Estudo alerta para riscos de gripe aviária em alimentos crus para pets

Cientistas sugerem que empresas que produzem alimentos crus para pets podem precisar implementar controles aprimorados e melhoria da higienização e tecnologias para mitigar riscos e evitar responsabilidade legal.

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Alimentos Crus Gripe Aviária

Um estudo publicado na edição mais recente do Journal of Food Protection indica que a crescente popularidade das dietas cruas podem significar riscos de transmissão de doenças zoonóticas, ou seja, infecções passadas de animais para humanos. Em especial, o trabalho alerta para a presença do vírus da influenza aviária altamente patogênica (HPAI), ou gripe aviária, em alimentos com carne e leite crus para pets. 

O trabalho, que se trata de uma revisão da literatura, resumiu as evidências científicas atuais sobre a presença do vírus H5N1, causador da HPAI, em alimentos crus para pets à base de carne (especialmente de aves) e leite não pasteurizado e aponta que essas dietas representam uma via de transmissão significativa para a infecção pelo vírus. De acordo com o levantamento, pelos menos oito casos de adoecimento e mortes de pets e recalls de alimentos indicam o risco. A revisão compilou dados de relatórios de vigilância, estudos experimentais, investigações de surtos e fontes regulatórias. 

Para fabricantes de alimentos crus, a revisão enfatizou que o vírus pode permanecer viável mesmo após refrigeração e congelamento. Contudo, os alimentos não são a única forma de transmissão da gripe aviária para cães e gatos. O trabalho também reforça que ambos podem contrair H5N1 por via respiratória, sendo que os gatos apresentam maior morbidade e mortalidade.

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“Ao aumentar a conscientização entre tutores, atores da indústria e veterinários, este estudo destaca a necessidade imediata de vigilância rigorosa e melhoria da biossegurança nas cadeias de alimentos crus, minimizando os riscos de transmissão viral, protegendo a saúde dos pets e reduzindo o potencial de transmissão para humanos”, escreveram os autores.

Gatos são mais vulneráveis à gripe aviária

O estudo documentou múltiplos surtos entre gatos associados ao consumo de alimentos crus contaminados com H5N1 nos Estados Unidos, Polônia e Coreia do Sul. 

O caso mais recente analisado pelo trabalho aconteceu nos Estados Unidos, em 2024. Na ocasião, um gato exclusivamente doméstico morreu após contrair HPAI H5N1 após consumir uma ração crua congelada de peru. O sequenciamento genômico confirmou uma correspondência direta entre o vírus isolado da ração crua congelada e o gato infectado. Este foi o primeiro caso relatado de ração crua como fonte de transmissão de HPAI H5N1 em animais de estimação no país. 

Desde então, três marcas de alimentos crus para pets emitiram recalls voluntários após casos de doença e morte em gatos devido à contaminação confirmada ou suspeita por H5N1. 

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O estudo também ressalta que os felinos parecem particularmente suscetíveis ao vírus, com muitos desenvolvendo doenças sistêmicas e neurológicas, frequentemente resultando em óbito. Não só os gatos são mais vulneráveis biologicamente do que cães, pela forma como o vírus interage com suas células nos tratos respiratório e gastrointestinal, como as práticas e o comportamento natural dos gatos, como caça de aves selvagens, aumentam a probabilidade de exposição ao vírus. Esse risco é mais acentuado em gatos de rua ou que vivem com acesso ao ar livre. 

No entanto, a alimentação com dietas cruas contaminadas é uma ameaça até para gatos domésticos sem acesso à rua. 

Gripe aviária em pets como risco global

O estudo contextualiza esses achados dentro da epidemiologia global, traçando a evolução da linhagem H5N1 clade 2.3.4.4b, que se espalhou por continentes desde 2020, infectando aves selvagens, aves domésticas, bovinos e diversos mamíferos. 

Embora a transmissão pet-to-human (animais para humanos) ainda não tenha sido confirmada, o contato próximo com animais infectados, principalmente ao lidar com alimentos crus, representa risco zoonótico plausível, em especial para pessoas imunocomprometidas.

Do ponto de vista regulatório, a revisão discute implicações legais, incluindo orientações recentes da Food and Drug Administration (FDA), órgão similar à Anvisa nos Estados Unidos, que exigem que fabricantes avaliem os perigos do HPAI H5N1 sob a Food Safety Modernization Act, regulamento do país sobre segurança alimentar preventiva. 

