Pet food brasileiro combina qualidade e preço de forma única na região

Triplethree International Market Research destaca que produtos do tipo standard brasileiros conseguem entregar qualidade elevada a preços acessíveis, característica única na América Latina

Professional presenting market research data on petfood industry to seated audience members in business setting
Iván Franco no Petfood Forum Brasil 2026
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Pet food brasileiro combina qualidade e preço de forma única na região

Durante o Petfood Forum Brasil 2026, Iván Franco, economista e fundador da Triplethree International Market Research, destacou que a estrutura de preços do pet food brasileiro é única na América Latina. De acordo com dados da consultoria especializada em pesquisa de mercado para o setor de alimentos para animais de estimação, enquanto o segmento econômico domina o mercado latino-americano, no Brasil é o standard que lidera, com 52% de participação. 

“É um comportamento oposto ao observado, por exemplo, no México, onde o econômico responde por 50% do mercado e o padrão, apenas 30%”, apontou Franco. A explicação, segundo ele, está diretamente ligada à independência estrutural do país. O acesso a grãos e à proteína própria elimina a necessidade de importação de insumos primários, permitindo que fabricantes brasileiros produzam alimentos de boa qualidade a preços acessíveis.

“O Brasil é o único da região que tem esse ratio de qualidade e nesse preço. Nem mesmo a Argentina, que também conta com grande produção de proteína animal, replica o cenário”, disse o fundador da Triplethree.

Brasil tem indústria pulverizada e majoritariamente nacional

Outro fator para o cenário, segundo Franco, é que, ao contrário de mercados vizinhos como Colômbia, Equador, Peru e México, onde três ou quatro empresas concentram a maior parte das vendas, o ambiente competitivo brasileiro é mais distribuído. Segundo o levantamento apresentado, 12 empresas somam cerca de 70% do consumo local, mas nenhuma delas detém mais de 13% de participação de mercado, “algo bastante saudável em termos competitivos”, avaliou. 

A grande maioria (85%) é formada por empresas domésticas, e apenas 16% são multinacionais, uma proporção que, segundo ele, também não se repete em nenhum outro mercado da região.

Para Franco, essa configuração dá à indústria brasileira uma autonomia de decisão e liderança própria. “A agenda do pet food no Brasil é feita pelo Brasil”, ressaltou. Empresas locais, por conhecerem o comprador e terem acesso direto a grãos e proteína de qualidade, têm mais flexibilidade para responder a tendências locais do que subsidiárias de multinacionais. 

Estas, por sua vez, tendem a replicar globalmente o mesmo portfólio, com menor capacidade de adaptação ao consumidor brasileiro. “Nem mesmo grandes players têm presença garantida em um ambiente tão competitivo”, avaliou Franco.

Salto para o premium é facilitado no Brasil

Com relação ao consumo de alimentos para pets, Franco descreveu o mercado brasileiro como dividido em dois grandes blocos. De um lado, o mass market, ligado a canais tradicionais como atacarejo e cash and carry, no qual o que importa são benefícios visíveis, preço acessível e atributos básicos de aceitação e digestão. De outro, o que ele chamou de premium avançado, que reúne nutrição funcional, conceitos importados, dietas veterinárias, alimentos crus, bioproteínas, grain free e alimento úmido.

A boa notícia, segundo ele, é que essa distância é menor no Brasil do que em outros mercados da região. Em países como Peru, Colômbia e México, o salto entre um produto econômico e uma marca premium é enorme. No Brasil, como mesmo os produtos de preço padrão tendem a ser produzidos localmente com boa qualidade de ingredientes, a migração do consumidor para o premium é um passo bem menos custoso.

O tutor brasileiro não lê rótulo atrás de ingredientes

Outra característica do mercado brasileiro, segundo Franco, é o descompasso entre a linguagem técnica da indústria e a forma como o tutor brasileiro efetivamente enxerga o produto. Enquanto a indústria fala em percentual de proteína, digestibilidade e composição, o consumidor usa outro vocabulário, mais ligado à rotina e ao vínculo com o animal. “O comprador fala de coisas mais simples. Se o cão aceitou o produto; se come bem; se gosta ou faz bem; se as fezes são firmes”, explicou Franco, destacando que esse hiato de linguagem é ainda mais evidente em um varejo tão fragmentado quanto o brasileiro, no qual cada canal cumpre um papel diferente para a categoria.

Além disso, Franco disse que o tutor brasileiro não lê rótulo pensando em composição técnica. “Ele avalia resultados observáveis no dia a dia do animal. Isso inclui expressões recorrentes nos painéis de consumidores conduzidos pela Triplethree, como a de que o cão ‘brinca’ mais ou menos”, disse Franco, que descreveu o termo como um indicador espontâneo de bem-estar usado pelos próprios tutores.

Ele estruturou essa lógica de compra como uma espécie de árvore de decisão. Primeiro vem a palatabilidade, se o animal aceita o alimento; depois, a saúde visível, como disposição e boa digestão; em seguida, a aparência da pelagem e da pele; e só depois o preço, que, segundo Franco, deixa de ser decisivo depois que as primeiras variáveis são atendidas. “Depois do terceiro atributo positivo, a pessoa começa a notar mudanças no seu animal e constrói confiança e lealdade em relação a uma marca”, afirmou, destacando que é essa confiança que sustenta a recompra ao longo do tempo, especialmente em um mercado tão competitivo quanto o brasileiro. 

Perfil das compras: cães e ração seca ainda dominam, mas o futuro é dos gatos

De acordo com dados apresentados na palestra, os números de consumo por espécie ainda favorecem amplamente os cães: cerca de 75% do volume consumido no Brasil é alimento canino, contra 25% de alimento felino. A proporção é explicada pelo consumo médio diário de cada espécie (até 200 g para cães, contra um potencial de 90 g para gatos) e por uma população canina que hoje passa de 60 milhões de animais, o dobro da população felina no país.

Ainda assim, “o cat food é o futuro e não só no Brasil, no mundo inteiro”, afirmou Franco. Segundo ele, o gato está se tornando o animal de estimação preferido em diversos mercados e sua população cresce mais rápido que a canina, o que abre espaço para inovação em fórmulas voltadas a gatos castrados, soluções culinárias e novos formatos. 

Na composição por formato, o alimento seco segue amplamente dominante, respondendo por cerca de 83% do volume. “É o que ainda paga as contas”, resumiu Franco, referindo-se à estrutura industrial brasileira, fortemente baseada em extrusoras. O alimento úmido representa cerca de 9% e os petiscos, 2%.

Para Franco, no entanto, é justamente nesses dois últimos segmentos que está a maior oportunidade de crescimento e inovação. Ele descreveu o segmento de petiscos como “o laboratório do pet food” por exigir menor investimento em produção e marketing do que uma linha industrial de ração seca, permitindo que os fabricantes testem ingredientes novos antes de eventualmente escalá-los para outras linhas. Já o alimento úmido, segundo ele, tem espaço para crescer em número de SKUs, embalagens e ocasiões de consumo, porém ainda distante da diversidade observada em mercados mais maduros.

A palestra de Iván Franco fez parte dos seminários Petfood Forum Brasil 2026, realizados no dia 13 de agosto simultaneamente à PET South America, em São Paulo. 

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