
Veterinários entrevistadas recomendam que tutores consultem profissionais antes de dar suplementos aos pets, pois a escolha deve ser personalizada conforme idade, saúde e medicamentos do animal, considerando que nem todos os produtos no mercado têm qualidade garantida e alguns podem causar danos ou atrasar diagnósticos importantes.
- Tutores obtêm informações sobre suplementos em redes sociais, internet, amigos e pet shops, mas muitas vezes desconhecem ingredientes específicos e dosagens corretas
- Um estudo com mais de 40 mil cães mostrou que 52% utilizavam pelo menos um suplemento, principalmente ômega-3 e produtos para articulações
- Análise de suplementos de cânhamo revelou que apenas 10 de 27 produtos continham a quantidade de ingredientes declarada no rótulo, e quatro apresentaram metais pesados
- Veterinários avaliam transparência do fabricante, testes independentes, certificações NASC e evidências científicas antes de recomendar um suplemento
- Suplementos podem ser contraindicados para animais com doenças preexistentes ou que usam medicamentos específicos, e podem atrasar diagnósticos importantes
Os veterinários continuam sendo fundamentais para clinicar no dia a dia com os animais, mas também atuam cada vez mais em um ecossistema de informações amplo, que inclui recursos on-line, redes sociais, varejistas, treinadores, tosadores, plataformas de telemedicina veterinária e o próprio monitoramento realizado pelos tutores.
De acordo com o relatório de 2026 da Packaged Facts, Saúde e bem-estar dos pets: tendências e oportunidades no mercado de animais de estimação dos Estados Unidos, os tutores mais jovens estão especialmente abertos a fontes de informação não tradicionais. No entanto, essa mudança mais ampla não significa simplesmente um afastamento dos veterinários. Ela reflete a demanda por maior conveniência, acessibilidade, explicações e liberdade de escolha na prestação de cuidados.
“A oportunidade para os veterinários é continuar sendo o centro de confiança dos cuidados, comunicando-se por diferentes canais e ajudando os tutores a distinguir os cuidados adequados em casa das situações que exigem tratamento profissional”, afirma o relatório.
Esse papel de orientação também se estende à escolha de suplementos. A Pet Supplements Pro perguntou a quatro médicos-veterinários como surgem as conversas sobre suplementação com os clientes, quais informações os tutores apresentam e o que os profissionais avaliam antes de recomendar um produto ou uma marca.
Como as conversas sobre suplementos começam no consultório?
Pergunta: Como as conversas sobre suplementos costumam surgir em sua prática? Os tutores geralmente levantam o assunto ou você o introduz durante as consultas de rotina? Esse equilíbrio mudou nos últimos anos?
Dra. Ashley Burgos, veterinária e cofundadora da Futureproof Pet: Hoje em dia, os tutores estão constantemente recebendo informações sobre os suplementos disponíveis no mercado e, muitas vezes, ficam sobrecarregados com a quantidade de opções. Geralmente, eles apresentam suas dúvidas durante consultas de rotina e de prevenção. Nos últimos anos, houve uma mudança: deixei de ser principalmente eu, como veterinária, quem introduzia os suplementos como uma possibilidade para o bem-estar, e os próprios tutores passaram a iniciar essas conversas.
De modo geral, os tutores são expostos a informações sobre suplementos para pets por meio das redes sociais, da internet e de outros canais de marketing. Como trabalho em Los Angeles, um grande centro de tendências de bem-estar, muitos dos meus clientes são receptivos ao uso de suplementos e querem ampliar o período de vida saudável de seus animais.
Historicamente, eu apresentava suplementos com respaldo científico, como a glucosamina, durante as consultas de rotina ou quando identificava alguma questão no exame clínico. Continuo fazendo isso quando o animal pode se beneficiar da inclusão do produto em sua rotina, e os tutores geralmente estão abertos à conversa — muitas vezes, até a recebem com entusiasmo. Antes, havia menos interesse, mas ele aumentou nos últimos anos.
Dra. Sarah Missaoui, consultora veterinária da Raw & Well, empresa sediada no Reino Unido: Hoje, a proporção é de aproximadamente 50% para cada lado. Há cinco anos, provavelmente eram os tutores que levantavam o assunto em 70% das vezes. O que mudou fui eu. Percebi que, se não perguntar, não fico sabendo.
Por isso, pergunto em todas as consultas de rotina e em todas as reavaliações de casos crônicos: “Ele toma alguma coisa? Pós, óleos, comprimidos, qualquer coisa comprada em lojas ou pela internet?”. A palavra “qualquer coisa” faz diferença. Os tutores que dão ao animal um petisco mastigável comprado no supermercado não o consideram um suplemento.
