Saúde comportamental é tendência para o mercado de pet food

Contratar comportamentalistas e conectar clínicas a cuidados especializados reflete o foco crescente no manejo do estresse baseado em evidências para cães e gatos.

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Ansiedade Canina Saúde Comportamental Pet Food
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O estresse e a ansiedade afetam mais de 70% dos cães e até 50% dos gatos, segundo dados compartilhados pela Nestlé Purina. Como resposta a esse cenário, notícias recentes do setor pet mostram algumas marcas indo além do desenvolvimento de produtos para a nutrição física, visando uma abordagem holística sobre o bem-estar emocional do pet. 

Ao construir elações diretas com veterinários comportamentalistas, essas marcas estão criando caminhos para o atendimento especializado. Parcerias recentes podem sinalizar uma mudança no sentido de tratar a saúde comportamental como uma disciplina clínica que exige expertise profissional, não apenas ingredientes adicionais no rótulo.

As parcerias refletem o que Ezra J. Ameis, fundador e médico-veterinário da Paw Priority, descreve como uma evolução necessária na forma como a indústria aborda a saúde emocional dos pets. Com o estresse afetando a maioria dos animais de estimação, Ameis argumenta que o suporte ao estresse não deve ser tratado como um suplemento opcional de nicho, mas sim como algo integrado ao pensamento fundamental sobre nutrição.

“Já aceitamos que dietas ‘básicas’ devem dar suporte às articulações, à pele, à saúde intestinal, entre outros aspectos. A saúde emocional é tão biologicamente real quanto esses fatores.” Para ele, isso não significa que todo alimento seco precise ser comercializado como uma fórmula calmante, mas os fabricantes deveriam se perguntar se suas dietas podem dar suporte a um eixo intestino–cérebro saudável e se evita ingredientes ou desequilíbrios que possam piorar a ansiedade. 

De suplementos mastigáveis ao acesso à veterinários

Dois exemplos de marcas de alimentos e suplementos para pets que vêm enfatizando a saúde comportamental são a Omni Pet, fabricante de dietas e suplementos do Reino Unido, e a Purina Pro Plan Veterinary, linha de alimentos terapêuticos da Nestlé Purina. 

Na Omni, a estratégia inclui disponibilizar consultas gratuitas com um comportamentalista canino para tutores de cães. A iniciativa coincide com o que a empresa relatou como um aumento de 600% nas vendas de seus suplementos mastigáveis para estresse e ansiedade. O profissional oferecerá orientação individual sobre ansiedade de separação, reatividade a ruídos, estresse em viagens e medos relacionados a fogos de artifício para os consumidores da marca. 

Enquanto isso, a Purina Pro Plan Veterinary firmou parceria com a Ease, uma plataforma online de atendimento especializado em comportamento veterinário, como parte da iniciativa Pro Plan Veterinary Support Mission, lançada em 2024. A colaboração aborda uma escassez crítica: enquanto os problemas comportamentais estão entre as principais preocupações dos clientes e são uma das principais razões para abandono e eutanásia, apenas 0,07% dos veterinários em atuação nos Estados Unidos são comportamentalistas veterinários certificados.

A plataforma permite que veterinários enviem casos comportamentais para avaliação, enquanto os tutores recebem programas estruturados de comportamento por meio de um portal online próprio, com planos de tratamento personalizados, vídeos sob demanda e suporte por e-mail.

A ligação entre nutrição e comportamento pet 

Ameis destaca que existe uma realidade biológica por trás dos sintomas comportamentais: deficiências nutricionais ou desequilíbrios em aminoácidos, ácidos graxos, vitaminas do complexo B e minerais podem alterar a produção de neurotransmissores e a resposta ao estresse.

“Problemas nutricionais não se manifestam apenas como pelagem opaca ou fezes amolecidas; eles aparecem, sim, no comportamento”, disse. “Um cão cronicamente inflamado, desconfortável ou com o microbioma alterado vai ter um pavio mais curto.”