Segundo sugere o estudo, empresas de alimentos crus para pets podem precisar adotar controles aprimorados, como testes, higienização reforçada e tecnologias de redução de patógenos, para mitigar riscos e evitar responsabilidade legal.

Os autores ressaltam a importância de pesquisas e monitoramento contínuos na interação entre humanos e animais. Isso se torna ainda mais relevante com a crescente popularidade da alimentação crua, apesar dos riscos já comprovados.

Redução de riscos em alimentos crus à base de frango com produto à base de ácido lático

Sem o uso de altas temperaturas para eliminar patógenos como H1N1, Salmonella, Escherichia coli e Listeria monocytogenes, os alimentos crus necessitam de abordagens alternativas para inativar ameaças à saúde de animais de estimação e humanos. Pesquisas anteriores já demonstraram caminhos para isso.

Um estudo publicado também no Journal of Food Protection, mas em 2024, investigou como a combinação de processamento por alta pressão (HPP) e a adição de fermentado de ácido lático (LAF), um produto da fermentação de carboidratos contendo ácido lático, pode mitigar riscos de saúde em alimentos crus para cães e gatos.

Processamento por alta pressão como ferramenta de controle de patógenos

O HPP pode reduzir patógenos em alimentos, incluindo alimentos crus para pets. No trabalho, foi demonstrado que o HPP reduz de forma significativa os níveis de Salmonella spp., E. coli STEC e L. monocytogenes em alimentos crus.

“Os ingredientes utilizados em diferentes formulações podem afetar a eficácia do HPP para alcançar uma redução 99,999% de patógenos, e o armazenamento congelado mantém essa redução. Contudo, E. coli STEC e L. monocytogenes são mais resistentes ao HPP do que Salmonella spp., e sua inativação, especialmente em formulações de frango, pode ser inconsistente”, escreveram os cientistas.

Além disso, permanecem desafios para prevenir o crescimento potencial de L. monocytogenes durante o armazenamento refrigerado.

No estudo, os pesquisadores inocularam alimentos crus à base de frango com cocktails de patógenos e aplicaram HPP a 586 MPa por 2, 3 e 4 minutos. A eficácia do HPP foi aumentada com a adição de LAF a 0,7% ou 1,0% w/v, e os produtos foram armazenados congelados e monitorados por 21 dias.

Efeito sinérgico do fermentado de ácido lático

A integração do LAF na formulação de alimentos crus melhorou significativamente a inativação de patógenos:

  • Redução completa de patógenos: LAF a 1,0% combinado com HPP resultou na inativação completa de Salmonella spp., E. coli STEC e L. monocytogenes.
  • Controle aprimorado de L. monocytogenes: sem LAF, observou-se redução de 99,99% (4,02 logs) com HPP de 2 minutos, melhorando para 4,37 logs com 4 minutos. A adição de LAF eliminou o patógeno de forma mais eficaz.
  • Resiliência de E. coli STEC: apesar de maior resistência ao HPP, a combinação de HPP com 1,0% de LAF alcançou reduções robustas.
     

O ácido lático atua destruindo células bacterianas. Em ambientes ácidos, a forma não dissociada atravessa a membrana bacteriana e se dissocia no citoplasma, acidificando a célula, prejudicando enzimas e levando à morte celular. Combinado ao HPP, que compromete a integridade da membrana, o efeito sinérgico causa danos irreparáveis às células microbianas.

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Implicações operacionais para a indústria de alimentos para pets

A pesquisa destaca aplicações práticas da combinação HPP + LAF:

  • Formulação e controle de processo: a inclusão de LAF fornece uma barreira adicional de segurança, reduzindo a dependência de tratamentos prolongados de HPP e minimizando a degradação da qualidade.
  • Gestão de vida útil: produtos tratados com HPP e LAF mantiveram segurança microbiana durante armazenamento congelado, apoiando práticas recomendadas de distribuição e armazenamento.
  • Conformidade regulatória: os achados sustentam o uso de LAF como medida preventiva em planos HACCP (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle) para atingir metas rigorosas de redução de patógenos.

A combinação de fermentados de ácido lático com HPP oferece um método cientificamente validado para aumentar a segurança microbiológica de alimentos crus para pets, permitindo atender à demanda crescente por dietas cruas sem comprometer a qualidade do produto.

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