Mas muitas vezes é. Um estudo do projeto Dog Aging Project, que analisou mais de 40 mil cães, constatou que 52% utilizavam pelo menos um suplemento, principalmente ômega-3 e produtos para articulações.
Um cão da raça cockapoo que eu atendia tinha problemas persistentes nas glândulas anais e recebia um sachê de psyllium havia oito meses, além de seguir uma dieta veterinária com baixo teor de fibras. As duas coisas atuavam em sentidos opostos. Só descobri porque perguntei.
Dra. Iryna Smyrnova, veterinária da Meowoff: As conversas sobre suplementos surgem principalmente quando os clientes perguntam sobre uma preocupação específica, como saúde das articulações, pele e pelagem, saúde digestiva, ansiedade ou bem-estar geral. Também introduzo o assunto quando considero que um suplemento pode ser adequado para determinado paciente. Tenho percebido que os tutores iniciam cada vez mais essas conversas, provavelmente porque os suplementos são amplamente divulgados na internet e em pet shops.
Dra. Liza Cahn, médica-veterinária da Embrace Pet Insurance: É muito comum que os tutores tenham dúvidas sobre suplementos específicos que possam beneficiar seus animais, talvez porque tenham ouvido falar deles por meio de um amigo ou os tenham visto nas redes sociais. Em geral, não costumo discutir suplementos durante uma consulta de rotina, pois eles normalmente não são necessários nem recomendados para animais saudáveis.
Os suplementos têm, sim, seu lugar na medicina veterinária, mas geralmente são utilizados para atender a necessidades específicas de um animal, como auxiliar na manutenção da saúde da pele ou das articulações, sempre como parte de um plano de cuidados mais amplo. O importante é escolher o suplemento de acordo com as necessidades daquele animal, em vez de administrá-lo rotineiramente sem uma finalidade clara.
Que informações os tutores trazem sobre suplementos e onde as encontram?
Pergunta: Que informações os tutores apresentam quando perguntam sobre suplementos e onde estão buscando essas informações? Como você os ajuda a separar o que leram na internet, ouviram de amigos ou viram nas prateleiras das lojas?
Dra. Burgos: Hoje, os tutores obtêm informações por diversos canais, alguns úteis e outros nem tanto. Já ouvi relatos de orientações encontradas em publicações nas redes sociais, artigos, experiências de amigos, recomendações enfáticas de criadores, funcionários de pet shops e, cada vez mais, respostas de plataformas de inteligência artificial.
Todas essas perguntas partem de uma boa intenção. A maioria dos tutores ama seus animais e realmente quer ajudá-los. É nesse contexto que um veterinário confiável e bem informado se torna fundamental.
Meu método para compreender os objetivos dos tutores é manter uma postura investigativa e ajudá-los a esclarecer o que pretendem alcançar. Procuro estabelecer expectativas realistas em relação aos suplementos, especialmente quando esses produtos são introduzidos em pacientes que já apresentam problemas de saúde.
Existem diferenças claras entre suplementos e medicamentos, e cada um tem sua função no apoio ao bem-estar e à manutenção da saúde dos animais ao longo da vida.
Como tutora, veterinária e mãe, minha orientação combina as perspectivas de cientista e mãe. Meu objetivo é ajudar os tutores a encontrar a rotina que mais beneficie seus animais, levando em consideração também os desejos e as expectativas de quem cuida deles.
Dra. Missaoui: Os tutores conhecem os nomes dos produtos, mas não os ingredientes. Sabem a marca, mas não o que existe na fórmula. Repetem alegações de marketing — “é um suplemento calmante” —, mas não dizem que o produto contém L-teanina e camomila.
Vejo fotos da parte frontal das embalagens, mas não dos rótulos com a composição; capturas de tela da Amazon com selos de “recomendado por veterinários”; recomendações de grupos de raças no Facebook; e informações de sites americanos que fariam alegações ilegais no Reino Unido.
É nos grupos dedicados a determinadas raças que vejo consequências prejudiciais. Atendi um cão com dermatite atópica que passou um ano sendo tratado com óleo de coco antes de alguém realizar uma investigação clínica adequada.
Os tutores nunca trazem informações sobre a dosagem e evidências: quanto estão administrando por quilo de peso corporal ou se o produto já foi testado em cães. A culpa não é deles. É difícil obter essas informações. Por isso, peço que mostrem o rótulo e o analisamos juntos.
