México libera pet food brasileiro: oportunidade ou exagero?

Entrada do Brasil cria novas dinâmicas competitivas, contrariando as expectativas de sinergia bilateral.

México Pet Food

Em julho de 2025, o México suspendeu oficialmente sua restrição de longa data às importações de pet food brasileiro ao aprovar um novo Certificado Sanitário Internacional (CSI). O anúncio foi imediatamente celebrado pelo setor. No LinkedIn e em fóruns especializados, representantes da indústria brasileira demonstraram grande entusiasmo com a novidade. 

Ainda assim, a realidade é mais complexa do que as percepções iniciais sugeriram. A abertura certamente é relevante, mas as dinâmicas apontam mais para o aumento da concorrência do que para uma verdadeira sinergia.

Dois líderes, caminhos diferentes

De acordo com a Triplethree International, o Brasil segue como o maior mercado de pet food da América Latina, avaliado entre US$ 14 a 16 bilhões (R$ 76 a 87 bilhões), sustentado por uma base doméstica massiva. 

O México aparece em segundo lugar na região, superando os US$ 8 bilhões (R$ 43,5 bilhões) em 2025. O mercado mexicano tem se expandido rapidamente com a humanização dos pets, a forte demanda urbana e o aumento dos gastos da classe média com animais de estimação tratados como membros da família.

Enquanto os pontos fortes do Brasil estão na escala e nas formulações competitivas de médio padrão, o crescimento mexicano está cada vez mais atrelado à premiumização e à diversificação. Além do avanço das marcas de alto padrão, o mercado mexicano também se expande por meio de novos formatos de produtos, alegações funcionais e canais especializados. 

Essa divergência importa: de um lado, um mercado impulsionado principalmente por custo e escala; de outro, um mercado baseado em confiança, posicionamento de qualidade e variedade que amplia as opções do consumidor.

O domínio premium dos Estados Unidos

O desafio para os exportadores brasileiros é claro. O México já é fortemente abastecido por marcas premium importadas, principalmente dos Estados Unidos. Em 2024, quase 80% das importações mexicanas de alimentos para cães e gatos vieram de fornecedores norte-americanos, que dominam as prateleiras premium com forte reconhecimento de marca, marketing consistente e distribuição consolidada. Marcas europeias também reforçam essa camada competitiva. 

Para as empresas brasileiras, isso significa que sua verdadeira concorrência não está nos produtores locais mexicanos, mas sim nesses líderes já estabelecidos dos Estados Unidos e da Europa.

Uma relação assimétrica

A ideia de sinergia bilateral é difícil de sustentar. O perfil nacionalista do consumidor brasileiro, combinado com a elevada carga tributária sobre pet food importado, que facilmente ultrapassa 50% quando considerados todos os impostos federais e estaduais, coloca as marcas estrangeiras em clara desvantagem. 

Como resultado, o México não tem exportado pet food ao Brasil nos últimos anos, refletindo esse ambiente restritivo. Na prática, a recente mudança de política cria essencialmente uma oportunidade unilateral: os produtos brasileiros agora podem chegar aos consumidores mexicanos, mas os pet foods mexicanos dificilmente entrarão no mercado brasileiro nas condições atuais.

Uma porta aberta

Ainda assim, a oportunidade é real. Os fornecedores brasileiros trazem escala, vantagens de custo e inovação em segmentos intermediários. Se conseguirem se adaptar às demandas do México, poderão ocupar o espaço crescente entre as linhas econômicas e premium.

Mais do que sinergia, o resultado provável é uma nova dinâmica competitiva que pode enriquecer as opções para os consumidores mexicanos e, ao mesmo tempo, permitir que marcas brasileiras conquistem espaço. A porta está aberta. O sucesso dependerá de como o Brasil vai atravessá-la.

*Iván Franco é fundador da Triplethree International e colaborou em centenas de projetos de pesquisa para diversas indústrias de bens de consumo.

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