El Niño: microalgas oferecem alternativa sustentável de ômega-3 para pet food diante de eventos extremos de clima

Ácidos graxos da família ômega-3 derivados de microalgas podem ajudar fabricantes de alimentos a enfrentar desafios de sustentabilidade e de oferta de nutrientes associados ao óleo de peixe.

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Fisherman on Chilean vessel mending nets with snowy mountains and cat nearby

Microalgas oferecem uma alternativa sustentável e controlada de ômega-3 (EPA e DHA) para alimentos de pets, protegendo a indústria dos impactos do El Niño nas fontes tradicionais de óleo de peixe. Diferentemente dos peixes, as microalgas produzem naturalmente esses ácidos graxos essenciais e podem ser cultivadas de forma escalável, garantindo consistência na qualidade dos ingredientes sem sobrecarregar recursos marinhos.

  • O El Niño intenso pode enfraquecer a ressurgência de águas profundas, reduzindo a disponibilidade de anchoveta peruana e aumentando preços de óleo de peixe em 2026.
  • Microalgas são as produtoras originais de EPA e DHA na cadeia alimentar marinha; peixes apenas acumulam esses ácidos graxos.
  • O cultivo controlado de microalgas oferece rastreabilidade superior, lotes uniformes e consistência comparado ao óleo de peixe variável.
  • EPA e DHA beneficiam saúde da pele, pelagem, cardiovascular e desenvolvimento cognitivo em cães e gatos.
  • Microalgas funcionam como fonte adicional complementar ao óleo de peixe, permitindo nutrição melhor com preservação ambiental simultânea.

O atual El Niño, com potencial de ser um dos mais intensos já registrados, pode afetar as fontes convencionais de ácidos graxos ômega-3 provenientes do óleo de peixe. No entanto, os fabricantes de alimentos para animais de estimação têm outra opção: ir diretamente à origem desses ácidos graxos, as algas.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) informou que o El Niño está se fortalecendo. O aquecimento das águas do Pacífico leste associado ao fenômeno pode enfraquecer a ressurgência de águas profundas, frias e ricas em nutrientes. Isso faz com que espécies marinhas como a anchoveta peruana, importante matéria-prima para a produção de óleo de peixe, mudem sua distribuição ou se tornem mais difíceis de capturar. Como consequência, a oferta pode ficar ainda mais restrita, aumentando a pressão sobre os preços de ingredientes de origem marinha utilizados na alimentação de pets, incluindo os óleos empregados como fontes de ácidos graxos ômega-3. 

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o aumento do risco de El Niño já contribuí para um mercado mais restrito de farinha e óleo de peixe em 2026. No entanto, fornecedores de ingredientes para pet food estão se preparando para os efeitos desses eventos climáticos. 

Natália Moraes, da especialista técnica em nutrição animal para a DSM-Firmenich Latam, afirmou à Petfood Industry que a empresa é uma das que está direcionando esforços para alertar e preparar os consumidores para os possíveis impactos do El Niño sobre os fabricantes de alimentos para animais de estimação.

Um dos caminhos, segundo Moraes, está nas fontes originais dos ácidos graxos ômega-3 até para os peixes: microalgas. Além de oferecerem alternativa para os efeitos excepcionais do um El Niño, as microalgas também podem ser uma fonte sustentável para fabricantes que buscam opções ao óleo de peixe tradicional. Ela abordou o tema durante sua apresentação no Congresso da Indústria de Pet Food da América Latina (CIPAL 2026), realizado em Buenos Aires, na Argentina, em 23 de setembro.

Futuro da alimentação animal diante eventos extremos de clima

A especialista destacou o desafio de continuar fornecendo ácidos graxos de ômega-3, em especial o EPA e DHA, nos alimentos para pets, levando em consideração a disponibilidade futura dos recursos marinhos. “Hoje, o desafio é manter a nutrição cada vez mais equilibrada que já temos, com mais ingredientes funcionais, mas fazendo isso de maneira sustentável”, afirmou Moraes. 

Moraes identificou os ácidos EPA e DHA como nutrientes estratégicos para alimentos destinados a cães e gatos. Entre as aplicações para a saúde dos pets, ela destacou os benefícios para a pele e a pelagem e na saúde cardiovascular. Também associou o DHA ao desenvolvimento cognitivo, cerebral e visual, e o EPA aos processos inflamatórios e ao suporte à saúde das articulações.

Ao mesmo tempo, a crescente demanda por ácidos graxos ômega-3 representa um desafio para o abastecimento, afirmou Moraes. “Temos uma demanda que continua crescendo, mas uma oferta que é completamente limitada e estável”, disse. 

Moraes apontou diversos fatores que podem afetar a oferta de ingredientes de origem marinha, incluindo clima, regulamentações, disponibilidade de peixes e interrupções na atividade pesqueira. Essas variáveis podem expor empresas que dependem de recursos marinhos a oscilações na disponibilidade.

Para ela, os fabricantes precisam criar estratégias para continuar alimentando os pets com nutrição de qualidade, considerando em como será o amanhã e se haverá capacidade para manter essa qualidade e funcionalidade.  

A fonte original do ômega-3

As microalgas oferecem uma abordagem diferente porque são as produtoras originais de EPA e DHA na cadeia alimentar marinha, explicou Moraes. “A verdade é que os peixes não produzem EPA ou DHA. Eles apenas os acumulam. Quem produz são as microalgas”, explicou. 

Esses ácidos graxos têm origem nas microalgas e, posteriormente, são acumulados pelos peixes. A produção tradicional de óleo de peixe, portanto, depende dos peixes como fonte intermediária. Com os avanços em biotecnologia, há uma oportunidade de acessar a fonte primária diretamente, disse Moraes. “É possível pular os intermediários e acessar os nutrientes diretamente pelas microalgas, diminuindo a pressão à biodiversidade marinha.”

Moraes comparou o modelo tradicional, dependente da extração de recursos marinhos e sujeito a variações naturais, ao cultivo de microalgas, caracterizado como uma tecnologia controlada e escalável. Segundo ela, essa abordagem permite expandir a oferta à medida que a demanda cresce, sem sobrecarregar os recursos pesqueiros.

Para os fabricantes de pet food, essa diferença pode ter implicações que vão além da sustentabilidade. Segundo Moraes, a produção controlada pode proporcionar maior rastreabilidade, lotes mais uniformes e maior consistência na qualidade dos ingredientes.

Consistência pode beneficiar a produção de pet food

Moraes também abordou a palatabilidade do óleo de microalgas em comparação com o óleo de peixe. Ela enfatizou a consistência, em vez de afirmar que o produto apresenta palatabilidade superior. “O que podemos garantir é que a palatabilidade é estável”, afirmou. Mas ressaltou que isso não significa que a palatabilidade seja melhor do que a do óleo de peixe. “Sabemos que o óleo de peixe apresenta muita variabilidade”, completou. 

O óleo de peixe pode variar de acordo com fatores como origem e época do ano. Uma maior consistência do ingrediente fonte de ômega-3 poderia ajudar os fabricantes de pet food a reduzir a variação nos produtos acabados.

Por fim, Moraes disse que, por enquanto, as microalgas se destacam como uma fonte adicional de ômega-3, sem sugerir que o óleo de peixe deixará de ser utilizado nas formulações de alimentos para pets. O óleo de peixe continua amplamente utilizado, mas, segundo ela, já não é a única opção disponível aos fabricantes. “Com o óleo de microalgas, não precisamos mais escolher entre oferecer uma nutrição melhor ou preservar melhor [o meio ambiente]. Temos a possibilidade de fazer as duas coisas”, afirmou.

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