Dra. Smyrnova: Os clientes frequentemente chegam com nomes de produtos, capturas de tela, recomendações das redes sociais, avaliações on-line ou conselhos de amigos, criadores, tosadores e funcionários de pet shops. Às vezes, já compraram o produto antes mesmo de conversarmos sobre ele.
Procuro abordar essas situações sem julgamentos, ajudando os tutores a distinguir alegações respaldadas por evidências científicas de mensagens de marketing.
Dra. Cahn: As redes sociais e a inteligência artificial parecem ser fontes frequentes de informações veterinárias, mas, infelizmente, nem sempre são precisas. O veterinário é a melhor fonte para discutir as recomendações de suplementos para o seu animal e entender os motivos por trás delas.
Também é útil indicar recursos on-line confiáveis. Recomendo buscar informações vinculadas a faculdades de medicina veterinária, organizações veterinárias reconhecidas e sites cujo conteúdo seja escrito ou revisado por médicos-veterinários.
Bons exemplos incluem Veterinary Partner, Merck Veterinary Manual, Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Cornell, VCA Animal Hospitals, Associação Americana de Medicina Veterinária e Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais. Especificamente sobre suplementos, o Conselho Nacional de Suplementos para Animais (NASC, na sigla em inglês) é uma excelente fonte de informação.
O que os veterinários avaliam antes de recomendar um suplemento?
Pergunta: O que você procura antes de recomendar determinado suplemento ou marca? Qual é o peso de indicadores de qualidade, como selos de certificação independente, padrões de fabricação e transparência das empresas sobre ingredientes e origem das matérias-primas?
Dra. Burgos: Antes de tudo, a empresa fabricante precisa ser transparente. Por exemplo: ela consegue comprovar que o conteúdo da embalagem corresponde ao que está declarado no rótulo? O produto passa por testes independentes? Onde é fabricado? Que tipo de embalagem é utilizado para armazená-lo? Todas essas respostas podem determinar a qualidade do produto que você oferece diariamente ao seu animal.
Os indicadores de qualidade também têm grande peso. A empresa tomou a iniciativa de buscar selos que comprovem o cumprimento de normas de fabricação e padrões de formulação? Monitora as alegações feitas sobre seus produtos? Como lida com resultados adversos?
Formulações respaldadas por evidências científicas também são importantes. Boa parte do nosso conhecimento é extrapolada de estudos com outras espécies, mas deve haver alguma evidência que justifique a inclusão de cada ingrediente na fórmula, e não apenas a tendência do momento.
Dra. Missaoui: No Reino Unido, nenhuma empresa é obrigada a comprovar que um suplemento funciona antes de colocá-lo à venda. Alguns fabricantes realizam testes de estabilidade. Outros simplesmente reembalam matérias-primas sem qualquer garantia de qualidade, e os tutores não conseguem distinguir essas situações.
Procuro transparência: quantidades de cada ingrediente por dose, testes por lote que a empresa esteja disposta a compartilhar e evidências científicas obtidas com a espécie que estou tratando.
Os rótulos podem apresentar informações muito imprecisas. Uma análise de 29 produtos de cânhamo para pets, liderada pela Universidade Cornell, constatou que apenas 10 dos 27 produtos avaliados estavam dentro de uma margem de 10% do teor de canabinoides declarado no rótulo. Além disso, quatro apresentaram metais pesados, principalmente chumbo.
Dra. Smyrnova: Dou prioridade a fabricantes que exibem de forma destacada o Selo de Qualidade NASC. Também procuro empresas que forneçam Certificados de Análise específicos para cada lote, invistam em estudos clínicos publicados em revistas científicas com revisão por pares e mantenham canais de atendimento veterinário acessíveis, com profissionais especializados em toxicologia.
Dra. Cahn: Ao escolher um suplemento, é importante considerar três aspectos principais.
1. Existem pesquisas que respaldam o suplemento?
Alguns suplementos foram mais estudados do que outros, e as recomendações veterinárias podem mudar ao longo do tempo. Por exemplo, os ácidos graxos ômega-3 contam com um conjunto de evidências científicas mais robusto para auxiliar na saúde das articulações dos cães do que muitos outros suplementos articulares utilizados com frequência, como a glucosamina e a condroitina.
2. O suplemento tem qualidade?
Os suplementos não são regulamentados da mesma maneira que os medicamentos, e os tutores não devem presumir que todos os produtos disponíveis no mercado sejam adequados para seus animais.
