
Cada vez mais vemos tutores se declararem como "mães e pais de pet”. O que pode ter começado como uma brincadeira para se referir às pessoas que tratam seus companheiros peludos com o mesmo mimo que tratariam uma criança, hoje já é um conceito estabelecido.
Além de chamar o cachorro de “filho” dentro de casa, os veterinários, pet shops e marcas também já se acostumaram a tratar os tutores como pais. Quem nunca ouviu um “daqui uma hora ele está pronto, mãe” depois de deixar o bichinho para o banho?
Longe de querer afirmar que ter um animal de estimação seja o mesmo que ter um filho humano. Lidar com os prazeres e frustrações de um cão e de uma criança exigem comportamentos distintos e são relações muito diferentes. Mas dizer que “mãe de pet” não existe seria ignorar um fenômeno mundial.
Um estudo global da Mars Petcare de 2024 identificou que, assim como o número de pets nas famílias está aumentando, também cresce a percepção entre os tutores de que os animais de estimação estão entre as coisas mais importantes em suas vidas. Na pesquisa, que entrevistou mais de 20 mil tutores de cães e gatos, mais de um terço (37%) pensam assim.
No Brasil, os filhos de quatro patas já são realidade. Um estudo de 2024 da HSR Specialist Researchers, grupo de pesquisa independente, apontou que 62% das pessoas que têm bichos se consideram ‘mães ou pais de pet’. E não só se percebem como pais, como gastam de acordo, investindo valores 96% mais altos do que os ‘tutores’.
O que é ser mãe de pet?
O que faz uma tutora de um cão ou gato se compreender mãe? Para a psicóloga Sophia Porto Kalaf, é possível falar de um maternar dentro das relações humano-pet. Em sua tese de mestrado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), intitulada “O filho que late: uma compreensão do fenômeno ‘mãe de pet’ na contemporaneidade”, ela afirma que o adotar de um animal de estimação também pode ser visto como uma forma de maternidade pois envolve cuidado, zelo e afeto que se assemelham aos dados para uma criança.
Mães de pet entendem as demandas e necessidades especiais dos filhos caninos como parte natural da convivência familiar.Catilin Pop - Unsplash
“Não se trata de um cuidar mecanizado, automatizado, ou de mais uma tarefa a ser cumprida em uma dinâmica acelerada de vida. Implica lançar-se na responsabilidade do cuidado com um outro que faz parte de si. Maternar transcende condições biologizantes e se estende ao assumir o outro, tomar como próprio, e, neste sentido, adotar”.
O estudo da Mars traz dados que corroboram a avaliação da psicóloga. Perguntados sobre o que mais apreciam na relação com os seus pets, os tutores de cães apontam para completude familiar (49%) e amor incondicional (50%), enquanto os tutores de gatos apreciam mais o alívio do estresse (44%) e entretenimento (48%).
Já a pesquisa da HSR reforça que essa relação familiar com o pet começa com o nome: a maioria já recebe um nome típico de humano. Desbancando as alcunhas divertidas e carinhosas, como Pipoca e Bolinha, o estudo identificou que 52% dos pets são chamados de nomes usualmente usados por pessoas..
Mães de pet gastam mais com seus filhos do que tutores com seus animais
Entender a profundidade dessa nova forma de se relacionar entre tutores e pets é essencial para a indústria pet. Cada vez mais parte da família, as necessidades dos animais de estimação passam a ser consideradas nos orçamentos familiares com maior facilidade.
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Em sua tese, Kalaf acompanhou sete tutoras que se identificaram como “mães de pet” a fim de avaliar como essa visão influenciava a rotina doméstica e como elas se adaptavam às necessidades dos seus filhos peludos. Segundo o trabalho, as adaptações no lar não parecem ser um sacrifício para as tutoras. Ao contrário, surgem como demandas que fazem parte do processo de convivência familiar.
“Aqui em casa mesmo, quando fomos colocar o piso, a gente escolheu um piso que não escorrega pensando neles. Não tenho mesa de centro também, por exemplo. Então, você abre mão de algumas coisas para poder dar conforto e felicidade para seu cachorro. E acho que mãe faz isso”, relatou uma das tutoras que participou do estudo.
Na pesquisa da HSR, a ligação emocional com os pets foi apontada como o motivo que leva os consumidores a investirem mais em itens de alta qualidade, alimentação premium, e serviços de saúde e bem-estar. Quem se considera ‘pai de pet’ gasta, em média, R$1.132 por mês com eles – quase o dobro na comparação com os que se dizem apenas ‘tutores’.
A inserção dos animais de estimação na vida das mães e pais de pet faz parte da constituição familiar e a indústria faz bem em entender e pensar em produtos que atendam às necessidades dessas famílias.














