
Antes de se tornar referência mundial, Jane Goodall descobriu com seu cachorro Rusty que os animais também pensam e sentem, uma ideia que, mais tarde, transformaria a ciência.Conhecida por ser pioneira no estudo dos chimpanzés, a etóloga e ativista britânica, que faleceu aos 91 anos em outubro, observava seu “professor de quatro patas” demonstrar emoções e individualidade, características que eram impossíveis aos animais, segundo o dogma científico da época.
Alguns anos atrás, assisti Goodall contar histórias sobre Rusty para uma plateia lotada na Mizzou Arena, em Columbia, nos Estados Unidos. Ela relembrou como interagia com o cachorro e percebia comportamentos que mostravam que ele pensava por conta própria. Naquele tempo, isso era considerado heresia científica. Por boa parte da história da ciência, as suposições predominantes ecoavam antigas crenças religiosas que separavam completamente humanos e animais. Biólogos e anatomistas muitas vezes viam os animais como pouco mais do que máquinas de carne.
Hoje, décadas depois, tanto a opinião pública quanto a acadêmica mudaram, passando a reconhecer melhor os estados mentais dos animais. Paralelamente, a humanização dos pets tornou-se uma poderosa força de mercado global para marcas de pet food.
Assim como a personalidade de Rusty fez com que Goodall enxergasse a capacidade mental nos animais, levando-a a dedicar sua vida à proteção de primatas, produtos destinados aos “filhos” de quatro patas podem estimular uma empatia ainda maior pelos animais selvagens.
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A humanização dos pets pode inspirar empatia pela vida selvagem?
Quando Goodall era criança, nas décadas de 1930 e 1940, pesquisadores rejeitavam qualquer evidência de que outros animais pudessem compartilhar características psicológicas com os humanos, chamando isso de antropomorfismo. As interações de Jane com Rusty ofereceram uma perspectiva oposta — menos dogmática — sobre os cães. Já nos anos 1960, quando Goodall começou a compartilhar suas descobertas sobre as comunidades de chimpanzés na Tanzânia, a maioria dos cientistas ainda rejeitava a ideia de que humanos e animais pudessem ter semelhanças mentais, apesar de tantas semelhanças biológicas.
Com o tempo, a documentação detalhada que Goodall fez do comportamento dos chimpanzés e dos humanos legitimou a ideia de que diferimos apenas em grau, não em essência. Ao trazer o público para dentro do mundo dos primatas e de outros animais, Goodall tornou a conservação algo pessoal, ajudando-nos a enxergar os animais não como recursos ou ornamentos, mas como seres parecidos conosco.
Em termos da indústria de pet food, poderíamos dizer que a humanização dos pets levou a descobertas revolucionárias na pesquisa e conservação dos chimpanzés selvagens. Pense em quantas “pequenas Janes” hoje estão aprendendo a se conectar com a mente de seus próprios animais de estimação. Que impacto isso pode ter sobre os esforços de conservação, ainda mais urgentes agora do que quando a Dra. Goodall iniciou seu trabalho?
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Um ciclo de empatia entre pets, pessoas e vida selvagem
Fico pensando se a humanização dos pets teria se tornado uma força global tão grande sem pessoas como Jane Goodall e Dian Fossey (a pesquisadora de gorilas que cresceu montando cavalos) que ofereceram provas empíricas da complexidade mental dos animais. Agora que a humanização dos pets move toda a indústria global de alimentos para animais de estimação, talvez o setor esteja ajudando a criar um ciclo de empatia. Rusty aprendeu truques com a jovem Goodall, e ela, por sua vez, fez várias observações sobre a inteligência dele enquanto o ensinava.
Não sei quais métodos ela usava com Rusty, mas eu usava petiscos como reforço positivo para ensinar meu cachorro de infância, Pepper. Talvez rações e petiscos para cães, gatos e outros animais sirvam também como uma forma de jovens cientistas — e de qualquer tutor — observarem e interagirem com a mente de outros seres vivos. Pesquisas mostram que o momento da refeição é o principal ponto de interação entre tutores e pets, e que os petiscos são vistos como demonstrações de afeto, não apenas ferramentas de adestramento.
Depois de testemunhar respostas emocionais de um cachorro ou gato, não é preciso muito esforço para reconhecer expressões semelhantes em guepardos, raposas-do-deserto ou outros animais selvagens. Nem todos podemos ser Jane Goodall, mas nossas relações com os pets ampliam nossa capacidade de empatia pela vida selvagem, algo de que precisamos, e muito, nesta era de extinção em massa.


