Ao escolher um suplemento para pets, recomendo procurar o Selo de Qualidade NASC, que indica que o fabricante atende a padrões específicos de controle de qualidade, rotulagem, notificação de eventos adversos e testes de produtos.
No entanto, é importante que os tutores compreendam que esse selo é um indicador de qualidade, e não uma comprovação de que determinado suplemento funciona.
3. Esse suplemento é recomendado para o meu animal?
Se o animal é saudável e consome uma alimentação completa e balanceada, adequada à sua fase da vida, provavelmente já recebe as vitaminas, os nutrientes e os minerais de que precisa, nas quantidades apropriadas.
Mais nem sempre significa melhor. A inclusão de determinados suplementos pode desequilibrar a alimentação do animal. Além disso, alguns produtos podem ser contraindicados para pets com determinadas doenças preexistentes ou que utilizam medicamentos específicos.
Por que os tutores devem consultar o veterinário antes de escolher produtos para o bem-estar dos pets?
Pergunta: Por que é importante envolver o médico-veterinário na escolha de produtos voltados ao bem-estar dos animais? Como essa conversa pode ajudar a estabelecer expectativas realistas sobre os benefícios que um suplemento pode oferecer?
Dra. Burgos: Na minha experiência, não existe uma solução única para todos os animais. Não devemos administrar suplementos simplesmente “para o nosso cão”. Os suplementos precisam ser escolhidos para “este cão em particular”, considerando idade, doenças concomitantes, histórico de saúde, raça, medicamentos utilizados e alimentação.
Contar com a orientação de um médico-veterinário bem informado pode fazer a diferença entre tomar uma boa decisão e cometer um erro capaz de complicar a saúde do animal.
Ter essa conversa no momento certo é fundamental. Grande parte dos suplementos disponíveis no mercado foi desenvolvida para auxiliar na manutenção da saúde e do bem-estar normais. Esses produtos têm limitações quando se trata de animais com problemas de saúde mais avançados.
Estabelecer expectativas razoáveis é essencial.
Dra. Missaoui: Somos os únicos integrantes dessa cadeia que não têm interesse financeiro direto na resposta. A marca, o varejista e o influenciador querem vender. Eu posso dizer: “Isso não vai ajudar, e este é o motivo”, sem perder nada com isso.
Isso é especialmente importante quando um suplemento atrasa um diagnóstico. Já vi um caso de massa no baço em que o animal passou quatro meses recebendo cogumelos vendidos como produtos de “suporte imunológico”.
As interações medicamentosas também importam. Os tutores não mencionam o CBD porque não o consideram um medicamento propriamente dito, mas ele interage com enzimas responsáveis pelo metabolismo de fármacos e pode alterar a forma como ajusto as doses dos medicamentos.
A regulamentação ajuda, mas não resolve todas as lacunas. No ano passado, a Diretoria de Medicamentos Veterinários do Reino Unido recebeu bem mais de 400 notificações relacionadas a alegações medicinais não autorizadas. Em janeiro de 2026, o órgão publicou orientações atualizadas sobre como outros produtos podem ser anunciados legalmente.
No entanto, há tanta coisa disponível na internet que as autoridades não conseguem fiscalizar todos os anúncios. Na prática, a primeira linha de defesa somos nós, veterinários.
Dra. Smyrnova: Incentivo os tutores a envolver o veterinário porque um suplemento adequado para determinado animal pode ser desnecessário, ineficaz ou potencialmente problemático para outro, especialmente quando há uma doença preexistente ou uso de medicamentos.
Dra. Cahn: É importante envolver o veterinário na decisão de acrescentar um suplemento por vários motivos. Nem todos os animais precisam de suplementação, e nem todos os produtos apresentam a mesma qualidade ou o mesmo nível de evidência científica. Embora possam parecer “naturais”, os suplementos também podem causar danos quando utilizados incorretamente.
Se um animal já consome uma alimentação completa e balanceada, adequada à sua fase da vida, acrescentar vitaminas ou minerais sem uma razão específica pode provocar desequilíbrios nutricionais em vez de melhorar a saúde.
Um exemplo é a administração de cálcio adicional a um filhote em crescimento, o que pode prejudicar o desenvolvimento ósseo normal.
O veterinário deve participar dessa decisão porque pode recomendar o que é mais adequado para aquele animal específico. Também pode orientar sobre marcas e dosagens, explicar o que esperar do suplemento e estabelecer o acompanhamento necessário.
Em muitos casos, os suplementos são apenas uma parte de um plano de cuidados mais amplo.


















