio com processos de conformidade regulatória (13% cada).
“O foco em marketing e vendas sugere que as empresas de pet food veem a IA principalmente como uma ferramenta para compreender e alcançar melhor os consumidores, em vez de otimizar operações internas ou processos de desenvolvimento de produtos”, escreveu Cleaver. O que não apenas reflete o que está acontecendo no setor de alimentos humanos, como também soa um tanto surpreendente.
A falta de uso ou de percepção das oportunidades da IA para melhorar operações ou desenvolvimento de produtos pode estar ligada à carência de habilidades ou de expertise sobre a tecnologia. Quase 25% dos respondentes identificaram esse ponto como o principal desafio para adoção, superando significativamente outras barreiras.
"Outro grande obstáculo, apontado por 27% das respostas na categoria 'outros', revela que muitas empresas enfrentam desafios que não foram contemplados pelas opções da pesquisa", afirmou Cleaver.
Entre as barreiras especificadas, sistemas ultrapassados e fluxos de trabalho legados representam obstáculos para 15% dos respondentes, enquanto 17% não percebem necessidade da IA, acreditando que seus processos atuais funcionam adequadamente sem aprimoramentos tecnológicos. Problemas de qualidade de dados afetam quase 10% das empresas, impedindo o avanço em aplicações de IA, enquanto preocupações com custo e retorno de investimento pouco claro representam barreiras para apenas 7% dos respondentes, indicando que o motivo financeiro não é um grande obstáculo.
Sem pressa para entrar na onda
Assim, como o setor pet, restrições financeiras parecem não desempenhar um papel central na baixa adoção de IA na indústria de alimentação humana. Em alguns casos, questões macroeconômicas e de comércio global podem pesar. “As empresas estão financiando atualizações tecnológicas, e 40% estão mais propensas a investir nelas devido à volatilidade do comércio global”, escreveu Naureen no Food Ingredients First. “Cerca de 18% priorizam atualizações ou manutenção de sistemas existentes, enquanto 13% vão focar em tecnologias de compliance para lidar com a incerteza regulatória.”
Em resumo: a IA pode oferecer muitas promessas, mas, como qualquer tecnologia ou fenômeno novo e disruptivo, o mundo dos negócios (pelo menos na forma de empresas de bens de consumo) está levando tempo para avaliar e, talvez, observar como a adoção ocorre em outros lugares.
Apesar de algum interesse dos consumidores em ver IA aplicada às empresas — Naureen citou dados da Innova Market Insights mostrando que quase 41% dos consumidores pesquisados globalmente percebem potencial na tecnologia para desenvolver alimentos e bebidas —, a menos que haja uma demanda significativa e inegável dos consumidores ou um claro imperativo estratégico de negócios, as empresas de alimentos pets e humanos ainda não estão correndo para embarcar na onda da IA.


















