Estabilidade e incerteza coexistem no mercado pet atual

2025 se configura como um ano economicamente difícil e complica previsões sobre impacto no consumo de pet food.

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Estamos, talvez, no meio do ano economicamente mais incerto desde a pandemia, e a única constante parece ser a mudança.
Estamos, talvez, no meio do ano economicamente mais incerto desde a pandemia, e a única constante parece ser a mudança.
qimono | Pixabay.com

Repetidamente, o setor de alimentos para pets tem se mostrado resiliente diante de adversidades econômicas. Nos últimos cinco anos, o crescimento foi constante, pelo menos em termos de receita. Mas é aí que está a questão: entrando no sexto ano de turbulência econômica global, os bolsos dos tutores estão tão cansados quanto eles próprios. 

À medida que o consumo em geral se torna cada vez mais caro, cresce o temor de que o setor de alimentos para animais de estimação finalmente comece a sentir os impactos que até agora conseguiu evitar. Considerando o cenário até a metade de 2025, o que esperar para o restante do ano?

Adoção de pets continua crescendo, trazendo novos consumidores

Segundo um relatório da Nielsen IQ, “The full view of the pet industry: A comprehensive analysis of consumers and product trends”, publicado em março de 2025, o perfil demográfico dos lares com pets está mudando. Atualmente, o mundo conta com 1 bilhão de animais de estimação, com uma participação crescente de gatos: uma em cada quatro casas com pets agora inclui um felino. Isso não surpreende, já que os gatos superam os cães em países da Ásia e vêm ganhando espaço em outras regiões, à medida que o custo de vida aumenta e o espaço disponível diminui.

Nos Estados Unidos, maior mercado pet global, a indústria ainda demonstra resiliência, mesmo diante da incerteza econômica. “O que nos encoraja é que a própria posse de animais está se expandindo, com 94 milhões de lares nos Estados Unidos tendo pelo menos um pet, contra 82 milhões em 2023. Esses números reafirmam que o cuidado com os animais permanece uma prioridade para os americanos, refletindo o vínculo profundo e duradouro entre pessoas e seus pets, especialmente entre Millennials e a Geração Z, que tendem a ter mais de um animal em comparação com os Boomers e a Geração X”, afirmou Pete Scott, presidente e CEO da American Pet Products Association (APPA), durante a Global Pet Expo de março de 2025.

Veja também: 4 tendências moldam a indústria pet food

Vendas seguem em alta, mas é o suficiente para sustentabilidade em longo prazo?

A inflação já está consolidada no setor de pet food, com aumento de preços significativos nos últimos anos, assim como em praticamente todos os segmentos de bens de consumo embalados (CPG). Esses reajustes, aliados à já documentada disposição dos tutores em não cortar gastos com seus animais, significam que a receita continua crescendo independentemente do pessimismo econômico. Segundo a Decision Innovation Solutions, que elaborou o relatório “Pet Food Production and Ingredient Analysis” em março de 2025, as vendas no varejo de rações para cães e gatos nos Estados Unidos aumentaram 70,2% desde 2020, um número que outros segmentos de CPG só podem sonhar em alcançar. No entanto, o volume cresceu de forma muito mais lenta, evidenciando o contraste entre o ganho de curto prazo em receita e o crescimento real de longo prazo em quantidade de alimento comprado.

Ainda assim, nada é tão simples: existe uma complexidade adicional na medição do mercado por volume. A forma de produzir pet food e os ingredientes utilizados continuam a se diversificar e evoluir. Se “volume” é o peso total, hoje há mais ingredientes úmidos do que havia cinco anos atrás, um quilo de pet food atual não equivale exatamente a um quilo de cinco anos atrás. Em outras palavras, 1 xícara de pet food de hoje pode pesar mais do que 1 xícara de pet food de cinco anos atrás apenas pela composição de ingredientes. Esse tipo de fator dificulta a previsão sólida de crescimento em termos de volume, por isso a métrica de receita é tão pesquisada e publicada.

De qualquer forma, a receita vem superando o volume há algum tempo, e há muitas evidências de que os tutores continuarão pagando... até o momento em que não conseguirem mais.

O panorama geral: economia global desacelerada e fadiga do consumidor

Em 10 de junho de 2025, o Banco Mundial divulgou uma nota de imprensa bastante clara sobre as perspectivas para a segunda metade do ano: “Economia global terá pior desempenho desde 2008 fora de recessões”.

O título chamativo introduz que tensões comerciais intensificadas e incertezas políticas devem reduzir o crescimento global neste ano para o ritmo mais lento desde 2008, com exceção de períodos de recessão mundial. De acordo com o relatório Global Economic Prospects, “a turbulência resultou em cortes nas previsões de crescimento em quase 70% das economias de todas as regiões e faixas de renda. A projeção é de que o crescimento global desacelere para 2,3% em 2025, quase meio ponto percentual abaixo da taxa prevista no início do ano.”

Embora uma recessão global não seja esperada no momento, o relatório alerta que, se as previsões para os próximos dois anos se confirmarem, a média de crescimento global nos primeiros sete anos da década de 2020 será a mais baixa desde os anos 1960.

Mais uma vez tendo os Estados Unidos, o maior mercado pet do mundo, como parâmetro, o custo de vida aumentou para todos. Segundo os dados mais recentes do World Population Review, o gasto médio anual de um domicílio é de US$ 61.334 (R$ 326.170), sendo 34,9% com habitação e custos relacionados, e o restante distribuído entre transporte, saúde, alimentação e outros itens. 

Um estudo da MarketWatch Guides, realizado em 2025, analisou quanto os tutores de cães gastam ao longo da vida do animal nos Estados Unidos, incluindo alimentação, suprimentos, seguro pet e hospedagem. Para isso, o estudo considerou o Golden Retriever, a raça mais popular do país, como base. O custo médio de vida encontrado foi de US$ 28.801 (R$ 153.161), ultrapassando os US$ 30 mil (R$ 159,5 mil) em 13 estados. A maioria dos tutores de cães de grande porte gasta US$ 446 (R$ 2.371) por ano em média apenas com alimentação, sendo a ração o item mais significativo depois das despesas de hospedagem.

O futuro a curto prazo do pet food

Com tantos fatores em jogo, é difícil prever como será o cenário até o fim de 2025. Certamente o crescimento vai desacelerar, mas ainda não se sabe quanto. Os preços vão subir, mas também é incerto em que medida. É complicado elaborar um plano de negócios em meio a tantas incertezas, mas a indústria já passou por isso antes (e recentemente) e saiu relativamente ilesa. 

Embora esteja claro que os consumidores estão mais conservadores em seus gastos em geral, não é certo como isso se refletirá na histórica consistência dos gastos com pet food.

Enquanto isso, mais pets do que nunca precisam ser alimentados, um ponto positivo no qual a indústria pet pode se apoiar.

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