
Pesquisa identificou microorganismos causadores de doenças e superbactérias resistentes a antibióticos ativos em produtos alimentícios crus para gatos, especialmente aqueles vendidos à temperatura ambiente. A análise, publicada em setembro, testou 112 produtos vendidos nos Estados Unidos, comparando dietas totalmente cozidas (convencionais) com dietas cruas, incluindo congeladas e liofilizadas.
Com o objetivo de averiguar os riscos à saúde animal e humana, considerando a troca de microbiota entre tutores e seus pets, o estudo investigou a presença de microrganismos viáveis, ou seja, metabolicamente ou fisiologicamente ativas, dentro das dietas cruas. A análise também comparou produtos congelados crus com produtos liofilizados crus que, por serem vendidos à temperatura ambiente, podem ser percebidos como mais seguros.
De 85 produtos crus analisados, foram detectados 19 tipos de bactérias, incluindo exemplares dos gêneros Salmonella, Clostridium, Escherichia, Klebsiella, Enterobacter e Cronobacter, alguns dos principais agentes de infecções alimentares e infecções oportunistas em humanos e animais. Por outro lado, nenhuma cultura bacteriana foi isolada nos 27 produtos totalmente cozidos testados.
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Superbactérias em alimentos crus para gatos
Além dos patógenos, a pesquisa identificou a presença de microrganismos resistentes a antibióticos considerados de “última linha”, usados para o tratamento de infecções como último recurso, algo alertado pelos pesquisadores como um risco à saúde pública.
Foram isoladas cepas de Pseudomonas aeruginosa e Pseudomonas fulva, resistentes a carbapenêmicos, antibióticos usados em infecções humanas graves, além de seis cepas do gênero Bacillus portadoras do gene carbapenemase ($bla2$), responsável por esse tipo de resistência. Os pesquisadores também identificaram uma alta presença de bombas de efluxo multi fármaco, mecanismos que permitem às bactérias expulsar diferentes antibióticos de suas células, tornando-as ainda mais difíceis de eliminar.
Além disso, o estudo detectou genes de parasitas como o Sarcocystis sp, gênero de protozoários que parasitam bovinos, suínos e aves e podem causar infecções em humanos exclusivamente em alimentos crus. De acordo com o estudo, a identificação amplia o potencial risco zoonótico desses produtos, ou seja, o risco de transmissão de agentes infecciosos entre animais e humanos.
Fonte de contaminação: processamento e matéria-prima de baixa qualidade
Os pesquisadores identificaram que a presença de microrganismos viáveis em rações cruas para gatos decorre, principalmente, da ausência de tratamento térmico eficaz e da origem da matéria-prima utilizada. Em outras palavras, tanto a qualidade e procedência dos ingredientes quanto o processo de fabricação têm papel direto na contaminação microbiana observada.
Uma das causas apontadas é a presença natural de patógenos nos animais de origem, já que micróbios como Salmonella e Clostridium podem estar presentes na carne crua desde a fonte. Além disso, o estudo destaca o risco de contaminação cruzada durante o processamento, quando equipamentos, superfícies ou manipuladores entram em contato com diferentes lotes de matéria-prima, favorecendo a disseminação de microrganismos patogênicos.
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Outro ponto crítico é o uso de matéria-prima de risco. A detecção de DNA do parasita Sarcocystis sp. sugere que parte das carcaças de animais utilizadas na produção dessas rações pode ter sido rebaixada para uso em alimentação animal por apresentar lesões associadas observadas durante a inspeção de carne, o que indica qualidade sanitária inferior.
O estudo também ressalta que nenhum dos produtos liofilizados analisados havia sido totalmente cozido antes do processo de secagem. A liofilização (freeze-drying), embora prolongue a validade e permita o armazenamento em temperatura ambiente, não elimina os patógenos, apenas retarda seu crescimento e preserva sua viabilidade. Essa característica faz com que produtos aparentemente seguros e práticos mantenham microrganismos potencialmente infecciosos, reforçando a necessidade de cautela no manuseio e na oferta dessas dietas cruas.
Metodologia de pesquisa
Entre 2021 e 2023, foram adquiridos 112 produtos comerciais de alimento para gatos em três grandes varejistas online, três redes de supermercados em Nova York (EUA) e diretamente nos sites de fabricantes identificados em buscas na web pelo termo “alimento cru para gatos”. Os pesquisadores utilizaram técnicas de cultivo e sequenciamento genético de alta capacidade para analisar as amostras.
Os produtos representaram 31 fabricantes diferentes, cujas identidades foram intencionalmente mantidas em sigilo para assegurar a imparcialidade do estudo. Produtos do mesmo fabricante incluíram diferentes formulações, priorizando a diversidade de fontes de proteína animal e variações de textura.
Com base nos rótulos das embalagens e nas informações disponíveis nos sites dos fabricantes, os pesquisadores classificaram os alimentos em duas categorias principais:
- Crus (não totalmente cozidos), que incluiu produtos rotulados como “parcialmente” ou “levemente cozidos” e rações secas estáveis em prateleira, mas que continham coberturas cruas liofilizadas.
- Convencionais (totalmente cozidos).
As texturas foram classificadas como enlatadas, cru liofilizado, cru congelado, ração seca (kibble) ou fresco refrigerado. Quando havia dúvidas quanto ao tipo de processamento, os pesquisadores entraram em contato anonimamente com os fabricantes para confirmar a classificação.
Este estudo, "Análise da microbiota de dietas felinas cruas comerciais para priorizar investigações de segurança alimentar", foi financiado pelo Prêmio de Nutrição Natural do Centro de Saúde Felina da Cornell, e está publicado na revista Communications Biology, do portfólio da Nature.


















