Estudo: temperatura de cozimento está ligada aos níveis de substâncias inflamatórias em alimentos para cães

Pesquisa com 41 alimentos comerciais para cães no Reino Unido revelou que produtos úmidos e enlatados apresentam maiores concentrações de AGEs, que podem causar inflamação e estresse oxidativo.

Processamento Temperatura Pet Food Químicos

Um estudo revisado por pares, que analisou 41 alimentos comerciais para cães no Reino Unido, concluiu que a temperatura de cozimento é o principal fator responsável pela formação de produtos finais de glicação avançada (AGEs) nos diferentes formatos de pet food. Os AGEs são formados quando açúcares (glicose, frutose) se ligam a proteínas, lipídios ou ácidos nucleicos sem a ação de enzimas, um processo acelerado por altos níveis de glicose no sangue (hiperglicemia).

O estudo, publicado em acesso aberto no Journal of Animal Physiology and Animal Nutrition, esclareceu que o processamento tem mais impacto nessa questão do que o preço ou a qualidade dos ingredientes. Os pesquisadores mediram cinco compostos-chave da reação de Maillard em produtos frescos, secos (kibble), úmidos enlatados e liofilizados, todos adquiridos no Reino Unido em 2024.

Resultados do estudo

Os alimentos úmidos e enlatados apresentaram os níveis mais elevados de AGEs entre todos os formatos analisados. O composto CEL (Nε-carboxietillisina), um AGE, foi registrado nesses produtos em níveis mais de quatro vezes superiores aos encontrados em alimentos frescos.

Quando analisadas com base no teor de proteína, as amostras úmidas também apresentaram níveis significativamente maiores do AGE CML (Nε-carboximetillisina) por grama de proteína em comparação aos alimentos frescos, indicando maior dano térmico às proteínas durante o processamento.

Os resultados se alinham às três fases da reação de Maillard, o processo químico entre aminoácidos e açúcares redutores responsável pelo sabor, aroma e coloração característicos de alimentos dourados.

Alimentos frescos, cozidos a aproximadamente 90 °C, permaneceram no estágio inicial da reação. Já os alimentos secos (kibble), geralmente processados entre 120 °C e 200 °C, apresentaram marcadores intermediários e avançados. Produtos úmidos e enlatados, que passam por esterilização em autoclave (retort), exibiram as maiores concentrações de AGEs em estágio avançado.

O estudo também identificou um bloqueio de lisina 53% maior no kibble em comparação com alimentos frescos. A lisina, um aminoácido essencial, pode se ligar quimicamente a açúcares nas fases iniciais da reação de Maillard, reduzindo sua biodisponibilidade.

Os alimentos secos apresentaram 4,9% de bloqueio de lisina, contra 3,2% nos alimentos frescos. A diferença, segundo os pesquisadores, é agravada pelo menor teor basal de lisina no kibble, cerca de 33 gramas por quilo a menos do que nos formatos frescos.

Nenhuma correlação foi encontrada entre o preço dos produtos e os níveis de compostos da reação de Maillard entre os 41 alimentos analisados, incluindo opções econômicas, premium e dietas veterinárias/prescritas.

A pesquisa também é o primeiro estudo científico publicado sobre alimentos comerciais para cães a reportar níveis de glioxal e metilglioxal, compostos que atuam como precursores dos AGEs.

A rotulagem deveria refletir as temperaturas de cozimento?

Ciara Clarke, veterinária interna da Butternut Box e coautora do estudo, afirmou que as práticas atuais de rotulagem não refletem as condições térmicas de processamento.

“Um rótulo de ração seca pode declarar 25% de proteína, mas este estudo mostra que quase 5% da lisina dessa proteína pode estar quimicamente bloqueada e indisponível para o cão, algo que depende tanto do processamento quanto dos ingredientes utilizados”, explicou Clarke.

Para pets com maiores necessidades proteicas, essa diferença é relevante. “A rotulagem atual informa o que entra no alimento, não o que o animal realmente consegue utilizar. O método de processamento é uma variável clínica e deve fazer parte da discussão”, acrescentou. 

A Butternut Box defende que fabricantes de pet food passem a informar nos rótulos a temperatura máxima de cozimento e incluam aspectos relacionados ao processamento junto à lista de ingredientes na comunicação dos produtos.

Página 1 de 8
Próxima Página