Cães podem espalhar Salmonella resistente a medicamentos sem ficarem doentes

Cientistas identificaram 77 casos suspeitos de zoonose, onde bactérias provavelmente foram transferidas de cães para humanos, envolvendo 164 cepas em 17 estados dos EUA.

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Pesquisadores identificaram 77 casos suspeitos de Salmonella potencialmente transmitidos por cães.
Pesquisadores identificaram 77 casos suspeitos de Salmonella potencialmente transmitidos por cães.
Anna Dinger/Unsplash

Animais de estimação podem espalhar doenças causadas por cepas de  Salmonella sem ficarem doentes. Isso possibilita que cães e gatos de estimação passem despercebidos como vetores que espalham doenças por campanhas de controle, prevenção e conscientização. É o que revelou um estudo de um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia (Penn State), nos Estados Unidos, que examinou casos existentes de Salmonella isolados de cães para quantificar a ameaça de bactérias resistentes a antimicrobianos transmitidas pelos animais.

“Especialmente com Salmonella, pensamos no papel da agricultura e da transmissão; pensamos em ovos, pensamos em carne bovina”, disse a autora principal do estudo Sophia Kenney, estudante de doutorado na Penn State, em um comunicado de imprensa. “Mas a questão é que não deixamos vacas dormirem em nossas camas ou lamberem nossos rostos, mas fazemos isso com os cães”. 

O estudo buscou entender qual o papel dos animais de companhia na transmissão de doenças zoonóticas como a Salmonella já que eles podem contraí-la e responder se o laço estreito entre humanos e animais de companhia em geral pode colocar a saúde dos tutores em risco.  “Infecções por Salmonella em cães não são comuns, mas estamos cientes de surtos de origem alimentar relacionados a petiscos ou pelo contato com alimentos contaminados para animais de estimação e manuseio inadequado desses alimentos”, relata Kenney. 

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Pesquisa sobre a disseminação de Salmonella por cães

Para explorar o potencial zoonótico de cepas de Salmonella resistente a antimicrobianos e Salmonella não tifóide em cães e humanos, os pesquisadores da Penn State analisaram dados da Rede de Laboratórios Veterinários para Investigação e Resposta (Veterinary Laboratory Investigation and Response Network) da U.S. Food & Drug Administration (FDA), agência federal americana que regula a segurança e a qualidade de alimentos, medicamentos, cosméticos, entre outros. O estudo incluiu a análise de todas as cepas de Salmonella não tifóide isoladas de cães domésticos em 87 casos registrados entre maio de 2017 e março de 2023.

Os pesquisadores então cruzaram o momento e a localização desses casos com cepas isoladas de humanos no banco de dados do Centro Nacional de Informação em Biotecnologia dos Estados Unidos (National Center for Biotechnology Information), gerenciado pela Biblioteca Nacional de Medicina (National Library of Medicine) dos Institutos Nacionais de Saúde ( National Institutes of Health). Este banco de dados fornece acesso a informações biomédicas e genômicas. A pesquisa identificou 77 casos suspeitos de zoonose, onde bactérias provavelmente foram transferidas de cães para humanos, envolvendo 164 cepas em 17 estados dos Estados Unidos.

As cepas de Salmonella isoladas de cães representavam diversas variantes da bactéria, a maioria clinicamente relevante para a saúde humana. Embora os conjuntos de dados carecessem de detalhes sobre a gravidade da infecção ou tratamentos, todas as cepas identificadas carregam genes de resistência antimicrobiana para medicamentos classificados como criticamente ou altamente importantes pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Salmonella: uma preocupação para fabricantes de pet food

A contaminação por Salmonella desafia os fabricantes de pet food, especialmente com a política de tolerância zero para a bactéria sob a Lei de Modernização da Segurança Alimentar da FDA, órgão dos Estados Unidos equivalente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A lei federal exige que todos os alimentos para animais de estimação sejam livres de Salmonella e todos os outros patógenos que possam representar uma ameaça para a saúde animal e humana. Com alimentos contaminados, não só os animais de estimação podem adoecer por Salmonella, mas também podem ser portadores da bactéria mesmo sem apresentar sintomas. Uma vez que a Salmonella se estabelece no trato gastrointestinal do pet, a bactéria pode estar presente nas fezes do animal, contribuindo para o ciclo de contaminação. 

“Identificamos 16 cepas isoladas de Salmonella não tifóide de humanos intimamente relacionadas a mais de uma de seis cepas associadas a cães”, disse Kenney. Segundo a pesquisadora, os dados enfatizam a importância da administração de antimicrobianos e da 

biovigilância integrada a partir da abordagem de “Saúde Única” (One Health). “É preciso que a estrutura de vigilância vá além da medicina veterinária, sendo associada à saúde humana e à agricultura”, afirma Kenney. “A estrutura de 'Saúde Única', que contabiliza todos os pontos de transmissão – incluindo animais de companhia, reconhece que a saúde das pessoas está intimamente ligada à saúde dos animais e ao nosso ambiente compartilhado”.
 

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