
Nunca a pesquisa orientada pela ciência foi tão benéfica para a indústria pet food quanto atualmente. Com o aumento do acesso dos tutores de pets à informações sobre ingredientes e entendendo mais sobre suas aplicações a partir da alimentação humana, as marcas de pet food aproveitam para embasar suas inovações - e marketing - em evidências científicas.
O campo dos bióticos é um exemplo particularmente dinâmico desse contexto, já que as pesquisas tanto em humanos quanto em animais continuam a evoluir e a ganhar espaço na consciência popular.
Pesquisas humanas e veterinárias avançam juntas
Um dos benefícios para essas inovações em pet food é que os pesquisadores focados em pets souberam aproveitar a existência de décadas de estudos sobre bióticos em humanos.“Isso permitiu avanços rápidos em um tempo relativamente curto”, afirmou Mallory Gandhi, diretora de tecnologia (CTO) da fornecedora de probióticos Hollison.
Ela conta que as primeiras pesquisas focaram em probióticos para apoiar funções digestivas básicas, como qualidade das fezes ou recuperação após o uso de antibióticos. Logo depois, assim como na indústria de alimentos humanos, os prebióticos foram incorporados às formulações para pets. Porém, essa categoria nem sempre se baseou na modulação seletiva da microbiota, um aspecto crucial para garantir a saúde intestinal adequada.
O prebiótico ideal apoia preferencialmente microrganismos benéficos, como bactérias que ajudam na digestão e fortalecem a imunidade, em vez de oportunistas, que podem causar desequilíbrios e problemas de saúde intestinal. Muitos produtos no mercado, no entanto, não fazem essa distinção. “Pesquisas adicionais serão necessárias para diferenciar melhor os prebióticos seletivos e aprimorar os ingredientes disponíveis para a indústria de alimentos aos animais de companhia”, disse Gandhi.
A ADM, que atua tanto na produção de alimentos humanos quanto de ingredientes para nutrição animal, tem a vantagem de poder aplicar imediatamente todas as descobertas de suas pesquisas sobre bióticos em ambos os segmentos.
“A ADM está perfeitamente posicionada para levar os pós-bióticos ao mercado pet. Eles podem ser novidade no espaço pet, mas não são novos na área humana. Então, quando passamos a buscar soluções para microbioma e ingredientes de saúde e bem-estar para pets, começamos analisando muitos dos ingredientes usados no setor humano. E isso é fantástico, porque muitos deles contam com 30 anos de pesquisa científica, incluindo estudos pré-clínicos e clínicos em humanos”, afirmou Lindsay Sumners, diretora de criação, design e desenvolvimento (CD&D) da ADM.
As pesquisas mais recentes parecem focar no potencial dos bióticos além da conexão intestino-cérebro, o que empolga cientistas tanto da área humana quanto da veterinária.
“Nossa linha de pesquisa tem crescido constantemente à medida que descobrimos como os pós-bióticos beneficiam os pets em áreas como saúde intestinal, modulação do microbioma e imunidade, o que vem se traduzindo em resultados perceptíveis pelos tutores, como melhor saúde bucal, da pele e da pelagem, além de melhor desempenho digestivo”, disse Mark Franklin, líder global de vendas técnicas para pet na fornecedora de alimentos e ingredientes Cargill.
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Trata-se da evolução natural da inovação, conforme mais pesquisas consolidam a ligação entre intestino e cérebro e os cientistas passam a explorar outras possibilidades.
O reconhecimento do eixo intestino-cérebro abriu novos caminhos para melhorar a saúde dos animais além do suporte digestivo tradicional. Com base em estudos realizados tanto em humanos quanto em pets, sabemos que um microbioma intestinal saudável pode impactar profundamente outras áreas da saúde, como alergias de pele, metabolismo e até funções cognitivas.
“Valorizamos como as pesquisas dos últimos anos ajudaram a revelar insights sobre a conexão entre o microbioma intestinal e o comportamento dos cães, especialmente em relação ao estresse e à ansiedade. Isso nos levou a explorar o uso de probióticos e prebióticos multicepas em nossos suplementos, aumentando sua eficácia e ampliando seus benefícios”, afirmou Alysha Turton, gerente sênior de desenvolvimento de produtos na Vetnique, empresa que oferece suplementos e produtos de higiene para pets.
Regulamentação: o grande desafio para levar a ciência ao mercado
Os bióticos são uma tendência que só tende a crescer. Mas, se há algo que pode desacelerar a presença deles em formulações é a regulamentação. Os trâmites regulatórios ainda estão muito atrás do potencial científico quando se trata do uso de bióticos em produtos para pets.