Para os fabricantes de pet food, isso significa priorizar proteínas de alta qualidade e biodisponíveis, além de ácidos graxos essenciais, formular produtos considerando o eixo intestino–cérebro e evitar formulações que atendem aos padrões regulatórios apenas no papel, mas têm desempenho inferior na prática. “Quando a dieta dá suporte à química cerebral, ao sono e ao conforto intestinal, muitas vezes vemos o comportamento melhorar mesmo sem recorrer a um medicamento prescrito.”

A abordagem multimodal

Na prática clínica, os planos de tratamento para estresse e ansiedade são construídos em camadas. O veterinário afirma que começa pela segurança e pelo ambiente, depois pela modificação comportamental, estruturando a nutrição e os suplementos sobre essa base.

“A nutrição é a trilha sonora do dia a dia. Sozinha ela não é capaz de resolver um cão com ansiedade severa, mas uma dieta ruim pode sabotar completamente o progresso”, explicou. Ele diz que os suplementos são as ferramentas de ‘ponte’, “algo que adicionamos para suporte direcionado quando temos um objetivo claro.”

Essa perspectiva molda a forma como o Ameis recomenda produtos calmantes de marcas pet. “Produtos calmantes não deveriam ser vendidos como soluções mágicas.” As marcas mais bem-sucedidas se posicionam como parte de um plano multimodal, com petiscos ou suplementos desenvolvidos para complementar o trabalho comportamental, o exercício adequado e, quando necessário, a medicação. “Veterinários têm muito mais probabilidade de recomendar um produto que reconhece seu papel dentro de um contexto maior, em vez de prometer soluções únicas e insuficientes.”

Evidências de estudos vs. o efeito no prática

Embora existam evidências para diversos ingredientes calmantes — probióticos, alguns produtos com L-teanina, peptídeos específicos do leite, determinados perfis de ômega-3 —, Ameis enfatiza que a qualidade e a especificidade variam drasticamente.

“Ter ‘probiótico’ ou ‘L-teanina’ no rótulo não é suficiente”, disse o veterinário. Do ponto de vista clínico, o que importa é se a cepa ou o ingrediente exato usado no produto é o mesmo que foi estudado, se a dose presente no produto é a mesma que demonstrou benefício e se os estudos foram feitos em cães ou gatos, e não apenas extrapolados de humanos ou roedores.

Para que os veterinários levem produtos calmantes a sério, Ameis defende que os fabricantes priorizem pesquisas específicas por cepa e por espécie, doses transparentes e alegações conservadoras, baseadas em evidências. “Não preciso de fogos de artifício no rótulo, preciso saber o que realmente está ali e quais dados sustentam isso.”

Parcerias clínicas como modelo

Com os problemas comportamentais entre as razões mais comuns para abandono ou eutanásia de pets — e, ainda assim, muitas vezes evitáveis com suporte estruturado —, Ameis vê uma oportunidade significativa para que os fabricantes criem parcerias clínicas relevantes. 

Sua visão abrange:

  • Protocolos: elaborados em colaboração com comportamentalistas veterinários.
  • Linhas de produtos: exclusivas para clínicas ou com seu suporte, acompanhadas de materiais educativos de fácil compreensão.
  • Acompanhamento: coleta de dados para monitoramento e avaliação de resultados.

“Quando um produto é claramente baseado em evidências, fácil de integrar a planos de treinamento e vem acompanhado de suporte educacional real, ele deixa de ser ‘apenas mais um mastigável calmante na prateleira’ e passa a ser uma ferramenta que realmente atua no bem-estar pet.”

Os movimentos recentes da Omni Pet e da Purina Pro Plan Veterinary sugerem que a indústria começa a adotar esse modelo, reconhecendo que cuidar da saúde comportamental dos pets pode exigir mais do que apenas melhores formulações, mas também conexões mais sólidas com os especialistas que tratam dessas questões.

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