
É um clássico caso de causa e efeito: durante períodos de retração econômica ou instabilidade, os lançamentos de novidades tendem a diminuir à medida que empresas se tornam mais conservadoras em seus gastos e mais avessas ao risco.
Em 2020, por exemplo, enquanto a pandemia de covid-19 se espalhava pelo mundo, os lançamentos globais de produtos realmente novos de pet food (e não apenas novos sabores ou fórmulas dentro de linhas existentes) despencaram, segundo dados do Global New Product Database da Mintel. Desde então, os números pouco se recuperaram, com exceção de mercados emergentes de pet food, como a região Ásia-Pacífico.
Neste ano, novas questões geopolíticas contribuíram para o cenário de instabilidade. A nova política dos Estados Unidos, com tarifas agressivas impostas à muitos países, gerou turbulência econômica, levando empresas a reduzir investimentos em desenvolvimento de novos produtos, inclusive no segmento de pet food.
Os resultados de uma enquete publicada pelo PetfoodIndustry.com em novembro de 2025 mostraram claramente o quanto o atual cenário econômico está impactando a inovação em alimentos para pets. Apenas 35% dos respondentes relataram estar desenvolvendo e lançando produtos dentro do cronograma, enquanto 30% indicaram que não estão desenvolvendo novos produtos. Outros 17% disseram que continuam desenvolvendo produtos, mas enfrentam atrasos nos lançamentos, e 8% avançaram com a inovação, mas colocaram alguns produtos em espera. Além disso, 10% pausaram totalmente todas as atividades de desenvolvimento de novos produtos.
Os respondentes que afirmaram que suas empresas estão reduzindo ou adiando lançamentos de novos produtos apontaram a incerteza na demanda dos consumidores como o principal motivo (30%), seguida por restrições relacionadas a matérias-primas ou à cadeia de suprimentos (21%) e limitações orçamentárias internas (12%). Todos esses fatores refletem o atual cenário de instabilidade econômica.
Vá contra a maré: inovar para enfrentar a incerteza econômica
Mas não é preciso interpretar sinais sutis para entender o que está afetando o desenvolvimento de novos produtos nessas empresas. Isso porque 34% dos participantes afirmaram que o clima econômico atual adiou a maior parte das atividades de desenvolvimento, enquanto 31% disseram que a inovação desacelerou, embora projetos ainda estejam em andamento. Outros 9% relataram manter o ritmo planejado de inovação, e 6% disseram ter mudado o foco para extensões de linha, em vez de produtos realmente inéditos.
De forma interessante, 19% dos respondentes afirmaram que o atual cenário econômico acelerou o desenvolvimento de novos produtos. Talvez essas empresas sigam a teoria, defendida por alguns economistas, de que períodos de incerteza podem ser os mais propícios para investir em inovação.
Em fevereiro de 2025, por exemplo, especialistas do Budget Lab, da Universidade de Yale, recomendaram apostar em inovação e “renovação” para atender às necessidades emergentes dos consumidores diante de uma possível guerra comercial. “Embora as tarifas representem um desafio significativo, seus efeitos no mercado também podem abrir novas oportunidades para preencher lacunas. Faça um inventário do seu portfólio atual de produtos e acompanhe de perto a evolução dos fatores que impulsionam o comportamento do consumidor e das categorias”, afirmaram os especialistas em um relatório desenvolvido em parceria com a NielsenIQ.
Uma fonte talvez menos óbvia, a Qmarkets (empresa de software voltada à inovação), publicou em abril de 2025 um artigo intitulado “Why innovation is the key to business resilience in a recession” (“Por que a inovação é a chave para a resiliência dos negócios em uma recessão”, em tradução livre). Felizmente, a recessão não se concretizou — ao menos até agora —, mas naquele momento ela era amplamente temida e até projetada. O artigo recomendou cinco estratégias de inovação:
- Melhoria contínua: otimizar o que você já tem.
- Equilibrar austeridade com criatividade.
- Desbloquear ideias dos colaboradores e aumentar o moral das equipes.
- Intensificar o impacto: manter a inovação centrada no consumidor.
- Mapear as oportunidades certas, interna e externamente.
Deixe o consumidor guiar o caminho
Mais perto da realidade do mercado de pet food, a consultora Laura Moran, especialista com longa trajetória no setor, compartilhou temas e percepções obtidos a partir de interações com CEOs de empresas de pet food de diferentes portes ao longo de 2025, por meio de sua consultoria, a PetSpark. Um dos temas mais relevantes é que as pressões de custo e precificação estão moldando todos os tipos de decisões de negócio, incluindo “escolhas de formulação e decisões de portfólio”, escreveu Moran no LinkedIn. Ainda assim, a inovação está sendo desacelerada por “desalinhamento”, e não pela falta de novas ideias.
“As equipes não carecem de criatividade. Carecem de clareza”, afirmou. Roadmaps, prioridades e estruturas consistentes de tomada de decisão são mais importantes do que nunca para manter a inovação em movimento, ela diz. “Quando o alinhamento se perde, até conceitos excelentes acabam estagnados.”
Isso reforça que o pensamento e o design orientados pelo consumidor são mais cruciais do que nunca ao olhar para 2026: “inegociáveis”, nas palavras de Moran. Talvez as empresas que enxergam o atual cenário econômico como o momento ideal para impulsionar a inovação simplesmente tenham uma compreensão extremamente clara do que seus consumidores querem e precisam — e de como seus produtos de pet food podem atender a essas demandas.


