“Para todos os tipos de bióticos, a tensão entre o que é cientificamente possível e o que é comercialmente permitido continua definindo boa parte do cenário da indústria. São necessárias mais validações clínicas e maior clareza regulatória antes que vejamos alegações de saúde mais amplas sendo aprovadas para uso em animais de companhia”, explicou Gandhi.
Essa defasagem abre espaço para confusões na comunicação e no marketing de produtos com bióticos.
“A indústria ainda enfrenta desafios de clareza em torno das alegações de saúde baseadas em bióticos”, disse Gandhi. A FDA (Food and Drug Administration), agência reguladora dos Estados Unidos equivalente à Anvisa, aprovou apenas certas alegações sobre benefícios à saúde digestiva para produtos com probióticos. Muitos prebióticos ainda carecem de comprovação de seletividade, e os pós-bióticos permanecem indefinidos do ponto de vista regulatório.
“As empresas precisam ter cautela tanto no desenvolvimento desses ingredientes quanto em sua comunicação. Muitas alegações ambiciosas, especialmente relacionadas à imunidade, pele ou comportamento, podem até ter algum respaldo científico, mas isso não significa que tenham sido aprovadas pelos órgãos reguladores”, complementou Gandhi.
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Os desafios não são exclusivos dos Estados Unidos. Uma publicação de dezembro de 2024 da Food Compliance International, intitulada “Ao redor do mundo: Uma revisão abrangente das regulamentações sobre alegações de probióticos”, aponta que:
De acordo com a revisão, os probióticos são categorizados em países como Estados Unidos, Europa, Japão, Tailândia, Malásia, Singapura e Indonésia, sendo que os últimos três países também os classificam como “suplementos de saúde”. Outros termos, como “alimento funcional”, “novo alimento” e “alimento funcional para a saúde”, são utilizados em diferentes regiões.
A regulação para as declarações validadas sobre os possíveis benefícios à saúde dos biósticos, como melhora da digestão, fortalecimento da imunidade ou redução do risco de doenças, variam internacionalmente: enquanto países como China, Filipinas e Singapura permitem declarações pré-aprovadas, Estados Unidos, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia e Índia exigem comprovação científica antes da aprovação. A Europa aplica regras mais rigorosas e não autoriza qualquer alegação de saúde relacionada a probióticos. No Japão, assim como na Austrália e Nova Zelândia, é permitido afirmar a “redução do risco de doenças”.
Diversos países encontram-se atualmente em transição, à medida que produtores globais pedem esclarecimentos e atualizações sobre definições e regulamentações de bióticos, tanto para alimentos humanos quanto para pet food.
O futuro da pesquisa em bióticos
Todos os pesquisadores que atuam no desenvolvimento de bióticos para pets estão atentos ao próximo passo da ciência: ir além da saúde intestinal.
“Algumas das pesquisas mais interessantes estão na área da modulação do microbioma e seus efeitos sobre outros sistemas do corpo, incluindo saúde bucal e da pele, tanto em cães quanto em gatos”, explicou Franklin.
À medida que o campo dos prebióticos, probióticos e pós-bióticos evolui, crescem também as pesquisas sobre como eles podem atuar em conjunto e em sinergia com outros ingredientes.
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“Ainda estamos investindo bastante em pesquisas sobre saúde bucal. Já identificamos nosso ingrediente vencedor a partir dos testes pré-clínicos, mas agora a equipe de P&D (produtos e desenvolvimento) está investigando se existem outros ingredientes que possam ter um efeito sinérgico com o pós-biótico”, afirmou Sumners.
Os pós-bióticos, em especial, vêm ganhando destaque nos laboratórios, à medida que cientistas buscam novos caminhos dentro do campo dos bióticos.
“Olhando para o futuro, algumas das pesquisas mais empolgantes estão ocorrendo na área dos pós-bióticos e seus impactos na saúde metabólica, na adoção de prebióticos e pós-bióticos derivados de leveduras e na compreensão crescente de como a modulação do microbioma pode influenciar o comportamento, o que pode levar ao desenvolvimento de suplementos calmantes baseados em bióticos para pets”, disse Turton.
A nutrição personalizada é outra vertente promissora. “Com o surgimento dos kits de testes de microbioma domiciliares podemos usar esses dados e insights para recomendar suplementações com bióticos adaptadas às necessidades individuais de cada animal”, completou Turton.


















