
A indústria pet pode estar se aproximando de um ponto de inflexão em inovação para cuidados orais. Duas sessões consecutivas no Petfood Forum 2026, realizado em abril, nos Estados Unidos, apresentaram evidências clínicas de abordagens distintas voltadas ao suporte da saúde bucal em cães. As inovações envolveram uma combinação de enzimas e probióticos e uma cepa específica de probiótico oral.
Saúde oral canina: a dimensão do problema
A má saúde dentária e gengival afeta 8 em cada 10 cães e 7 em cada 10 gatos com 3 anos ou mais, segundo o Dr. Abhijit Rathi, diretor de P&D em nutrição pet e humana da Specialty Enzymes & Probiotics. Rathi destacou que a condição pode evoluir para perda dentária e, em casos graves, complicações sistêmicas.
“Uma única bactéria, com o nutriente ideal, pode formar uma colônia que, ao crescer, forma uma rede chamada biofilme. Essa rede é composta por carboidratos e proteínas e é muito pegajosa, muito difícil de eliminar”, explica Rathi.
Em outra apresentação, Marie Parks, especialista em ciência de ingredientes da Stratum Nutrition, apresentou estatísticas semelhantes: entre 80% e 90% dos cães e gatos desenvolvem problemas dentários e gengivais até os 3 anos de idade, enquanto apenas 2% dos tutores escovam os dentes dos cães diariamente e mais de 50% nunca realizaram escovação dental nos pets.
Bactase Pet PB: formulação de enzimas e probióticos
Durante sua palestra, Rathi apresentou pesquisas sobre o Bactase Pet PB, uma formulação que combina enzimas e probióticos desenvolvida para atuar em múltiplos aspectos da saúde oral. Testes in vitro, em concentração de 0,63%, mostraram inibição de bactérias causadoras de cáries, e uma única aplicação resultou em redução de 36% na formação de biofilme.
A equipe então avançou para um estudo clínico randomizado, duplo-cego e com duração de 30 dias, conduzido em um ambiente veterinário real. “Diferentemente dos estudos comuns nesta indústria, realizados com animais em gaiolas, em ambientes laboratoriais controlados e com administração feita por clínicos, nós conduzimos o estudo com cães reais e tutores reais”, explicou, destacando que os próprios tutores administraram o produto.
Cães com altos índices de gengivite foram avaliados no primeiro e no trigésimo dia. Os resultados mostraram reduções significativas nos escores de placa bacteriana, gengivite e halitose. Segundo Rathi, um tutor relatou melhora perceptível do mau hálito já no sétimo dia.
Um segundo estudo clínico avaliou se o Bactase Pet PB poderia ajudar a manter os resultados de uma limpeza dentária profissional. Os cães passaram por limpeza profunda no primeiro dia e seguiram uma dieta comercial. No 13º dia, o grupo controle apresentou aumento significativo nos índices de gengivite, placa bacteriana e halitose. Já o grupo que recebeu Bactase Pet PB não apresentou acúmulo de gengivite nem de placa, além de registrar aumento insignificante do mau hálito até o 30º dia, sem deposição de cálculo dentário ou aumento da espessura da placa.
“Após a limpeza dentária profissional, o Bactase Pet PB não apenas se mostrou mais benéfico, como também ajudou a prolongar os efeitos da limpeza profissional”, afirmou Rathi.
Probiótico oral com efeito no microbioma
Já na palestra de Parks, a especialista apresentou o OraCMU, uma cepa patenteada de Weissella cibaria originalmente identificada por pesquisadores da China Medical University, na Coreia do Sul, onde foi isolada do microbioma oral de crianças saudáveis.
A cepa foi selecionada por sua capacidade de produzir peróxido de hidrogênio e por quatro mecanismos específicos de ação: quebra de biofilmes bacterianos, produção de compostos semelhantes a bacteriocinas que atuam seletivamente contra bactérias nocivas, redução direta da produção de compostos sulfurados voláteis (VSCs - principais responsáveis pela halitose) e colonização da cavidade oral para competir com bactérias indesejáveis.
Parks diferenciou a abordagem do OraCMU das intervenções orais convencionais. “Com abordagens atuais para halitose, como antibacterianos e tratamentos dentários, existe uma estratégia mais ampla de ‘matar tudo’. É como usar um lança-chamas em um jardim apenas para eliminar ervas daninhas, quando, na realidade, o que precisamos é de uma abordagem de precisão.”
Dois estudos com cães foram apresentados. O primeiro, um ensaio placebo-controlado de seis semanas com 18 beagles saudáveis, testou três doses de OraCMU: 20 milhões, 200 milhões e 2 bilhões de unidades formadoras de colônia (UFC). Já na segunda semana, o grupo de baixa dose apresentou melhora significativa no hálito em comparação ao placebo. Na sexta semana, todos os grupos apresentaram melhora. Os níveis totais de VSCs nos grupos tratados ficaram iguais ou abaixo do limite de desconforto estabelecido de 1,5 nanograma por 10 mililitros até a sexta semana; o grupo placebo registrou quase o dobro desse valor.
O segundo estudo teve desenho semelhante, mas começou com uma raspagem dentária profissional para estabelecer uma linha de base limpa. Os resultados demoraram um pouco mais para atingir significância devido ao ponto de partida mais baixo, mas os grupos de baixa e alta dose apresentaram níveis de placa significativamente menores que o placebo entre a quarta e a sexta semana. De forma relevante, a placa bacteriana no grupo placebo continuou se acumulando ao longo do estudo, enquanto os grupos tratados com OraCMU permaneceram próximos aos valores basais, sugerindo que o ingrediente pode ajudar a prolongar o intervalo entre limpezas dentárias profissionais.
A análise do microbioma na sexta semana confirmou a colonização da cepa W. cibaria e níveis significativamente menores dos patógenos periodontais Fusobacterium nucleatum e Porphyromonas gulae em ambos os grupos tratados com OraCMU.
Parks destacou que o probiótico foi desenvolvido principalmente para aplicações em suplementos e apresenta melhor desempenho quando o tempo de exposição na cavidade oral é maximizado. Isso pode ser feito na adição do pó sobre o alimento ou misturado à água imediatamente antes do consumo. A dose-alvo é de 20 milhões de UFC, com recomendação de inclusão de 2 bilhões de UFC no momento da fabricação para compensar perdas de estabilidade ao longo da vida útil do produto.
Cuidados orais: contexto de mercado
Rathi contextualizou a oportunidade dentro de um mercado de cuidados orais para pets em crescimento. Atualmente, o segmento é avaliado em cerca de US$ 900 milhões (R$ 4,54 bilhões) e tem projeção de alcançar US$ 1,5 bilhão (R$ 7,56 bilhões), crescendo a uma taxa composta anual de 5,7%. Parks acrescentou que 94% dos tutores reconhecem que a saúde oral impacta a saúde geral dos pets, mas a adesão à escovação continua baixa, impulsionando a demanda por alternativas práticas.


















