Microbioma de cães é fortalecido por maior ingestão de fibras alimentares, mostra estudo

A fibra alimentar interage de maneiras complexas com o microbioma dos cães, sugerindo novas possibilidades de pesquisa e potencial para o desenvolvimento de novos produtos.

Tw Headshot Cropped Headshot
Microbioma Cães Fibra
Imagem gerada por IA pelo autor

A fibra alimentar não apenas contribui para a saúde dos cães, mas também beneficia os microrganismos que vivem no intestino desses animais. Esse papel da fibra na alimentação canina foi identificado em um experimento, conduzido por pesquisadores de Harvard, para determinar como alimentos formulados com diferentes tipos de fibra afetam o microbiota intestinal dos cães (comunidade de bactérias e outros microrganismos presentes no intestino).

Segundo a pesquisa, publicada no periódico científico mSystems, da Sociedade Americana de Microbiologia, o consumo de fibra alimentar altera a composição do microbioma intestinal e, em maior grau, os metabólitos (substâncias do metabolismo) associados. “A produção de metabólitos relevantes para a saúde, como os ácidos graxos de cadeia curta, depende tanto do consumo de uma fibra específica quanto do enriquecimento de microorganismos benéficos, que produzem metabólitos em resposta a essa fibra”, afirmam os pesquisadores no artigo publicado.  

O que isso significa é que a ingestão de fibra alimentar promove a saúde intestinal dos cães ao estimular a atividade de microrganismos benéficos. No experimento, os cientistas exploraram como diferentes tipos e quantidades de fibra em 12 formulações de ração afetavam o microbioma e o metaboloma intestinal (conjunto de todos os metabólitos) de 18 cães adultos saudáveis. Os cães, uma mistura de beagles e outras raças, consumiram dietas que variaram entre 5% a 13% de fibras na composição durante sete dias.

Os alimentos foram agrupados de acordo com o teor de amido e fibra:

  1. Alto amido, baixa fibra (HSLF)
  2. Médio amido, média fibra (MSMF)
  3. Baixo amido, alta fibra (LSHF)

Amostras coletadas ao final de cada período foram analisadas para determinar o impacto da fibra alimentar na saúde intestinal.

Apesar de os cães envolvidos viverem em condições semelhantes e apresentarem menor variabilidade genética em comparação à população geral de cães de estimação, as respostas do microbioma à fibra variaram entre os indivíduos. Essa variação na composição microbiana influenciou a produção de metabólitos e, consequentemente, os efeitos da fibra alimentar sobre a saúde dos cães.

“Mesmo em uma população aparentemente homogênea, o benefício obtido com o consumo de fibra é personalizado e destaca interações específicas entre fibra, microrganismo e hospedeiro”, destacam os pesquisadores.

Benefícios da fibra para o microbioma canino e potencial para novos produtos

A pesquisa identificou enriquecimento significativo em 14 espécies microbianas em resposta a pelo menos uma fonte específica de fibra. O nível de ingestão de fibra também afetou a abundância de metabólitos como ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs), polifenóis e acilgliceróis, todos importantes para a saúde intestinal. 

Fibras insolúveis presentes nas dietas de alta fibra (LSHF) foram associadas a microrganismos benéficos como as espécies Bacteroides e Prevotella. Essas bactérias auxiliam na quebra de polissacarídeos vegetais complexos e produzem AGCCs como butirato e propionato, que são essenciais para a manutenção da saúde intestinal em cães.

Do ponto de vista da abordagem “Uma Só Saúde” (One Health) – uma perspectiva integrada que reconhece a conexão entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental – os resultados do estudo estão alinhados a pesquisas feitas em humanos. Os benefícios da fibra alimentar podem depender de interações específicas entre ela e microrganismos, independentemente da espécie. Isso sugere que cães podem servir como modelos de pesquisa para o microbioma humano — e vice-versa.

No entanto, cada cão possui uma comunidade microbiana intestinal única. Por mais que a pesquisa possa ser estendida entre espécies, generalizar dentro da mesma espécie pode não significar o mesmo resultado. As respostas individuais observadas no estudo indicam que uma abordagem padronizada para a ingestão de fibras ainda não é ideal para todos os cães. Para fabricantes de ração, isso representa uma oportunidade de desenvolver misturas nutricionais personalizadas que atendam ao microbioma específico de cada raça.

Os pesquisadores concluíram que a fibra alimentar interage de maneira complexa com o microbioma canino, abrindo caminhos tanto para novas pesquisas quanto para o desenvolvimento de novos produtos. A análise genética do microbioma dos cães pode permitir o desenvolvimento de formulações de fibra alimentar sob medida. No entanto, os pesquisadores destacam que mais estudos são necessários para entender como fatores ambientais, predisposições genéticas e a composição inicial do microbioma dos cães influenciam a forma como os microrganismos reagem às diferentes fibras na dieta. 

Página 1 de 8
Próxima Página