
A principal lição deixada pela pandemia de covid-19 é a resiliência. A capacidade de continuar em frente apesar das adversidades permeou a sociedade para além dos negócios. Para o mercado de pet, o atributo está servindo de inspiração para modelos de negócios e de marketing para marcas de pet food e outras categorias em 2026.
“As marcas podem ajudar os consumidores a sentir que são capazes de perseverar”, afirmaram Joel Gregoire, diretor associado de alimentos e bebidas da Mintel Canadá, agência global de Inteligência de Mercado e Pesquisa, e Melanie Zanona Bartelme, diretora associada marca, durante um webinar realizado em novembro sobre previsões globais de alimentos e bebidas para os Estados Unidos e Canadá em 2026.
No evento, eles apresentaram dados que ilustram quais as principais preocupações dos consumidores norte-americanos. A alta de preços, impulsionada pela inflação e tarifas, foi destaque, acompanhada da apreensão pela situação econômica geral, possíveis alterações nos gastos ou nas políticas governamentais, questões internacionais e as mudanças climáticas. A porcentagem de consumidores que concordaram com essas aflições variaram de 40% a 66%, quadro que Gregoire e Zanona Bartelme chamam de “policrise”.
Os dados e análises reforçam conclusões de outras empresas de pesquisa de mercado. Em seu próprio webinar, a Innova Market Insights comparou o sentimento atual do consumidor ao de 2008, outro período de incerteza econômica, estresse e ansiedade. Por isso, o tema geral da lista de “Top 10 tendências em alimentos e bebidas para 2026” foi: projetar para como as pessoas se sentem. A lista aborda aborda a necessidade de produtos que “ofereçam valor e acessibilidade em tempos em que as pressões econômicas são palpáveis”.
Preços crescentes de pet food desafiam tutores
Essa necessidade também se estende ao pet food e ao mercado pet como um todo. “As incertezas econômicas são um obstáculo cada vez mais para a indústria pet”, afirmou Sahiba Puri, gerente global de insights em pet care da Euromonitor International. “Apesar da resiliência relativa demonstrada pelo setor no passado, a paciência do consumidor está se esgotando, já que a continuidade da pressão dos preços está apertando o orçamento dos lares.”
Puri também apresentou dados durante o Petfood Forum Asia 2025, realizado em Bangkok em 29 de outubro, mostrando que o crescimento das vendas na categoria premium está desacelerando, inclusive em mercados em rápido desenvolvimento como o da Ásia-Pacífico. Na região, os dados revelam uma tendência: a maioria dos tutores prefere comprar menos itens, mas de qualidade superior, em comparação com os não tutores. "A premiumização implica no custo de ser preciso movimentar um volume menor de produtos, mas com preços mais elevados", esclareceu. Além disso, ela afirma que essa disposição também é observada em outros mercados globalmente.
Ainda no início de 2025, uma pesquisa da Packaged Facts com tutores de cães e gatos nos Estados Unidos mostrou que 68% estão um pouco ou muito preocupados com a alta dos preços de pet food. O levantamento também aponta que 42% afirmaram ter enfrentado dificuldades com o custo elevado dos produtos nos 12 meses anteriores e entre 14% e 30% disseram ter trocado os produtos que compravam devido aos preços altos ou à inflação. Não surpreendentemente, o percentual varia conforme a renda: tutores de maior renda estão no limite inferior dessa faixa, enquanto os de menor renda estão no topo.
O fator nostalgia: há espaço no pet food?
Além da busca por valor e por produtos mais acessíveis, consumidores também recorrem à nostalgia. Ao menos em alimentos e bebidas humanas, esses tempos mais ansiosos têm feito com que os consumidores busquem o conhecido. “Sempre que passamos por um período difícil, buscamos a nostalgia”, comentou Zanona Bartelme no webinar da Mintel.
A empresa chama esse movimento de “rejuvenescimento retrô”, enquanto a Innova usa o termo “construindo tradição” para descrever o mesmo fenômeno. Na visão da Innova, “a herança culinária impulsiona escolhas ao oferecer conforto, identidade e autenticidade em tempos incertos".
Em ambos os casos, trata-se de consumidores atentos às tradições, buscando referências do passado, mas também interessados em atualizar essas tradições com tecnologias modernas ou outras inovações. As duas empresas destacaram, de forma especial (e curiosa), a adesão de consumidores millennials a esse comportamento. Segundo dados da Mintel, 77% dos consumidores estadunidenses de 25 a 34 anos afirmaram gostar de produtos que remetem ao passado; no Canadá, o percentual é de 70%. Entre o grupo seguinte, de 35 a 44 anos, 71% dos consumidores dos Estados Unidos e 67% dos canadenses concordaram.
“Millennials equilibram nostalgia e novidade, adotando sabores globais, releituras modernas de clássicos e perfis ousados que ainda parecem familiares”, disse a Innova.
Essa tendência pode ter relevância para o pet food? Talvez. Pode-se argumentar que ela foi antecedida pelo movimento de marketing, anos atrás, das “dietas ancestrais”, supostamente mais próximas do que cães e gatos consumiriam na natureza (se fossem lobos ou felinos selvagens, o que não são).
Hoje, o interesse crescente por pet foods menos processados do que o tradicional kibble (ração seca) ou os alimentos úmidos pode ser, em alguma medida, análogo ao movimento dos consumidores em direção ao passado no que diz respeito à própria alimentação. Ainda assim, dificilmente alguém defenderia que os pets deveriam voltar a ser alimentados com restos de comida — ou que continuassem sendo alimentados dessa forma onde isso ainda ocorre.
Mesmo assim, considerando que os pets são parte da família e simbolizam o conforto do lar, faz sentido que algumas marcas de pet food e petiscos explorem o fator nostalgia. Tudo enquanto reavaliam suas estratégias de preços e de premiumização.


















